Poesias de Eugênio de Andrade


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Eugênio de Andrade

Eugénio de Andrade, pseudônimo de José Fontinhas, poeta português. Nasceu em Póvoa de Atalaia, em 19. 01. 1923, faleceu em Passeio Alegre, na Foz do Douro, em 13 de junho de 2005. Sagrou-se à poesia como uma espécie de monge. O encanto desta poesia capaz de suscitar uma emoção tão viva provém em grande medida da extraordinária harmonia ("aliança primogênita entre a palavra e a música") encontrada no corpo do poema.

(Resumido e adaptado de
www.elfikurten.com.br/2015/05/
eugenio-de-andrade.html
e da Wikipédia
)

Índice

Nas Palavras;
No Lume no Gume;
No meu Desejo;
Nocturno a Duas Vozes;
Noite Transfigurada;
Nos teus Dedos...;
Numa Fotografia;
O Amor.


Nas Palavras

Respiro a terra nas palavras,
no dorso das palavras
respiro
a pedra fresca da cal;
respiro um veio de água
que se perde
entre as espáduas
ou as nádegas;
respiro um sol recente
e raso
nas palavras,
com lentidão de animal.

(Em "Obscuro Domínio", 1972.)


No Lume no Gume

Vê como a nudez cresce.
Seria fácil pousar agora
no lume
ou no gume do silêncio
se houvesse vento:
mas quem se lembra do branco
aroma da alegria?
Reconheço no vagaroso
andar da chuva o corpo do amor:
vem ferido: nas suas mãos
como dormir?
Como enxotar a morte: esse animal
sonâmbulo dos pátios da memória?
Bago a bago podes colher
a noite: está madura:
podes levar à boca
a preguiçosa espuma
das palavras.
E crescer para a água.

(Em "Véspera da Água". 1973.)


No meu Desejo

Tem dó de quem não dorme,
de quem passa a noite à espera
que desperte o silêncio.
O vento devia cantar nos plátanos
com a lua nova, ser mais uma folha
feliz nos ombros do outono.
Mas o vento parecia ter endoidecido:
de leste a oeste varria
a rua, varria a noite: o vento
alegremente
varria o mundo ? em turbilhão
arrastava o lixo mil vezes imundo.
E o sono chegava.

(Em "Sal da Língua". 1995.)


Nocturno a Duas Vozes

- Que posso eu fazer
senão beber-te os olhos
enquanto a noite
não cessa de crescer?

- Repara como sou jovem,
como nada em mim
encontrou o seu cume,
como nenhuma ave
poisou ainda nos meus ramos,
e amo-te,
bosque, mar, constelação…

- Não tenhas medo:
nenhum rumor,
mesmo o do teu coração,
anunciará a morte;
a morte
vem sempre de outra maneira,
alheia
aos longos, brancos
corredores da madrugada.

- Não é de medo
que tremem os meus lábios,
tremo por um fruto de lume
e solidão
que é todo o oiro dos teus olhos,
toda a luz
que os meus dedos têm
para colher na noite.

- Vê como brilha
a estrela da manhã,
como a terra 7
é só um cheiro de eucaliptos
e um rumor de água
vem no vento…

- Tu és a água, a terra, o vento,
a estrela da manhã és tu ainda.

- Cala-te as palavras doem.
Como dói um barco,
como dói um pássaro
ferido
no limiar do dia.
Amo-te.
Amo-te para que subas comigo
á mais alta torre,
para que tudo em ti
seja verão, dunas e mar.

(Em "Ostinato Rigore". 1964.)


Noite Transfigurada

Criança adormecida, ó minha noite,
noite perfeita e embalada
folha a folha,
noite transfigurada,
ó noite mais pequena do que as fontes,
pura alucinação da madrugada
– chegaste,
nem eu sei de que horizontes.
Hoje vens ao meu encontro
nimbada de astros,
alta e despida
de soluços e lágrimas e gritos
– ó minha noite, namorada
de vagabundos e aflitos.
Chegaste, noite minha,
de pálpebras descidas;
leve no ar que respiramos,
nítida no ângulo das esquinas
– ó noite mais pequena do que a morte:
nas mãos abertas onde me fechaste
ponho os meus versos e a própria sorte.

(Em "As Mãos e os Frutos". 1948.)


Nos teus Dedos...

Nos teus dedos nasceram horizontes
e aves verdes vieram desvairadas
beber neles julgando serem fontes.

(Em "As Mãos e os Frutos". 1948.)


Numa Fotografia

Não sejas como a névoa, nem quimera.
Demora-te, demora-te assim:
faz do olhar
tempo sem tempo, espaço
limpo – do deserto ou do mar.

(Em "O Outro Nome da Terra". 1988.)


O Amor

Estou a amar-te como o frio
corta os lábios.
A arrancar a raiz
ao mais diminuto dos rios.
A inundar-te de facas,
de saliva esperma lume.
Estou a rodear de agulhas
a boca mais vulnerável.
A marcar sobre os teus flancos
o itinerário da espuma.
Assim é o amor: mortal e navegável.

(Em "Obscuro Domínio". 1972.)


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Fonte

Templo Cultural Delfos.


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