POESIAS DE FERNANDO PESSOA - 1
ÍNDICE
PRECE;
ACONTECEU-ME DO ALTO DO INFINITO;
EMISSÁRIO DE UM REI DESCONHECIDO;
HÁ UM POETA EM MIM QUE DEUS ME DISSE;
ADAGAS CUJAS JÓIAS VELHAS GALAS
PRECE Senhor, que és o céu e a terra, que és a vida e a morte! O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu! Tu és os nossos corpos e as nossas almas e o nosso amor és tu também. Onde nada está tu habitas e onde tudo está - (o teu templo) - eis o teu corpo.
Dá-me alma para te servir e alma para te amar. Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar, e meios para trabalhar em teu nome.
Torna-me puro como a água e alto como o céu. Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos.
Faze com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-te como a um pai.
Minha vida seja digna da tua presença. Meu corpo seja digno da terra, tua cama. Minha alma possa aparecer diante de ti como um filho que volta ao lar.
Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me puro como a lua, para que eu te possa rezar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu te possa ver sempre em mim e rezar-te e adorar-te.
Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu. Senhor, livra-me de mim.
(Extraído de "O Eu Profundo")
ACONTECEU-ME DO ALTO DO INFINITO Aconteceu-me do alto do infinito Esta vida. Através de nevoeiros, Do meu próprio ermo ser fumos primeiros, Vim ganhando, e através estranhos ritos
De sombra e luz ocasional, e gritos Vagos ao longe, e assomos passageiros De saudade incógnita, luzeiros De divino, este ser fosco e proscrito...
Caiu chuva em passados que fui eu. Houve planícies de céu baixo e neve Nalguma cousa de alma do que é meu. Narrei-me à sombra e não me achei sentido. Hoje sei-me o deserto onde Deus teve Outrora a sua capital de olvido...
EMISSÁRIO DE UM REI DESCONHECIDO Emissário de um rei desconhecido, Eu cumpro informes instruções de além, E as bruscas frases que aos meus lábios vêm Soam-me a um outro e anômalo sentido...
Inconscientemente me divido Entre mim e a missão que o meu ser tem, E a glória do meu Rei dá-me desdém Por este humano povo entre quem lido...
Não sei se existe o Rei que me mandou. Minha missão será eu a esquecer, Meu orgulho o deserto em que em mim estou...
Mas há! Eu sinto-me altas tradições De antes de tempo e espaço e vida e ser... Já viram Deus as minhas sensações...
HÁ UM POETA EM MIM QUE DEUS ME DISSE Há um poeta em mim que Deus me disse... A Primavera esquece nos barrancos As grinaldas que trouxe dos arrancos Da sua efêmera e espectral ledice...
Pelo prado orvalhado a meninice Faz soar a alegria os seus tamancos... Pobre de anseios teu ficar nos bancos Olhando a hora como quem sorrisse...
Florir do dia a capitéis de Luz... Violinos do silêncio enternecidos... Tédio onde o só ter tédio nos seduz...
Minha alma beija o quadro que pintou... Sento-me ao pé dos séculos perdidos E cismo o seu perfil de inércia e vôo...
ADAGAS CUJAS JÓIAS VELHAS GALAS Adagas cujas jóias velhas galas... Opalesci amar-me entre mãos raras, E fluido a febres entre um lembrar de aras, O convés sem ninguém cheio de malas...
O íntimo silêncio das opalas Conduz orientes até jóias caras, E o meu anseio vai nas rotas claras De um grande sonho cheio de ócio e salas...
Passa o cortejo imperial, e ao longe O povo só pelo cessar das lanças Sabe que passa o seu tirano, e estruge
Sua ovação, e erguem as crianças Mas o teclado as tuas mãos pararam E indefinidamente repousaram... Fernando Pessoa 2
Fernando Pessoa 3
Fernando Pessoa 4
Índice das poesias
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