Poesias de Eugênio de Andrade


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Eugênio de Andrade

Eugénio de Andrade, pseudônimo de José Fontinhas, poeta português. Nasceu em Póvoa de Atalaia, em 19. 01. 1923, faleceu em Passeio Alegre, na Foz do Douro, em 13 de junho de 2005. Sagrou-se à poesia como uma espécie de monge. O encanto desta poesia capaz de suscitar uma emoção tão viva provém em grande medida da extraordinária harmonia ("aliança primogênita entre a palavra e a música") encontrada no corpo do poema.

Índice

O Caminho das Dunas;
O Lugar mais Perto;
O Olhar;
O Pequeno Sismo;
O Peso da Sombra;
O Sal da Língua;
O Sal da Terra;
O Silêncio;
O Sorriso;
Obscuro Domínio;
Ocultas Águas.


O Caminho das Dunas

Há um barco
há um homem nas areias.
Obscuramente aprende
a morrer onde as águas são mais duras.
Sei que é verão pelo hálito da loucura
o brilho em declínio das giestas
a caminho das dunas.
O homem adormecido
e a noite do poema eram de vidro.

(Em "Escrita da Terra." 1974.)


O Lugar mais Perto

O corpo nunca é triste;
o corpo é o lugar
mais perto onde o lume canta.
É na alma que a morte faz a casa.

(Em "Ofício de Paciência". 1994.)


O Olhar

Eu sentia os seus olhos beber os meus;
longamente bebiam, bebiam;
bebiam
até não me restar nas órbitas nenhuma
luz, nenhuma água,
nem sequer o sinal de neles ter chovido
naquele inverno.

(Em "Rente ao Dizer". 1992.)


O Pequeno Sismo

Há um pequeno sismo em qualquer parte
ao dizeres o meu nome.
Elevas-me à altura da tua boca
lentamente
para não me desfolhares.
Tremo como se tivera
quinze anos e toda a terra
fosse leve.
Ó indizível primavera!

(Em "Os Sulcos da Sede". 2001.)


O Peso da Sombra

A noite já devia ter caído, a pele do rio escurecera. Vozes felizes afastavam-se luminosas, desciam as escadas de mansinho, enquanto as lágrimas não tardariam a rebentar no escuro.
Eles não sabiam que o lobo conseguira fugir e o caçador adormecera de cansaço debaixo da grande árvore vermelha. Sem o menor ruído a porta começara a abrir-se primeiro foram só uns olhos de lume, depois o animal todo entrou no quarto.
Se tivesse de morrer seria agora, o peso da sombra sobre o coração, empurrando-me para as águas, cada vez mais próximas e desertas.

(Em "Memória doutro Rio". 1978.)


O Sal da Língua

Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém – mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.

(Em "O Sal da Língua". 1995.)


O Sal da Terra

Eram o sal da terra, as abelhas,
no ar leve
e verde das tílias.
Iam e vinham ligeiras como se a fadiga
lhes fosse alheia: algumas
regressavam à colina
onde tecem a seda da sombra;
outras caem a prumo,
embriagadas com a violenta
fragância das tímidas flores
quase apagadas.
Basta estar atento
à luz oblíqua para descobrir
como a perfeição é completa deste lado
do mundo. Mas só eu agora
de olhos fechados sigo o seu rumor.

(Em "Os Sulcos da Sede". 2001.)


O Silêncio

Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,
e o sono, a mais incerta barca,
ainda demora,
quando azuis irrompem
os teus olhos
e procuram
nos meus navegação segura,
é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,
pelo silêncio fascinadas.

(Em "Obscuro Domínio". 1972.)


O Sorriso

Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.

Correr, navegar, morrer naquele sorriso.

(Em "O Outro Nome da Terra". 1988.)


Obscuro Domínio

Amar-te assim desvelado
entre barro fresco e ardor.
Sorver entre lábios fendidos
o ardor da luz orvalhada.

Deslizar pela vertente
da garganta, ser música
onde o silêncio flui
e se concentra.

Irreprimível queimadura
ou vertigem desdobrada
beijo a beijo,
brancura dilacerada.

Penetrar na doçura da areia
ou do lume,
na luz queimada
da pupila mais azul,

no oiro anoitecido
entre pétalas cerradas,
no alto e navegável
golfo do desejo,

onde o furor habita
crispado de agulhas,
onde faça sangrar
as tuas águas nuas.

(Em "Obscuro Domínio". 1972.)


Ocultas Águas

Um sopro quase,
Esses lábios.

Lábios? Disse lábios,
areias?
Lábios. Com sede
ainda de outros lábios.

Sede de cal.
Quase lume.
Lume
quase de orvalho.

Lábios:
ocultas águas.

(Em "Mar de Setembro". 1961.)


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Fonte

Templo Cultural Delfos.


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aos herdeiros do autor.

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