Poesias de Sophia de Mello Breyner Andresen


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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner nasceu em 6 de novembro 1919 no Porto e faleceu em 2 de julho de 2004, em Lisboa. Profundamente mediterrânica na sua tonalidade, a sua linguagem poética denota uma sólida cultura clássica, onde se inscreve a sua paixão pela cultura grega como referente quase sempre presente e onde a relação do signo com o mundo circundante é uma relação de transparência e luminosidade. Criou também apreciadas obras da literatura infantil.
(Resumido e adaptado de CDAP - Casa Fernando Pessoa e Porto Editora, apud Templo Cultural Delfos, site de Elfi Kürten Fenske, www.elfikurten.com.br)

Índice

Canção 2;
Chamo-te porque Tudo Está ainda no Princípio;
Cidade;
Como uma flor vermelha;
Enquanto Longe Divagas;
Escuto;
Esta Gente;
Este Búzio de Cós;
Este é o Tempo.


Canção 2

Clara uma canção
Rente à noite calada
Cismo sem atenção
Com a alma velada

A vida encontrei-a
Tão desencontrada
Embora a lua cheia
E a noite extasiada

A vida mostrou-se
Caminho de nada
Embora brilhasse
Lua sobre a estrada

Como se a beleza
Da lua ou do mar
Nada mais quisesse
Que o próprio brilhar

Por esta razão
Sem riso nem pranto
Neste sem sentido
Se rompe o encanto

(Em "Ilhas", 1989.)


Chamo-te porque Tudo Está ainda no Princípio

Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.

Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só dos teus olhares me purifique e acabe.

Há muitas coisas que eu quero ver.

Peço-Te que sejas o presente.
Peço-Te que inundes tudo.
E que o teu reino antes do tempo venha.
E se derrame sobre a Terra
Em primavera feroz pricipitado.


Cidade

Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,
Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,
Saber que existe o mar e as praias nuas,
Montanhas sem nome e planícies mais vastas
Que o mais vasto desejo,
E eu estou em ti fechada e apenas vejo
Os muros e as paredes, e não vejo
Nem o crescer do mar, nem o mudar das luas.

Saber que tomas em ti a minha vida
E que arrastas pela sombra das paredes
A minha alma que fora prometida
Às ondas brancas e às florestas verdes.

("Antologia", pág. 189 - Círculo
de Poesia Moraes Editores,
3ª. edição, 1975.)


Como uma Flor Vermelha

À sua passagem a noite é vermelha,
E a vida que temos parece
Exausta, inútil, alheia.

Ninguém sabe onde vai nem donde vem,
Mas o eco dos seus passos
Enche o ar de caminhos e de espaços
E acorda as ruas mortas.

Então o mistério das coisas estremece
E o desconhecido cresce
Como uma flor vermelha.

(Em "Poesia I", 1944.)


Enquanto Longe Divagas

I

Enquanto longe divagas
E através de um mar desconhecido esqueces a palavra
- Enquanto vais à deriva das correntes
E fugitivo perseguido por inomeadas formas
A ti próprio te buscas devagar
- Enquanto percorres os labirintos da viagem
E no país de treva e gelo interrogas o mudo rosto das [sombras

- Enquanto tacteias e duvidas e te espantas
E apenas como um fio te guia a tua saudade da vida
Enquanto navegas em oceanos azuis de rochas negras
E as vozes da casa te invocam e te seguem
Enquanto regressas como a ti mesmo ao mar
E sujo de algas emerges entorpecido e como drogado
- Enquanto naufragas e te afundas e te esvais
E na praia que é teu leito como criança dormes
E devagar devagar a teu corpo regressas
Como jovem touro espantado de se reconhecer
E como jovem toiro sacodes o teu cabelo sobre os olhos
E devagar recuperas tua mão teu gesto
E teu amor das coisas sílaba por sílaba

II

O meu amor da vida está paralisado pelo teu sono
É como árvore no ar veloz detida
Tudo em mim se cala para escutar o chão do teu regresso

III

Pois no ar estremece a tua alegria
- Tua jovem rijeza de arbusto –
A luz espera teu perfil teu gesto
Teu ímpeto tua fuga e desafio
Tua inteligência tua argúcia teu riso

Como ondas do mar dançam em mim os pés do teu regresso.

(Em "O nome das coisas", 1977.)


Escuto

Escuto mas não sei
Se o que oiço é silêncio
Ou Deus

Escuto sem saber se estou ouvindo
O ressoar das planícies do vazio
Ou a consciência atenta
Que nos confins do universo
Me decifra e fita

Apenas sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco.

(Em "Geografia", 1967.)


Esta Gente

Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre
Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meus canto se renova
E recomeço a busca
Dum país liberto
Duma vida limpa
E dum tempo justo.

(Em "Geografia", 1967.)


Este Búzio de Cós

Este búzio não o encontrei eu própria numa praia
Mas na mediterrânica noite azul e preta
Comprei-o em Cós numa venda junto ao cais
Rente aos mastros baloiçantes dos navios
E comigo trouxe o ressoar dos temporais

Porém nele não oiço
Nem o marulho de Cós nem o de Egina
Mas sim o cântico da longa vasta praia
Atlântica e sagrada
Onde para sempre minha alma foi criada.

(Em "O Búzio de Cós", 1997.)


Este é o Tempo

Este é o tempo
Da selva mais obscura

Até o ar azul se tornou grades
E a luz do sol se tornou impura

Esta é a noite
Densa de chacais
Pesada de amargura

Este é o tempo em que os homens renunciam.

(Em "Mar novo", 1958.)

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Fontes

Templo Cultural Delfos

https://www.escritas.org


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