Poesias de Adélia Prado


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Adélia Prado

Adélia Luzia Prado de Freitas, mais conhecida como Adélia Prado, nasceu em Divinópolis, Minas Gerais, em 13 de dezembro de 1935. Ela é uma poetisa, professora, filósofa e contista brasileira ligada ao Modernismo. Sua obra retrata o cotidiano com perplexidade e encanto, norteados pela fé cristã e permeados pelo aspecto lúdico, uma das características de seu estilo único.
(Resumido e adaptado da Wikipédia)

Índice

O Oráculo;
O Poeta Ficou Cansado;
O Sempre Amor;
O Tesouro Escondido;
Órfã na Janela;
Para o Zé.


O Oráculo

A luz arcaica,
a que antes de tudo
no coração da treva preexistia,
é a iminente aurora
que do topo do mundo
o galo anuncia.
Dão medo
seus olhos amarelos multimóbiles.
Olhando fixo pra lugar nenhum,
bruto como um profeta
o galo anuncia.

Em "Oráculos de maio".
Rio de Janeiro:
Editora Record, 2007.


O Poeta Ficou Cansado

Pois não quero mais ser
Teu arauto.
Já que todos têm voz,
por que só eu devo tomar navios
de rota que não escolhi?
Por que não gritas, Tu mesmo,
a miraculosa trama dos teares,
já que Tua voz reboa
nos quatro cantos do mundo?
Tudo progrediu na Terra
e insistes em caixeiros-viajantes
de porta em porta, a cavalo!
Olha aqui, cidadão,
repara, minha senhora,
neste canivete mágico:
corta, saca e fura,
é um faqueiro completo!
Ó Deus,
me deixa trabalhar na cozinha,
nem vendedor nem escrivão,
me deixa fazer Teu pão.
Filha, diz-me o Senhor,
eu só como palavras.

Em "Oráculos de maio".
São Paulo: Editora Record,
2007 p.9.


O Sempre Amor

Amor é a coisa mais alegre
amor é a coisa mais triste
amor é a coisa que mais quero.
Por causa dele falo palavras como lanças.
Amor é a coisa mais alegre
amor é a coisa mais triste
amor é a coisa que mais quero.
Por causa dele podem entalhar-me,
sou de pedra-sabão.
Alegre ou triste,
amor é a coisa que mais quero.

(Divinópolis – MG, 1935), em
"Bagagem". Rio de Janeiro:
Imago, 1976.


O Tesouro Escondido

Tanto mais perto quanto mais remoto,
o tempo burla as ciências.
Quantos milhões de anos tem o fóssil?
A mesma idade do meu sofrimento.
O amor se ri de vanglórias,
de homens insones nas calculadoras.
O inimigo invisível se atavia,
pra que eu não diga o que me faz eterna:
te amo, ó mundo, desde quando
irrebelados os querubins assistiam.
De pensamentos aos quais nada se segue,
a salvação vem de dizer: adoro-Vos,
com os joelhos em terra, adoro-Vos,
ó grão de mostarda aurífera,
coração diminuto na entranha dos minerais.
Em lama, excremento e secreção suspeitosa,
adoro-Vos, amo-Vos sobre todas as coisas.

Em "Oráculos de maio". Rio
de Janeiro: Editora Record,
2007, p.15.


Órfã na Janela

Estou com saudade de Deus,
uma saudade tão funda que me seca.
Estou como palha e nada me conforta.
O amor hoje está tão pobre, tem gripe,
meu hálito não está para salões.
Fico em casa esperando Deus,
cavacando a unha, fungando meu nariz choroso,
querendo um pôster dele, no meu quarto,
gostando igual antigamente
da palavra crepúsculo.
Que o mundo é desterro eu toda vida soube.
Quando o sol vai-se embora é pra casa de Deus que vai,
pra casa onde está meu pai.

Do livro "O coração disparado",
em "Poesia reunida". 10ª ed.,
São Paulo: Siciliano, 2001,
p. 213.


Para o Zé

Eu te amo, homem, hoje como
Toda vida quis e não sabia,
Eu que já amava de extremoso amor
O peixe, a mala velha, o papel de seda e os e os eixos
De bordado, onde tem
O desenho cômico de um peixe - os
Lábios carnudos como os de uma negra.
Divago, quando o que quero é só dizer
Te amo. Teço as curvas, as mistas
E as quebradas, industriosa como abelha,
Alegrinha como florinha amarela, desejando
As finuras, violoncelo, violino, menestrel
e fazendo o que sei, o ouvido no teu peito
para escutar o que bate. Eu te amo, homem, amo
o teu coração, o que é, a carne de que é feito,
amo sua matéria, fauna e flora,
seu poder de parecer, as aparas de tuas unhas
perdidos nos casos que habitamos, os fios
de tua barba. Esmero. Pego tua mão, me afasto, viajo
pra te saudar, me calo, falo em latim para requisitar meu gosto:
“Dize-me, ó amado da minha alma, onde apascentar
o teu gado, onde repousas ao meio-dia, para que eu não
ande vagueando atrás dos rebanhos de teus companheiros”.
Aprendo. Te aprendo, homem. O que a memória ama
Fica eterno. Te amo com a memória, imperecível.
Te alinho junto das coisas que falam
Uma coisa só: Deus é amor. Você me espicaça como
o desenho do peixe da guarnição de cozinha, você me guarnece,
tira de mim o ar desnudo ma faz bonita
de olhar-me, me dá uma tarefa, me emprega,
me dá um filho, comida, enche minhas mãos.
Eu te amo, homem, exatamente como amo o que
acontece quando escuto oboé. Meu coração vai desdobrando
Os panos, se alargando aquecido, dando
A volta ao mundo, estalando os dedos pra pessoa e bicho.
Amo até a barata, quando descubro que assim te amo,
O que não queria dizer amo também, o piolho. Assim,
Te amo de modo mais natural, vero-romântico,
Homem meu, particular homem universal.
Tudo que não é mulher está em ti, maravilha.
Como grande senhora vou te amar, os alvos linhos,
A luz na cabeceira, o abajur de prata;
Como criada ama, vou te amar, delicioso amor:
Com água tépida, toalha seca e sabonete cheiroso,
Me abaixo e lavo os teus pés, o dorso e a planta deles eu beijo.

Em "Bagagem". São Paulo:
Editora Civilização
Brasileira/Record, 2006.
p. 101 - 102.

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Fonte

Templo Cultural Delfos


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