Continuação da Entrevista Exclusiva: Parte 5 do Texto

Existe uma valorização cada vez maior do trabalho voluntário e isso está virando, em algumas empresas, o fator decisório entre contratar ou não um empregado. Isso acaba criando uma ditadura do voluntariado, ou seja, as pessoas podem acabar fazendo trabalho voluntário simplesmente porque, num mercado cada vez mais competitivo, isso passaria a ser uma vantagem. Não seria uma perda do senso de altruísmo? Eu não estaria ajudando ninguém, senão a mim mesmo.
É verdade. Eu tenho uma participação muito grande no movimento do Terceiro Setor no Brasil e vejo que muitas empresas fazem trabalho voluntário porque as pessoas falam que, se a empresa fizer o trabalho voluntário, a sociedade vai ver o produto com bons olhos e quando ela tiver que decidir entre seu produto e o concorrente, vai pegar o seu.

Eu vejo que continuamos, de alguma maneira, não estimulando o amor ao próximo, mas estimulando o egoísmo, que é esse senso do retorno.

Quando a empresa investe em projetos sociais puramente movidos pelo marketing, o que acontece? Ela doa dinheiro a um orfanato e, da mesma maneira que corta a verba de publicidade impressa, também corta a verba para o orfanato.

Eu sou muito crítico quando a empresa faz um trabalho de responsabilidade social via departamento de marketing, que é o que muitas das grandes companhias fazem. Não é a empresa que cuida diretamente do assunto.

E o dinheiro gasto sai como verba de marketing. Então, quando o marketing decide que é melhor investir numa campanha de televisão do que na entidade X, eles cortam o auxílio financeiro, e isso é desumano.

O outro lado é que pode ser por um caminho errado que as pessoas se conscientizam e acabam amando o próximo, comovendo-se com aquele velhinho, com aquela pessoa com câncer, com aquela criança com Aids, com aquela pessoa cega, porque o outro lado dessa história é que o mundo não tem saída se não for através da solidariedade.

Se nem todos assumirem a gestão do mundo de uma maneira cooperativa, então será preciso que todos participem, ainda que de uma maneira “torta”. Já vimos empresas que entraram para fazer marketing, comoveram-se com a situação e começaram a atuar de uma maneira mais humana.

Seria como escrever certo por linhas tortas: o sujeito vai para uma Apae, para colocar no currículo que tem um projeto social, e, de repente, constatamos que ele se apaixonou pela ideia. É como aquele sujeito que sai com uma menina para ter simplesmente alguns momentos de prazer e se apaixona.

 

Fonte

Postado por: Wagner Borges em 25 de Fevereiro de 2005 no seu site www.ippb.org.br .


Agradecimento

Wagner Borges concedeu-me muito gentilmente, via e-mail, em 11 de setembro de 2007, permissão específica para aqui aproveitar os interessantes e úteis materiais do seu amplo site do IPPB. Muitíssimo obrigado ao Wagner pela sua generosa e inestimável colaboração. Mais detalhes aqui.

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