Poesias de Adélia Prado


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Adélia Prado

Adélia Luzia Prado de Freitas, mais conhecida como Adélia Prado, nasceu em Divinópolis, Minas Gerais, em 13 de dezembro de 1935. Ela é uma poetisa, professora, filósofa e contista brasileira ligada ao Modernismo. Sua obra retrata o cotidiano com perplexidade e encanto, norteados pela fé cristã e permeados pelo aspecto lúdico, uma das características de seu estilo único.
(Resumido e adaptado da Wikipédia)

Índice

Para Perpétua Memória de meu Pai;
Poema Começado no Fim;
Sensorial;
Tão Bom Aqui;
Tempo;
Tentação em Maio;
Uma Janela e sua Serventia;
Viés.


Para Perpétua Memória de meu Pai

Depois de morrer, ressuscitou
e me apareceu em sonhos, muitas vezes.
A mesma cara sem sombras,
os graves da fala em cantos,
as palavras sem pressa.
Inalterada, a qualidade do sangue,
inflamável como a dos touros.
Seguia de opa vermelha, em procissão,
uma banda de música cantava.
– Que ele cantasse era a natureza do sonho,
que fosse um canto alto e bonito,
era sua matéria. –
Acontecia na praça, sol e pombos
de asa branca e marrom
que debandavam.
Como um traço grafado horizontal,
seu passo marcial atrás da música,
o canto, a opa vermelha,
os pombos,
o que entrevi sem erro:
a alegria é tristeza, é o que mais punge.

Em "Suplemento literário
de Minas Gerais". Belo
Horizonte, v. 9, nº 412,
20 jul 1974, p. 9.


Poema Começado no Fim

Um corpo quer outro corpo.
Uma alma quer outra alma e seu corpo.
Este excesso de realidade me confunde.
Jonathan falando:
parece que estou num filme.
Se eu lhe dissesse você é estúpido
ele diria sou mesmo.
Se ele dissesse vamos comigo ao inferno passear
eu iria.
As casas baixas, as pessoas pobres,
e o sol da tarde,
imaginai o que era o sol da tarde
sobre a nossa fragilidade.
Vinha com Jonathan
pela rua mais torta da cidade.
O Caminho do Céu.

Em "A faca no peito". Rio
de Janeiro: Rocco, 1988.


Sensorial

Obturação, é da amarela que eu ponho.
Pimenta e cravo,
mastigo à boca nua e me regalo.
Amor, tem que falar meu bem,
me dar caixa de música de presente,
conhecer vários tons pra uma palavra só.
Espírito, se for de Deus, eu adoro,
se for de homem, eu testo
com meus seis instrumentos.
Fico gostando ou perdoo.
Procuro sol, porque sou bicho de corpo.
Sombra terei depois, a mais fria.

Em "Bagagem". Rio de
Janeiro: Imago, 1976.


Tão Bom Aqui

Me escondo no porão
para melhor aproveitar o dia
e seu plantel de cigarras.
Entrei aqui para rezar,
agradecer a Deus este conforto gigante.
Meu corpo velho descansa regalado,
tenho sono e posso dormir,
Tendo comido e bebido sem pagar.
O dia lá fora é quente,
a água na bilha é fresca,
acredito que sugestionamos elétrons.
Eu só quero saber do microcosmo,
O de tanta realidade que nem há.
Na partícula visível de poeira
Em onda invisível dança a luz.
Ao cheiro de café minhas narinas vibram,
Alguém vai me chamar.
Responderei amorosa,
Refeita de sono bom.
Fora que alguém me ama,
Eu nada sei de mim.

Em “A duração do dia”.
São Paulo: Editora
Record, 2010, p. 9.


Tempo

A mim que desde a infância venho vindo
como se o meu destino fosse o exato destino de uma estrela
apelam incríveis coisas:
pintar as unhas, descobrir a nuca,
piscar os olhos, beber.
Tomo o nome de Deus num vão.
Descobri que a seu tempo
vão me chorar e esquecer.
Vinte anos mais vinte é o que tenho,
mulher ocidental que se fosse homem
amaria chamar-se Eliud Jonathan.
Neste exato momento do dia vinte de julho
de mil novecentos e setenta e seis,
o céu é bruma, está frio, estou feia,
acabo de receber um beijo pelo correio.
Quarenta anos: não quero faca nem queijo.
Quero a fome.

Do livro "O Coração disparado",
em 'Poesia Reunida', Rio de
Janeiro: Editora Siciliano,
1991, p. 155.


Tentação em Maio

Maio se extingue
e com tal luz
e de tal forma se extingue
que um pecado oculto me sugere:
não olhe porque maio não é seu.
Ninguém se livra de maio.
Encantados todos viram as cabeças:
‘Do que é mesmo que falávamos?’
De tua luz eterna, ó maio,
rosa que se fecha sem fanar-se.

Em "A duração do dia".
São Paulo: Editora
Record, 2010.


Uma Janela e sua Serventia

Hoje me parecem novos estes campos
e a camisa xadrez do moço,
só na aparência fortuitos.
O que existe fala por seus códigos.
As matemáticas suplantam as teologias
com enorme lucro para minha fé.
A mulher maldiz falsamente o tempo,
procura o que falar entre pessoas
que considera letradas,
ela não sabe, somos desfrutáveis.
Comamo-nos pois e a desconcertante beleza
em bons bocados de angústia.
Sofrer um pouco descansa deste excesso.

Em "A duração do dia".
São Paulo: Editora
Record, 2010.


Viés

Ó lua, fragmento de terra na diáspora,
desejável deserto, lua seca.
Nunca me confessei às coisas,
tão melhor do que elas me julgava.
Hoje, por preposto de Deus escolho-te,
clarão indireto, luz que não cintila.
Quero misericórdia e por nenhum romantismo
sou movida.

Em "A duração do dia".
São Paulo: Editora
Record, 2010.

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Fonte

Templo Cultural Delfos


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