Poesias de Adélia Prado


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Adélia Prado

Adélia Luzia Prado de Freitas, mais conhecida como Adélia Prado, nasceu em Divinópolis, Minas Gerais, em 13 de dezembro de 1935. Ela é uma poetisa, professora, filósofa e contista brasileira ligada ao Modernismo. Sua obra retrata o cotidiano com perplexidade e encanto, norteados pela fé cristã e permeados pelo aspecto lúdico, uma das características de seu estilo único.
(Resumido e adaptado da Wikipédia)

Índice

Explicação de Poesia sem Ninguém Pedir;
Formas;
Humano;
Impressionista;
Janela;
Jó Consolado;
Meditação à Beira de um Poema;
Neurolinguística;
O Dia da Ira;
O Nascimento do Poema.


Explicação de Poesia sem Ninguém Pedir

Um trem-de-ferro é uma coisa mecânica, mas atravessa a noite, a madrugada, o dia, atravessou minha vida, virou só sentimento.

Em "Bagagem". São Paulo:
Editora Siciliano, 1993.


Formas

De um único modo se pode dizer a alguém:
Não esqueço você.
A corda do violoncelo fica vibrando
sozinha sob um arco invisível
e os pecados desaparecem como ratos flagrados
Meu coração causa pasmo porque bate e tem sangue nele
e vai parar um dia e virar um tambor patético se falas ao meu ouvido:
não esqueço você.
Manchas de luz na parede e uma rosa pequena com três rosas de plástico
Tudo no mundo é perfeito.
E a morte é amor.

Em "A faca no peito".
Rio de Janeiro: Rocco, 1988.


Humano

A alma se desespera,
mas o corpo é humilde;
ainda que demore,
mesmo que não coma,
dorme.

Em "Miserere". São Paulo:
Editora Record, 2013.


Impressionista

Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.

Em "Bagagem". Rio de
Janeiro: Imago, 1976.


Janela

Janela, palavra linda.
Janela é o bater das asas da borboleta amarela.
Abre pra fora as duas folhas de madeira à-toa pintada,
janela jeca, de azul.
Eu pulo você pra dentro e pra fora, monto a cavalo em você,
meu pé esbarra no chão.
Janela sobre o mundo aberta, por onde vi
o casamento da Anita esperando neném, a mãe
do Pedro Cisterna urinando na chuva, por onde vi
meu bem chegar de bicicleta e dizer a meu pai:
minhas intenções com sua filha são as melhores possíveis.
Ô janela com tramela, brincadeira de ladrão,
claraboia na minha alma,
olho no meu coração.

Em "Poesia reunida". São
Paulo: Editora Siciliano, 1991.


Jó Consolado

Desperta, corpo cansado;
louva com tua boca a cicatriz perfeita,
o fígado autolimpante,
a excelsa vida.
Louva com tua língua de argila,
coisa miserável e eterna,
louva, sangue impuro e arrogante,
sabes que te amo; louva, portanto.
A sorte que te espera
paga toda vergonha,
toda dor de ser homem.

Em "Miserere". São Paulo:
Editora Record, 2013.


Meditação à Beira de um Poema

Podei a roseira no momento certo
e viajei muitos dias,
aprendendo de vez
que se deve esperar biblicamente
pela hora das coisas.
Quando abri a janela, vi-a,
como nunca a vira,
constelada,
os botões,
alguns já com o rosa-pálido
espiando entre as sépalas,
joias vivas em pencas.
Minha dor nas costas,
meu desaponto com os limites do tempo,
o grande esforço para que me entendam
pulverizam-se
diante do recorrente milagre.
Maravilhosas faziam-se
as cíclicas, perecíveis rosas.
Ninguém me demoverá
do que de repente soube
à margem dos edifícios da razão:
a misericórdia está intacta,
vagalhões de cobiça,
punhos fechados,
altissonantes iras,
nada impede ouro de corolas
e acreditai: perfumes.
Só porque é setembro.

Em "Oráculos de maio".
Rio de Janeiro: Editora
Record, 2007 p. 33-34.


Neurolinguística

Quando ele me disse
ô linda
pareces uma rainha,
fui ao cúmice do ápice
mas segurei meu desmaio.
Aos sessenta anos de idade,
vinte de casta viuvez,
quero estar bem acordada,
caso ele fale outra vez.

Em "Oráculos de maio".
Rio de Janeiro: Editora
Record, 2007, p. 89.


O Dia da Ira

As coisas tristíssimas,
o rolomag, o teste de Cooper,
a mole carne tremente entre as coxas,
vão desaparecer quando soar a trombeta.
Levantaremos como deuses,
com a beleza das coisas que nunca pecaram,
como árvores, como pedras,
exatos e dignos de amor.
Quando o anjo passar,
o furacão ardente do seu voo
vai secar as feridas,
as secreções desviadas dos seus vasos
e as lágrimas.
As cidades restarão silenciosas, sem um veículo:
apenas os pés de seus habitantes
reunidos na praça, à espera de seus nomes.

Do livro "Bagagem", em
"Poesia reunida". São
Paulo: Siciliano, 1991, p. 25.


O Nascimento do Poema

O que existe são coisas,
não palavras. Por isso
te ouvirei sem cansaço recitar em búlgaro
como olharei montanhas durante horas,
ou nuvens.
Sinais valem palavras,
palavras valem coisas,
coisas não valem nada.
Entender é um rapto,
é o mesmo que desentender.
Minha mãe morrendo,
não faltou a meu choro este arco-íris:
o luto irá bem com meus cabelos claros.
Granito, lápide, crepe,
são belas coisas ou palavras belas?
Mármore, sol, lixívia.
Entender me sequestra de palavras e de coisa,
arremessa-me ao coração da poesia.
Por isso escrevo os poemas
pra velar o que ameaça minha fraqueza mortal.
Recuso-me a acreditar que homens inventam as línguas,
é o Espírito quem me impele,
quer ser adorado
e sopra no meu ouvido este hino litúrgico:
baldes, vassouras, dívidas e medo,
desejo de ver Jonathan e ser condenada ao inferno.
Não construí as pirâmides. Sou Deus.

Do livro "O pelicano", em
"Poesia reunida". São Paulo:
Siciliano, 1991, p. 325.

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Fonte

Templo Cultural Delfos


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