• Seleção de poesias

    Poesias de Humberto de Campos - Página 1


    Humberto de Campos

    Humberto de Campos Veras nasceu em Miritiba (atual Humberto de Campos), no Maranhão, em 25 de outubro de 1886 e faleceu no Rio de janeiro em 1934, quando desfrutava de sucesso entre a crítica e o público. Foi jornalista, crítico, contista e memorialista. O seu estilo era fácil, compreensível, mas muitas vezes também era inovador.
    (Resumido e adaptado da Wikipédia)


    Índice

    Os Hiperbóreos;
    Beatriz;
    Poeira...;
    Dor
    Miritiba;
    A Funda (Salvador Rueda);
    África.


    Os Hiperbóreos

    Cabeça erguida, o céu no olhar, que o céu procura,
    Baixa o humano caudal, dos desertos de gelo...
    Em farrapos, ao sol, derrete-se a brancura
    Da neve boreal sobre o ouro do cabelo.

    Ulula, e desce; e tudo invade: a atra espessura
    Dos bosques entra, a urrar e a uivar. E, uivando, pelo
    Continente, a descer, ganha a úmida planura,
    E a brenha secular, em sonoro atropelo.

    Assustam-se os chacais pelas selvas serenas.
    A turba ulula, o druida canta, enchendo os ares.
    Entre os uivos dos cães e o grunhido das renas...

    Escutando o tropel, rincha o poldro, e galopa.
    Derrama-se, a rugir, das geleiras polares,
    A semente feraz dos Bárbaros, na Europa...


    Beatriz

    Bandeirante a sonhar com pedrarias
    Com tesouros e minas fabulosas,
    Do amor entrei, por ínvias e sombrias
    Estradas, as florestas tenebrosas.

    Tive sonhos de louco, à Fernão Dias...
    Vi tesouros sem conta: entre as umbrosas
    Selvas, o ouro encontrei, e o ônix, e as frias
    Turquesas, e esmeraldas luminosas...

    E por eles passei. Vivi sete anos
    Na floresta sem fim. Senti ressábios
    De amarguras, de dor, de desenganos.

    Mas voltei, afinal, vencendo escolhos,
    Com o rubi palpitante dos seus lábios
    E os dois grandes topázios dos seus olhos!


    Poeira...

    Poeira leve, a vibrar as moléculas: poeira
    Que um pobre sonhador, à luz da Arte, risonho,
    Busca fazer faiscar: pó, que se ergue à carreira
    Do Mazepa do Amor pela estepe do Sonho.

    Para ver-te subir, voar da crosta rasteira
    Da terra, a trabalhar, todas as forças ponho:
    E a seguir teu destino, enlevada, a alma inteira
    O teu ciclo fará, seja suave ou tristonho.

    Não irás, com certeza, alto ou distante. O insano
    Pó não és que, a turvar o céu claro da Itália,
    Traz o vento, a bramir, do Deserto africano:

    Que és o humílimo pó duma estrada sem povo,
    Que, pisado uma vez, pelo ambiente se espalha,
    Sente um raio de Sol, cai na terra de novo.


    Dor

    Há de ser uma estrada de amarguras
    a tua vida. E andá-la-ás sozinho,
    vendo sempre fugir o que procuras
    disse-me um dia um pálido advinho.

    No entanto, sempre hás de cantar venturas
    que jamais encontraste... O teu caminho,
    dirás que é cheio de alegrias puras,
    de horas boas, de beijos, de carinho..."

    E assim tem sido... Escondo os meus lamentos:
    É meu destino suportar sorrindo
    as desventuras e os padecimentos.

    E no mundo hei de andar, neste desgosto,
    a mentir ao meu íntimo, cobrindo
    os sinais destas lágrimas no rosto!


    Miritiba

    É o que me lembra: uma soturna vila
    olhando um rio sem vapor nem ponte;
    Na água salobra, a canoada em fila...
    Grandes redes ao sol, mangais defronte...

    De um lado e de outro, fecha-se o horizonte...
    Duas ruas somente... a água tranquila...
    Botos no prea-mar... A igreja... A fonte
    E as grandes dunas claras onde o sol cintila.

    Eu, com seis anos, não reflito, ou penso.
    Põem-me no barco mais veleiro, e, a bordo,
    Minha mãe, pela noite, agita um lenço...

    Ao vir do sol, a água do mar se alteia.
    Range o mastro... Depois... só me recordo
    Deste doido lutar por terra alheia!


    A Funda (Salvador Rueda)

    O verso é a funda de uma ideia. À teia
    Dos fios trá-la, sem calhaus, pendida;
    Mas, se a tomares, que lhe emprestes vida,
    E a tornes digna da atenção alheia.

    Funda é o verso. Faiscando, balanceia
    No ígneo cérebro a pedra encandescida;
    E ao futuro, de súbito impelida,
    Caminhando veloz, relampagueia.

    O verso é a funda que uma ideia lança.
    A pedra passa pela nossa frente
    E no giro dos séculos não cansa.

    E tu, que és poeta e sonhador austero,
    Lembra as pedras em funda resistente
    Alto lançadas pela mão de Homero!


    África

    Na partilha das sáfaras conquistas
    Desta Líbia de mouros rancorosos,
    O Deserto foi dado aos Poderosos
    E o Oásis, florido e mínimo, aos Artistas.

    E os felizes, quais são? Os mil sofistas
    Da Ventura, a pedir, de olhos gulosos,
    Terra e mais terra? Ou o que limita os gozos
    E em sete palmos acomoda as vistas?

    Certo, não sereis vós, ó Donatários
    Do alvo Deserto, que velais, em guerra,
    A áurea carga dos vossos dromedários.

    Mas, tu, ó Poeta, que, por onde fores,
    Teus sete palmos hás de achar na terra
    Abrindo em trigo, rebentado em flores!

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