Poesias de Mia Couto


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Mia Couto

Mia Couto, pseudônimo de António Emílio Leite Couto, é um escritor e biólogo moçambicano, nascido em Beira, em 5 de julho de 1955. Recebeu muitos prêmios literários. Sua obra literária é extensa e diversificada, incluindo poesia, contos, romance e crônicas, e é considerado como um dos escritores mais importantes de Moçambique. Seus trabalhos são publicados em mais de 22 países e traduzidos em alemão, francês, espanhol, catalão, inglês e italiano.
(Resumido e adaptado da Wikipédia)

Índice

O habitante;
O poeta;
O pouco pó que somos;
O que direi;
o rei;
Para ti;
Poema da despedida.


O habitante

(ao meu pai)

Se partiste, não sei.
Porque estás,
tanto quanto sempre estiveste.

Essa tua,
tão nossa, presença
enche de sombra a casa
como se criasse,
dentro de nós,
uma outra casa.

No silêncio distraído
de uma varanda
que foi o teu único castelo,
ecoam ainda os teus passos
feitos não para caminhar
mas para acariciar o chão.

Nessa varanda te sentas
nesse tão delicado modo de morrer
como se nos estivesse ensinando
um outro modo de viver.

Se o passo é tão celeste
a viagem não conta
senão pelo poema que nos veste.

Os lugares que buscaste
não têm geografia.

São vozes, são fontes,
rios sem vontade de mar,
tempo que escapa da eternidade.

Moras dentro,
sem deus nem adeus.

(Em "Vagas e lumes". Lisboa:
Editorial Caminho, 2014.)


O poeta

O poeta não gosta de palavras
escreve para se ver livre delas.

A palavra
torna o poeta
pequeno e sem invenção.

Quando
sobre o abismo da morte,
o poeta escreve terra,
na palavra ele se apaga
e suja a página de areia.

Quando escreve sangue
o poeta sangra
e a única veia que lhe dói
é aquela que ele não sente.

Com raiva
o poeta inicia a escrita
como um rio desflorando o chão.
Cada palavra é um vidro em que se corta.

O poeta não quer escrever.
Apenas ser escrito.

Escrever, talvez,
apenas enquanto dorme.

(Em "Idades cidades divindades".
Lisboa: Editorial Caminho, 2007.)


O pouco pó que somos

Não calcas
apenas um pedaço de caminho.

A Terra inteira
está sempre debaixo dos teus pés.

O mesmo torrão que pisas
te irá pesar depois.

Se quiseres leve a eternidade
trata com leveza o chão.

Imaginas-te autor da viagem?

É o oposto:
a terra é que andou em ti.

E, sem queixa nem cansaço,
de mundo e gente
a Terra te acrescentou.

A estrada,
que acreditaste alheia e morta,
é o teu corpo
feito de pedra e sonho.

(Em "Vagas e lumes". Lisboa:
Editorial Caminho, 2014.)


O que direi

Direi que nasci
se fores água
em minha boca desaguada.

Direi que cheguei
se o teu peito
em mim abrir o seu leito.

O rio se espraia
para se perder do chão,
e eu de mim saberei
quando me afogar na tua mão.

Direi, então, que vivi
sem precisar de ter nascido.

(Em "Vagas e lumes". Lisboa:
Editorial Caminho, 2014.)


O rei

Dentro de nós há um rei
cujo único saber é não reinar.

O seu trono é tão nada
que nunca será destronado.

Um monarca sem castelo nem garupa
que apenas do ingovernável se ocupa:
neste mundo só entende quem ama.

E quem ama não sabe quem é.
Como este soberano
cuja coroa é tão leve
que apenas lhe dá licença
para um sonho breve.

Soberano tão esquecido de toda a lei
que, no fim, confessa:
- fui rei, apenas quando errei.

(Em "Vagas e lumes". Lisboa:
Editorial Caminho, 2014.)


Para ti

Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida.

(Em "Raiz de orvalho e outros poemas".
Lisboa: Editorial Caminho, 1999.)


Poema da despedida

Não saberei nunca
dizer adeus

Afinal,
só os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser

Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo

Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos

Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo.

(Em "Raiz de orvalho e
outros poemas". Lisboa:
Editorial Caminho, 1999.)

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Nota de Euro Oscar

Mantive o português de
Portugal, conforme os
textos originais e os
sítios consultados,
abaixo mencionados.


Fontes

Revista Prosa, Verso e Arte.

Templo Cultural Delfos


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