Poesias de Adalgisa Nery


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Adalgisa Nery

Adalgisa Nery nasceu em 29/10/1905 no Rio de Janeiro. Casou-se aos 16 anos com o pintor Ismael Nery. O casamento durou até a morte do pintor, em 1934. Eles tiveram sete filhos, todos homens, mas apenas o mais velho, Ivan, e o caçula, Emmanuel, sobreviveram. Viúva aos 29 anos, foi trabalhar na Caixa Econômica e depois na área diplomática. Em 1940 casou-se com o jornalista e advogado Lourival Fontes. Seguiu o marido nos EUA e no México em funções diplomáticas.

O casamento com Lourival durou 13 anos. Depois disso, ela se tornou jornalista e foi eleita deputada três vezes, mas seus direitos políticos foram cassados em 1969. Sem recursos, morou solitária em uma casa do comunicador Flávio Cavalcanti, em Petrópolis, de 1974 a 1975. Em maio de 1976, mesmo sem estar doente, preferiu internar-se numa casa de repouso para idosos, em Jacarepaguá. Em 1977, sofreu um acidente vascular cerebral e ficou afásica e hemiplégica. Faleceu em 07 de junho de 1980, sozinha.

A obra de Adalgisa inclui pelo menos doze obras, na maior parte de poemas. Escreveu também contos, crônicas e dois romances.
(Resumido e adaptado do site Recanto das Letras, cujo link está no final.)

Índice

Poema Simples;
Repouso;
Silêncio;
Solidão;
Ternura;
Vivência.


Poema Simples

Deixa-me recolher as rosas que estão morrendo nos jardins da noite,
Deixa-me recolher o fruto antes que este volva as raízes da terra,
Deixa-me recolher a estrela úmida
Antes que sua luz desapareça na madrugada,
Deixa-me recolher a tristeza da alma
Antes que a lágrima banhe a pálpebra
Do órfão abandonado e faminto,
Deixa-me recolher a ternura parada
No coração da mulher que desejou ser mãe.
Deixa-me recolher a esperança dos que acreditam,
Recolher o que ainda não passou
E mais do que tudo dá-me a recolher
A palavra de amor e de doçura para que reparta
Com os ouvidos que esperam como uma gota de mel
Caindo na alma e no coração,
Como a única luz dentro de tanta escuridão.

(Em: Mundos Oscilantes, 1962.)


Repouso

Dá-me tua mão
E eu te levarei aos campos musicados pela canção das colheitas
Cheguemos antes que os pássaros nos disputem os frutos,
Antes que os insetos se alimentem das folhas entreabertas.
Dá-me tua mão
E eu te levarei a gozar a alegria do solo agradecido,
Te darei por leito a terra amiga
E repousarei tua cabeça envelhecida
Na relva silenciosa dos campos.
Nada te perguntarei,
Apenas ouvirás o cantar das águas adolescentes
E as palavras do meu olhar sobre tua face muito amada.

(Em: As Fronteiras da Quarta Dimensão, 1951.)


Silêncio

Nas mãos inquietas
Cansadas esperanças
Tateando formas na luz ausente,
Nos olhos embrumados
A viva cruz do alívio,
Na boca imobilizada
A palavra amortalhada.
E à tona da fugaz realidade
O mistério das surpresas superadas.
Paisagem de espaços, e fantasmas
Ordenam não falar, não morrer,
Ouvir sem conduzir o pensamento,
Viver os vazios lúcidos
Entre a palavra e o som
Do coração a bater.
Resta apenas a flutuação ociosa
Livre das coisas da memória, da discordância
Das ideias obsessivas
Que escondidas estavam
Como fantásticos tesouros
Em frágeis e indefesas mãos.

(Em: Erosão, 1973.)


Solidão

O espírito da tempestade que executa a minha palavra
Partiu
E minha forma assim abandonada
Caiu.
Vieram depois a aflição e a agonia
E cresceram em mim
Como a aurora e o dia.
E se eu quisesse contar, homens irmãos,
Desde quando meu coração está isento de alegria,
Acreditem,
Não poderia.
Há muitos séculos mora em mim
Uma noite muito escura, muito fria.

(Em: Mundos Oscilantes, 1962.)


Ternura

Antes que eu me transforme em água
E corra com os rios
Cantando para as florestas escuras
A canção sublime
Deixa-me contemplar tua face amada
Para que a canção se eternize.
Antes que os meus olhos se transformem
nos minúsculos vermes
Que movimentam o solo
Deixa-me receber a luz de tua boca
Para que eu me ilumine como as estrelas
No infinito da noite.
Antes que minhas mãos se mudem nas pedras das montanhas
Por onde caminharão os jovens pastores
Deixa-me afagar teus cabelos
Para que meu carinho se transforme na brisa
Que beija os grandes trigais.
Antes que minha forma sirva junto às raízes
Para amadurecer os frutos
Guarda-me na música de teu corpo
Para que o mistério do amor
Baixe sobre o universo
E banhe os espíritos perturbados.

(Em: Mundos Oscilantes, 1962.)


Vivência

Começamos a viver
Quando saímos do sono da existência,
Quando as distâncias se alongam nas partículas do corpo.
Começamos a viver
Quando confusos e sem consolo
Não sentimos os traços do irmão perdido.
Quando antes da força
Surge a sombra do insignificante.
Quando o sono é transformado em sonhos superados,
Quando o existir não é contradição.
Começamos a viver
Quando percebemos a mutação das células,
Quando fugimos de dentro de nós mesmos
E escondemos a nossa carne num caramujo oco.
Quando o espírito falsificado esquece
As tortuosas estradas
E quando deixamos de ser escaravelhos laboriosos.
Começamos a viver
Quando velamos além do sono
A vida irreal dos nossos passos.

(Em: Erosão, 1973.)


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Fonte

Templo Cultural Delfos.

Recanto das Letras:
Biografia (resumida e adaptada)


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