Poesias de Lya Luft


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Lya Luft

Lya Fett Luft (Santa Cruz do Sul, 15 de setembro de 1938) é uma escritora, tradutora e colunista brasileira. No total, já escreveu e publicou pelo menos 23 livros, entre romances, coletâneas de poemas, crônicas, ensaios e livros infantis e suas obras continuam sendo traduzidas para diversos idiomas.

Ela revelou: "Sou fascinada pelo lado complicado. Tenho um olho alegre que vive: sou uma pessoa despachada, adoro família, adoro a natureza. Mas eu tenho um outro olho que observa o lado difícil, sombrio. A minha literatura nunca vai ser "aí casaram e foram felizes para sempre". Minha literatura sempre nasceu do conflito, da dificuldade, do isolamento."
(Resumido e adaptado da Wikipédia)

Índice

A Casa Inventada;
Aviso;
Canção da Escuta;
Canção do Caleidoscópio;
Canção em Outras Palavras;
Convite.


A Casa Inventada

A vida é uma casa que a gente inventa (ou tenta).
Com um sótão para sonhar,
porões para chorar,
um quintal para as festas e os delírios.
No meio porém passam as águas do tempo
que tudo leva de roldão, tudo
transforma em cacos, trapos, lascas.

Melhor montar as ondas
agarrada nas espumas, e deixar-se levar
entre estrelas, escolhas
e destroços.

Melhor se reinventar.
Melhor contemplar.
(Melhor ainda, nadar.)
Ou ele nos devora, nos cospe fora
como sementes ou cascas.

Um dia vamos achar na praia
o que sobrou de nós:
que não sejam só os ossos.

("Coletânea de Poesia Gaúcha
Contemporânea." Organizador:
Dilan Camargo. Porto Alegre:
Assembleia Legislativa, 2013.
354 p. ISBN 978-85-66054-002.
Ex. bib. Antonio Miranda.
www.antoniomiranda.com.br/
poesia_brasis/
rio_grande_sul/
lya_luft.html)


Aviso

Se me quiserem amar, terá de ser agora:
depois, estarei cansada.
Minha vida
foi feita de parceria com a morte:
pertenço um pouco a cada uma,
para mim sobrou quase nada.

Ponho a máscara do dia,
um rosto cômodo e fixo:
assim garanto a minha sobrevida.
Se me quiserem amar, terá de ser hoje:
amanhã, estarei mudada.

(Em "Mulher no palco", 1984.)


Canção da Escuta

O sonho na prateleira
me olha com seu ar
de boneco quebrado.

Passo diante dele muitas vezes
e sorrimos um para o outro,
cúmplices de nossos desastres cotidianos.

Mas quando o pego no colo
(como às bonecas tão antigamente)
para avaliar se tem conserto
ou se ficará para sempre como está,
sinto sem estranheza
que dentro dele ainda bate
um pequeno tambor obstinado
e marca – timidamente –
um doce ritmo nos meus passos.

(Em "Secreta mirada", 1997.)


Canção do Amor Sereno

Vem sem receio: eu te recebo
Como um dom dos deuses do deserto
Que decretaram minha trégua, e permitiram
Que o mel de teus olhos me invadisse.

Quero que o meu amor te faça livre,
Que meus dedos não te prendam
Mas contornem teu raro perfil
Como lábios tocam um anel sagrado.

Quero que o meu amor te seja enfeite
E conforto, porto de partida para a fundação
Do teu reino, em que a sombra
Seja abrigo e ilha.

Quero que o meu amor te seja leve
Como se dançasse numa praia uma menina.


Canção do Caleidoscópio

Quando achei que era tempo de sossego
jorraste nas minha veias
como um vento sagrado, um mar perdido.
Quando esperei que tudo tivesse sido
vivido, sofrido e chorado,
amadureceu esta fruta em meu deserto.

Quando pensei chegar no fim
de todos os corredores,
esta porta se abriu: sei que estás ali
a desenhar paisagens novas
plantar árvores e deitar rios
onde eu imaginava haver sabedoria
e um corpo apaziguado,
nada mais.

(Em "Secreta Mirada", 1997.


Canção em Outras Palavras

O melhor cuidado com o amor
é deixar que floresça,
pois amor não se cultiva: é flor
selvagen, bela por ser livre.
Como as estações do ano, ele se abre,
dorme, e volta a perfumar a vida.
Amor é dom que se recebe
com ternura, para que não pereça
sua delicadeza em nossa angústia.

O amor não deve encerrar a coisa possuída,
mas ser parapeito de janela, ou cais
de onde se desprendam os revoos
e partam os navios da beleza
para voltar ou não, conforme amarmos:
nem de menos
nem demais.

(Em "Secreta Mirada", 1997)


Convite

Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou
mistério.

A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos
a sério.

Fonte: www.contobrasileiro.com.br


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Fonte Principal

Templo Cultural Delfos

E as outras fontes precitadas.


Direitos Autorais

Pesquisa e seleção de
Euro Oscar, para este sítio.


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