Poesias de Mia Couto


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Mia Couto

Mia Couto, pseudônimo de António Emílio Leite Couto, é um escritor e biólogo moçambicano, nascido em Beira, em 5 de julho de 1955. Dentre os muitos prêmios literários com os quais foi galardoado está o Prêmio Neustadt, tido como o "Nobel Americano" — Couto e João Cabral de Melo Neto foram os únicos escritores de língua portuguesa que receberam tal honraria.

Mia Couto tem uma obra literária extensa e diversificada, incluindo poesia, contos, romance e crônicas, e é considerado como um dos escritores mais importantes de Moçambique. As suas obras são publicadas em mais de 22 países e traduzidas em alemão, francês, espanhol, catalão, inglês e italiano.
(Resumido e adaptado da Wikipédia)

Índice

A adiada enchente;
A casa;
As ruas;
Autobiografia;
Errata;
Espiral.


A adiada enchente

Velho, não.
Entardecido, talvez.
Antigo, sim.

Me tornei antigo
porque a vida,
tantas vezes, se demorou.
E eu a esperei
como um rio aguarda a cheia.

Gravidez de fúrias e cegueiras,
os bichos perdendo o pé,
eu perdendo as palavras.

Simples espera
daquilo que não se conhece
e, quando se conhece,
não se sabe o nome.

(Em "Idades cidades divindades".
Lisboa: Editorial Caminho, 2007.


A casa

Sei dos filhos
pelo modo como ocupam a casa:
uns buscam os recantos,
outros existem à janela.

A uns satisfaz uma sombra,
a outros nem o mundo basta.
Uns batem com a porta,
outros hesitam como se não houvesse saída.

Raras vezes sou pai.
Sou sempre todos os meus filhos,
sou a mão indecisa no fecho,
sou a noite passada entre relógio e escuro.

Em mim ecoa a voz
que, à entrada, se anuncia: cheguei!
E eu sorrio, de resposta: chegou?
Mas se nunca ninguém partiu…

E tanto em mim
demoram as esperas
que me fui trocando por soalho
e me converti em sonolenta janela.

Agora, eu mesmo sou a casa,
casa infatigável casa
a que meus filhos
eternamente regressam.

(Em “Tradutor de chuvas”. Lisboa:
Editorial Caminho, 2011.)


As ruas

No tempo
em que havia ruas,
ao fim da tarde
minha mãe nos convocava:
era a hora do regresso.
E a rua entrava
connosco em casa.
Tanto o Tempo
morava em nós
que dispensávamos futuro.
Recolhida em meu quarto,
a cidade adormecia
no mesmo embalo da nossa mãe.
À entrada da cama,
eu sacudia a areia dos sonhos
e despertava vidas além.
Entre casa e mundo
nenhuma porta cabia:
que fechadura encerra
os dois lados do infinito?

(Em “Tradutor de chuvas”. Lisboa:
Editorial Caminho, 2011.)


Autobiografia

Onde eu nasci
há mais terra que céu.

Tanto leito é uma bênção
para mortos e sonhadores.

E de tão pouco ser o céu
nasce o sol
em gretas nos nossos pés
e os corações se apertam
quando remoinhos de poeira
se elevam nos telhados.

As mães
espanam o teto
e poeiras de astros
cobrem o soalho.

De tão raso o firmamento,
a chuva tropeça nas copas
enquanto nuvens
se engravidam de rios.

Com tanta escassez de céu
não há encosto
nem para a mais minguante lua
e os meninos,
na ponta dos dedos,
ascendem estrelas.

Pois,
nessa terra
que é tanta para tão pouco céu,
calhou-me a mim ser ave.

Pequenas que são,
as minhas asas parecem-me enormes.

Envergando,
escondo-as dos olhares vizinhos.

Nas minhas costas
pesam
versos e plumas.

Voarei,
um dia,
sem saber
se é de terra ou de céu
a pegada do voo que sonhei.

(Em "Vagas e lumes". Lisboa:
Editorial Caminho, 2014.)


Errata

Quem é mortal, mente.

Mentirosos,
ainda mais,
os tais
imortais.

Sem culpa uns e outros.

O verbo morrer
é que é sujeito falso
e de duvidosa acção.

Mais verdadeiro seria
se não fosse verbo.

Ou se conjugasse apenas
em forma passiva: ser morrido.

Como eu,
mais que as vezes que nasci,
fui morrido por ti.

E, assim, findo
num engano de rio:
simulando que morre
mas sendo água eterna.

(Em "Vagas e lumes". Lisboa:
Editorial Caminho, 2014.)


Espiral

No oculto do ventre,
o feto se explica como o Homem:
em si mesmo enrolado
para caber no que ainda vai ser.

Corpo ansiando ser barco,
água sonhando dormir,
colo em si mesmo encontrado.

Na espiral do feto,
o novelo do afecto
ensaia o seu primeiro infinito.

(Em “Tradutor de chuvas”. Lisboa:
Editorial Caminho, 2011.)

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Nota de Euro Oscar

Mantive o português de
Portugal, conforme os
textos originais e os
sítios consultados,
abaixo mencionados.


Fontes

Revista Prosa, Verso e Arte.

Templo Cultural Delfos


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