Poesias de Mário de Sá Carneiro


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Mário de Sá Carneiro

Mário de Sá-Carneiro (Lisboa, 19 de Maio de 1890 — Paris, 26 de Abril de 1916) foi um poeta, contista e ficcionista português, um dos grandes expoentes do modernismo em Portugal. Suicidou-se aos 25 anos, na França. Fernando Pessoa, com o qual ele se correspondia, dedicou-lhe um belo texto, após o seu prematuro desenlace, na revista Athena, chamando-o de "gênio não só da arte como da inovação dela."

Embora não se afaste da metrificação tradicional (redondilhas, decassílabos, alexandrinos), torna-se singular a sua escrita pelos seus ataques à gramática, e pelos jogos de palavras. Se numa primeira fase se nota ainda esse estilo clássico, numa segunda, claramente niilista, a sua poesia fica impregnada de uma humanidade autêntica, triste e trágica.

Por fim, as cartas que trocou com Pessoa, entre 1912 e o seu suicídio, são como que um autêntico diário onde se nota paralelamente o crescimento das suas frustrações interiores.
(Resumido e adaptado da Wikipédia)

Índice

Álcool;
Distante Melodia;
O Poste Telegráfico;
Quase.


Álcool

Guilhotinas, pelouros e castelos
Resvalam longemente em procissão;
Volteiam-me crepúsculos amarelos,
Mordidos, doentios de roxidão.

Batem asas de auréola aos meus ouvidos,
Grifam-me sons de cor e de perfumes,
Ferem-me os olhos turbilhões de gumes,
Descem-me a alma, sangram-me os sentidos.

Respiro-me no ar que ao longe vem,
Da luz que me ilumina participo;
Quero reunir-me, e todo me dissipo ---
Luto, estrebucho... Em vão! Silvo pra além...

Corro em volta de mim sem me encontrar...
Tudo oscila e se abate como espuma...
Um disco de oiro surge a voltear...
Fecho os meus olhos com pavor da bruma...

Que droga foi a que me inoculei?
Ópio de inferno em vez de paraíso?...
Que sortilégio a mim próprio lancei?
Como é que em dor genial eu me eternizo?

Nem ópio nem morfina. O que me ardeu,
Foi álcool mais raro e penetrante:
É só de mim que ando delirante ---
Manhã tão forte que me anoiteceu.


Distante Melodia

Num sonho d´Íris morto a oiro e brasa,
Vêm-me lembranças doutro Tempo azul
Que me oscilava entre véus de tule -
Um tempo esguio e leve, um tempo-Asa.

Então os meus sentidos eram cores,
Nasciam num jardim as minhas Ânsias,
Havia na minha alma Outras Distâncias -
Distâncias que o segui-las era flores...

Caía Oiro se pensava Estrelas,
O luar batia sobre o meu alhear-me...
– Noites-lagoas, como éreis belas
Sob terraços-lis de recordar-Me...

Idade acorde d´Inter-sonho e Lua,
Onde as horas corriam sempre jade,
Onde a neblina era uma saudade,
E a luz – anseios de Princesa nua...

Balaústres de som, arcos de Amar,
Pontes de brilho, ogivas de perfume...
Domínio inexprimível d´Ópio e lume
Que nunca mais, em cor, hei-de habitar...

Tapetes de outras Pérsias mais Oriente...
Cortinados de Chinas mais marfim...
Áureos Templos de ritos de cetim...
Fontes correndo sombra, mansamente...

Zimbórios-panteões de nostalgias,
Catedrais de ser-Eu por sobre o mar...
Escadas de honra, escadas só, ao ar...
Novas Bizâncios-Alma, outras Turquias...

Lembranças fluidas... cinza de brocado...
Irrealidade anil que em mim ondeia...
– Ao meu redor eu sou Rei exilado,
Vagabundo dum sonho de sereia...


O Poste Telegráfico

Er'alto, muito alto. Outr'ora, verdejante,
Viveu num pinheiral; foi um pinheiro. Tinha
No tronco erguido ao ar, ramagem, muita pinha,
E a seiva percorria o corpo do gigante.

Se o rapazito da vila, a chilrear, trepava
Pelos seus ramos, ele - avô bonacheirão -
Em vez de se zangar, até os ajudava,
De forma que nenhum vinha parar ao chão.

Em suma era feliz. Robusto, resistia
Ao vento, ao sol, à chuva, à neve, à tempestade;
Mas como nunca é eterna a f'licidade,
A golpes de machado ele tombou um dia.

Hoje é um poste liso. É esguio, é feio e forte,
Não tem vida nem seiva. Imóvel está ali
À beira dum trigal... Que triste a sua sorte
A árvore tornou-se em um imenso I...

No topo ele sustenta os fios da longa meada
Que, entrelaçando o mundo, ao mundo as novas leva:
«Paris 8, manhã: - Rostand doente. Neva.»
«Belgrado 22: - A Sérvia revoltada.»

As notícias banais e as novas d'importância;
Inventos, revol'ções, catástrofes e guerras;
Nos fios circula tudo. Os homens, numa ânsia,
Informam-se e assim 'stão perto as longes terras.
.................................................
Humildes postes, sois os fortes sustentáculos
Do aéreo condutor da vida universal;
A cobra gigantesca, o polvo colossal
Que mesmo no deserto alastra os seus tentáculos.

Se p.ª vós eu olho, esvai-se o horizonte,
A terra não tem fim... Caminho para a frente...
Um monte está ali... A vista salta o monte...
Percorro todo o mundo imaginariamente!...

Transporto-me a Paris. Passeio no boul'vard;
Num cabaret qualquer, pândego com cocottes...
Em Petersburgo estou. Niilistas aos magotes,
Escoam-se na sombra e tramam contra o Czar...

Atenas visitei... Nos ringues de Viena,
Me pavoneio agora... A Roma chego já...
Mas a Europa a mim parece-me pequena...
Vou a Jerusalém... Diviso o Sahará...

Ah! como te agradeço, ó rede telegrafica!
Viajo sem vintém, graças a ti sòmente...
Em menos dum minuto e muito facilmente,
Eu sei-me transportar da Oceania à África!...

Os fios não servem só p'ra minha fantasia
Por eles encanada, absorta viajar;
Também não servem só de noticiosa via:
Os pássaros nos fios costumam descansar.

E então que belo quadro! À luz do sol poente
Esfuma-se no ar uma fileira alada...
Num voo lasso desce e ei-la empoleirada
Entoando num cicio um cântico dolente.

Na intenção genial, o que aprecio mais
Não é o que aproveita ao monstro «Humanidade»,
No socorro prestado a pobres animais,
Só nisso, é que eu encontro alguma utilidade.
.............................................
O fio serve de poiso à ave fatigada,
E o poste com saudade e com melancolia,
Recorda o pinheiral: Na sua ramaria
Pousava muita vez então a passarada.

Começa a recordar... Recorda toda a vida:
A terra em que nasceu... o velho rachador...
A sua netazinha, esperta e tão garrida...
O grande amor que teve a essa rósea flor...
..............................................
...Por isso quando vejo em noites de luar,
No macadam da estrada, a esguia silhueta
Dum poste magrizela, eu sinto-me poeta
E dos meus versos bano o chocho verbo «amar»...


Quase

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão..
. Mas na minhalma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo ... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Listas de som avançam para mim a fustigar-me
Em luz.
Todo a vibrar, quero fugir... Onde acoitar-me?...
Os braços duma cruz
Anseiam-se-me, e eu fujo também ao luar...

Índice


Fontes

www.escritas.org

http://users.isr.ist.utl.pt/
~cfb/VdS/v241.txt)


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