Poesias de Huberto Rohden


Página 4


Huberto Rohden

Huberto Rohden (São Ludgero, Santa Catarina, 30 de dezembro de 1893 — São Paulo, 7 de outubro de 1981) foi um filósofo, educador e teólogo Brasileiro. Precursor do espiritualismo universalista, escreveu mais de 100 obras (ao final da vida, condensadas em 65 livros), enfatizando o autoconhecimento, a autoeducação e a autorrealização.

Tradutor do Novo Testamento, da Bhagavad Gita e do Tao Te Ching, preocupou-se em editá-los a preços populares, de modo que facilitasse a democratização do conhecimento.
(Resumido e adaptado da Wikipédia)

Índice

Os Três Mundos Dentro de Mim;
Em Solitude Glacial.


Os Três Mundos Dentro de Mim

Indefeso jornadear é a minha vida.
Cruzei solitários Saaras,
Galguei gigantescos Himalaias,
Perdi-me em vastas selvas,
Desci a tenebrosos abismos
Até, finalmente, atingir um oásis de paz,
De uma paz profunda, nascida da Verdade...
Entrei no terceiro e último
Dos meus mundos de dentro...
Arribei à mais longínqua galáxia
Dos universos de Deus...

No princípio, quando minha alma era criança,
Necessitava eu duma autoridade externa,
De um homem super-homem,
Que me guiasse pela mão,
Rumo a Deus.
E eu vivia tranquilo nesse mecanismo
De cega obediência
A um homem que fazia as vezes de Deus.

Mais tarde, muito mais tarde,
Quando adolescente,
Em face das fraquezas dos homens de fora,
Desiludido, decepcionado,
Agarrei-me a outra tábua salvadora,
Em pleno naufrágio.
Analisei fatos históricos,
Estudei livros sagrados,
Relíquias de primitivas eras
E minha fé em Deus se robusteceu
E se purificou.

Encontrei o meu Deus
No mundo dos homens
E sentia-me muito seguro
De mim mesmo.

Mas... o mundo é tão paradoxal,
Tão vácuo de Deus
E tão pleno de Satã,
Pleno de luzes...

Insatisfeito com o mundo de Deus,
Fui em busca de Deus
Dentro de mim mesmo...

Em longas horas de silente introspecção,
Em noites solenes de êxtase anônimo,
Em abismos de dinâmica passividade,
Em epopeias de luminosa escuridão,
Em céus infernais de dulcíssimas agonias,
Em silenciosos brados de amorosa tortura
Encontrei-me com o grande Anônimo
De mil nomes...

Celebrei as minhas núpcias místicas
Com o Infinito EU SOU...
E eclipsaram-se todos os mundos de Deus,
Aos fulgores do Deus dos mundos...
E eu era feliz, na certeza do meu destino,
Do porquê da minha vida terrestre...

Hoje, a luz de dentro
Me reconciliou com o mundo de fora
Hoje a experiência do Deus do mundo
Me tornou tolerável o mundo de Deus.

(“Escalando o Himalaia”, Editora Alvorada.)


Em Solitude Glacial

Procura a tua felicidade em fazer felizes os outros.
Pensa sempre em dar - e nunca em receber.
Dá-te aos homens aos quais possas ser
pai, filho, irmão, amigo, servo samaritano, redentor.

Sê como o sol ardente no espaço glacial do universo,
irradiando perenemente luz e calor,
ainda que nada recebas em retribuição.

Lá se vão, dia a dia, esses oceanos de claridade solar,
perdendo-se na vastidão do cosmos circunjacente,
abismando-se na imensa frialdade do vácuo...

Consome-se o grande astro, há milhares de milênios,
na vasta solitude do deserto cósmico, sem jamais perceber
o menor efeito da sua constante irradiação.

Verdade é que, à distância de 150 milhões de quilômetros
do seu foco, existe um pequeno planeta em cuja superfície
produzem os raios solares epopeias de vida e beleza
e desenham no espaço fantásticas pontes de sete cores
- mas o Sol nada disso sabe, nada disso vê,
nada disso sente nem adivinha...

A sua solidão é absoluta...

Assim, meu ignoto amigo, há de fatalmente acontecer
a ti, a mim, a todos nós que
queremos fazer o bem por causa do bem...

-Há mais felicidade em dar que em receber-...

Deus, o grande sol do universo espiritual,
dá tudo e não recebe nada.

E quanto mais o homem se aproxima de Deus,
mais participa desta felicíssima infelicidade,
de sempre dar sem nunca receber.

Só pode dar sempre sem abrir falência o homem que
dentro do próprio Eu possui inesgotável fonte de riqueza.

Não te iludas, meu amigo!
Serás como uma voz a clamar no deserto...

Uma voz que, talvez, não desperte nenhum eco
de amizade e compreensão, no silencioso Saara das almas...

Talvez não surja no horizonte nenhum oásis
de benevolência e amor, por mais que os teus olhos
sedentos interroguem a intérmina monotonia do areal...

Entretanto, continua a dar aos homens o que tens
e o que és - porque é divinamente belo
dar sem esperança de receber.

Consome-te, solitário astro de incompreendido amor,
exaure-te em pleno deserto de indiferença e ingratidão...

Ainda que nada percebas dos efeitos da tua irradiação,
algures, é certo, brotam flores, cantam passarinhos,
brilham olhos, sorriem lábios infantis,
rejubilam corações humanos
-porque tu, herói anônimo, existes,

Vives...

Oras...

Amas...

Sofres...

(Do livro "De Alma para Alma")

Próxima (5) | Índice | Anterior (3)


Fonte dos Textos

www.cuidardoser.com.br


Buscar no Site


Buscar na Web


Home