Poesias de Nara Rúbia Ribeiro


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Nara Rúbia Ribeiro

Nara Rúbia Ribeiro nasceu em São Luis de Montes Belos, interior de Goiás. Estudou Teologia, formou-se em Direito e especializou-se em Direito Penal. Foi funcionária pública e também advogou por muitos anos. Em 2013 publicou o seu primeiro livro de poemas: “Não Borboletarás”. Apaixonada pelo mundo digital, abandonou a advocacia para dedicar-se à revista digital que criou em 2016: Revista Pazes, sendo responsável por sua edição-geral. O seu segundo livro de poesias, "Pazes", foi lançado em Goiânia, Goiás, em fevereiro de 2019.

“Há nestes versos uma sabedoria de esperas, uma crença apenas sonhada, um roçar de palavra pela folha. Há nestes versos a cansada poeira do tempo, as cinzas de sonhos desfeitos. Mas também há uma claridade que desponta sob as cinzas, uma visitação de sonhos que apenas a poesia permite saber. Nessas fronteiras de sombra e luz se desenham as guerras e as pazes de Nara Rúbia.” (Mia Couto, escritor)

Índice

A Hora;
Alma Poética;
Anúncio de Entardecer;
Ao Pobre;
Autorretrato;
Aviso;
Calma;
Cansaço;
Castiçal;
Confissão.


A Hora

A porta do tempo é opaca,
mas menino a viu entreaberta.
Foi espiar.
“- Mãe, cada minuto é feito de sessenta borboletas coloridas
Que voam depressa pra todo lugar.”
A mãe sorriu.
“- E qual a estrutura da hora, filho?”
“- A hora, mãe, é quando a matemática das borboletas se junta
E elas seguram as asas umas das outras, cirandadas,
Como se fosse a humanidade inteira… ”
A humanidade inteira,
Essa é a hora.

(Do livro “Não Borboletarás”,
Editora Kelps, 2013.)


Alma Poética

Ter alma de poeta é sorte incerta.
É ter o peito encharcado de ilusões e alaridos
A percorrerem o nunca vivido.

É ver a vasta solidão e aliar-se a ela
Sem perder o encantamento
Da companhia paralela.

Ter alma de poeta é fingir desalmar-se
Desamar-se,
Acumular-se de ausências e seguir sozinho,
Cultuando o cultuar
Sem ater-se a deus algum.

Ter alma de poeta é ser profeta
de uma civilização de concreção deserta,
mas povoada de “eus” amantes.

É alagar-se de instantes
E aventurar-se a voar ao encontro do sol.

Ter alma de poeta é seguir por uma reta
De pedregulhos pontiagudos
E ver os pés sangrarem descalços,
Mas nunca desistirem do passo seguinte.

Ter alma de poeta é inventar mil paixões poeirentas
E vesti-las de luzes tantas
Que capazes seriam de iluminar o grito da morte,
A sorte do fraco
Ou a saudade do que já amou e partiu.

Ter alma de poeta é ter ferida no peito aberta:
Purulenta de espanto,
Mas incandescente de eternidades.


Anúncio de Entardecer

Procura-se um sonho.
Ele andou fatiado de medos,
Iludiu-se, imiscuiu-se,
E chegou a flertar com a utopia.

Quem o encontrar,
Diz a ele que o perdoo por tudo.
Que o meu peito, em cicatrizes,
É hoje até mais bonito que antes.

Que aprendi que a força se desdobra
Em indizíveis fraquezas.
E que enquanto ainda chorava de inércia
Meus olhos colheram do sol
A força de desabrochar o meu mundo.

Diz que a solidão me consome os espaços.
E a vizinhança inteira me ouviu a gritar por seu nome.
Diz que sangro a sua ausência
E os seus silêncios me transbordam.
Diz ao meu sonho que ele venceu.
A minh' alma não se vendeu.


Ao Pobre

Tens apenas duas moedas
e a miséria te abate?
Compra um pão,
com a moeda primeira.

Com a segunda,
compra o orvalho da noite,
a amplidão: silêncio dos astros todos.
Compra os lírios que se libram
nas hastes do infinito.

Ainda com a segunda moeda,
compra o sol da manhã do destino,
a dor de amor em verso curto,
a liturgia das aves,
o ritual de acasalamento da aurora das cores.

Compra o clarão de sonho da alma do infante.
Compra, e a vida, de troco,
em troca,
dar-te-á a essência
das vidas de tua vida.

(Do livro “Pazes”.)


Autorretrato

Tenho uma alma em riste,
Mas meu peito por vez é vergado
Em postura de sonho.

E meus olhos, fincados em terra firme,
Quando em quando marejam
E se alagam de ausências
E naufragam, presentes em mim.

Trago cicatrizes nos pulsos do peito,
Nós na garganta dos nervos,
Neurônios desencontrados,
Desapercebidos de si.

E não pasmo de mim.
Meu pensamento é tormento terno
Aquinhoado de esperanças.


Aviso

Não me venha com história de amor derramado.
Tenho mais o que fazer.
Preciso escolher a marca do creme dental,
Lixar as unhas dos pés
E não posso me esquecer de aguar o meu cacto,
Ao menos uma vez por mês.

Confesso:
Estou farta de amores impossíveis...
De lirismos obscenos, plenos ou fantasiosamente alheios.
Meu lirismo, riam, nem lira tem.
Aliás, minha poética é esquálida, esquelética,
Para adequar-se ao padrão estético desta minha era de neurônios poucos.

Leia estes versos como um aviso.
Não quero que me remetam flores ventiladas de aflição,
Versos incrustados de atavismos tolos
Ou que me direcionem vibrações de falsa ternura
De sorte a tentar comover-me.
Não quero comoção, emoção:
Eu não quero sabe de seus vãos.

Eu quero a minha cruz.
Ela é minha. Minha. Ouviu?
Minha solidão é sólida
E nela me alicerço e me reconstruo diuturnamente.
Afinal, a minha solidão não mente.


Calma

Se quiser namorar-me,
Tenha calma.
Traga na alma a lembrança de que sou sonho
E não posso ser tocada do nada
Ou beijada como se mortal eu fosse.

Faça de mim algo doce,
Enfeitado de estrelas,
Enfeitiçado de ausências
E para sempre presente nos intervalos de sua respiração.

Ouça o coração
Mas o faça pulsar baixinho
Para não ofuscar o brilho do meu silêncio.
Saiba que o meu coração é cristal de crepúsculo
Poeira de astros longínquos e puros;
Não é barro que se possa moldar,
Por mais perfeito que seja o artífice.

Se quiser namorar-me,
Que seja sem pressa e sem dores,
Já verti sangue e suor
E vi desfalecerem mil flores.

Quero apenas o beijo insano,
A proposta instantânea e a mais errônea vontade
De ser sempre sua,
Mas não hoje,
De ser sempre sua mais tarde.


Cansaço

Deveria haver na vida
um tempo
de férias do existir.

Assim,
quando o caos das horas
nos visitasse o relógio da alma,
uma calma inexistência
nos levaria a paragens
onde todo sonho é possível,

pois tudo o que existe
ainda está por nascer.

(Do livro "Pazes".)


Castiçal

Quando o poema amanheceu,
Deu de cara com a noite finda.
E percebeu, na lacuna do tempo,
Que o infinito se libra
Nas quinas do som das palavras.

E o verso, amanhecido,
Descreveu mais um novo amanhã.
(Conheço versos a quem o presente nunca é bastante
E cujo horizonte é sempre uma ponte
A conduzir-lhes ao horizonte do além)

E até penso, displicente,
Que o poema é castiçal soerguido na noite do mundo.
Luz pequena a relembrar-nos
Que o dia se levanta
Quando firmamos a esperança.


Confissão

Sou devedora da Humanidade inteira.
Por isso, toda a dor do mundo me pertence
E não há sangue humano que não seja meu.

Sei, contudo,
Que não tenho olhos de medir
As engrenagens do Tempo.

Aquilo que o Eterno engendra
Não cabe na minha agenda.
E Ele me empresta os passarinhos
E a ternura das estrelas mortas.

Então caminho em paz pela vida,
Mesmo que a estrada me pareça torta.

(Do livro “Pazes”.)

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Fontes

(1) Revista Prosa, Verso e Arte

(2) Fan page de Nara Rúbia Ribeiro no Facebook
Muito obrigado à autora pela gentil
autorização para eu expor as suas
poesias neste site. Pedido feito e
atendido em 11 de agosto de 2019,
via Messenger do Facebook.


Direitos Autorais

© Direitos autorais reservados à autora.

Pesquisa e seleção de Euro Oscar, para este sítio.


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