Poesias de Eugênio de Andrade


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Eugênio de Andrade

Eugénio de Andrade, pseudônimo de José Fontinhas, poeta português. Nasceu em Póvoa de Atalaia, em 19. 01. 1923, faleceu em Passeio Alegre, na Foz do Douro, em 13 de junho de 2005. Sagrou-se à poesia como uma espécie de monge. O encanto desta poesia capaz de suscitar uma emoção tão viva provém em grande medida da extraordinária harmonia ("aliança primogênita entre a palavra e a música") encontrada no corpo do poema.

Índice

Oiço Falar;
Onde me Levas, Rio que Cantei...;
Os Frutos;
Os Livros;
Ostinato;
Ouço Correr a Noite...;
Outono;
Pequena Elegia de Setembro;
Prato de Figos;
Procuro-te.


Oiço Falar

Oiço falar da minha vocação
mendicante e sorrio. Porque não sei
se tal vocação não é apenas
uma escolha entre riquezas, como Keats
diz ser a poesia.
Desci à rua pensando nisto,
atravessei o jardim, um cão
saltava à minha frente,
louco com as folhas do outono
que principiara e doiravam
o chão. A música,
digamos assim,
a que toda a alma aspira,
quando a alma
aspira a ter do mundo o melhor dele,
corria á minha frente, subia
por certo aos ouvidos de deus
com a ajuda de um cão,
que nem sequer me pertencia.

(Em "O Sal da Língua". 1995.)


Onde me Levas, Rio que Cantei...

Onde me levas, rio que cantei,
esperança destes olhos que molhei
de pura solidão e desencanto?
Onde me levas?, que me custa tanto.

Não quero que conduzas ao silêncio
duma noite maior e mais completa,
com anjos tristes a medir os gestos
da hora mais contrária e mais secreta.

Deixa-me na terra de sabor amargo
como o coração dos frutos bravos,
pátria minha de fundos desenganos,
mas com sonhos, com prantos, com espasmos.

Canção, vai para além de quanto escrevo
e rasga esta sombra que me cerca.
Há outra face na vida transbordante:
que seja nessa face que me perca.

(Em "As Mãos e os Frutos". 1948.)


Os Frutos

Assim eu queria o poema:
fremente de luz, áspero de terra,
rumoroso de águas e de vento.

(Em "Ostinato Rigore". 1964.)


Os Livros

Os livros. A sua cálida,
terna, serena pele. Amorosa
companhia. Dispostos sempre
a partilhar o sol
das suas águas. Tão dóceis,
tão calados, tão leais.
Tão luminosos na sua
branca e vegetal e cerrada
melancolia. Amados
como nenhuns outros companheiros
da alma. Tão musicais
no fluvial e transbordante
ardor de cada dia.

[Num exemplar das Geórgicas]

(Em "Ofício de Paciência". 1994.)


Ostinato

Ao desejo,
à sombra aguda
do desejo,
eu me abandono.

Meu ramo de coral,
meu areal,
meu barco de oiro,
eu me abandono.

Minha pedra de orvalho,
meu amor,
meu punhal,
eu me abandono.

Minha luz queimada,
violada,
colhe-me, recolhe-me:
eu me abandono.

(Em "Mar de Setembro". 1961.)


Ouço Correr a Noite...

Ouço correr a noite pelos sulcos
do rosto – dir-se-ia que me chama,
que subitamente me acaricia,
a mim, que nem sequer sei ainda
como juntar as sílabas do silêncio
e sobre elas adormecer.

(Em "O Peso da Sombra". 1982.)


Outono

O Outono vem vindo, chegam melancolias,
cavam fundo no corpo,
instalam-se nas fendas; às vezes
por aí ficam com a chuva
apodrecendo;
ou então deixam marcas, as putas,
difíceis de apagar, de tão negras,
duras.

(Em "O Outro Nome da Terra". 1988.)


Pequena Elegia de Setembro

Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.
Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos pousados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de setembro.

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?

Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.

Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?

Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.

(Do livro "Coração do Dia
(1958)", em "Poesia e Prosa",
Vol. I, "O Jornal" / Limiar,
Lisboa, 1990, p.79-80.)


Prato de Figos

Também a poesia é filha
da necessidade —
esta que me chega um pouco já
fora do tempo
deixou de ser a sumarenta alegria
do sol sobre a boca;
esta, perdida a fresca
e nacarada pele adolescente,
mais parece um desses figos
secos ao sol de muitos dias
que no inverno sempre se encontram
postos num prato
para comeres junto ao fogo.

(Do livro "Rente ao Dizer (1992)
"/em "Poesia". [Posfácio de
Arnaldo Saraiva]. 2ª ed.,
revista e acrescentada. Porto:
Fundação Eugénio de Andrade,
2005, p. 475-476.)


Procuro-te

Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.

Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido.

Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.

Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças
mas não quando se ama,
não quando apertamos contra o peito
uma flor ávida de orvalho.

Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.

Porém eu procuro-te.
antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre – procuro-te.

(Em "As Palavras Interditas". 1951.)


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Fonte

Templo Cultural Delfos


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