Poesias de Jorge Luis Borges


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Jorge Luis Borges

Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo (Buenos Aires, 24 de agosto de 1899 — Genebra, 14 de junho de 1986) foi um escritor, poeta, tradutor, crítico literário e ensaísta argentino. A progressiva cegueira de Borges ajudou-o a criar novos símbolos literários através da imaginação, já que "os poetas, como os cegos, podem ver no escuro."

Suas obras abrangem o "caos que governa o mundo e o caráter de irrealidade em toda a literatura". A partir da década de 1950, afetado pela progressiva cegueira, passou a dedicar-se à poesia, produzindo obras notáveis. Sua fama internacional foi consolidada na década de 1960.
(Resumido e adaptado da Wikipédia)

Índice

O Gólem;
Os Justos;
Os meus Livros;
Poema dos Dons.


O Gólem

Se (o Crátilo nos leva a inferi-lo)
O nome é o arquétipo da coisa,
Já nas letras de rosa está a rosa
E todo o Nilo na palavra Nilo.

Feito de consoantes e vogais,
Talvez exista um Nome, que a essência
De Deus encerre e que a Onipotência
Guarde em letras e sílabas cabais.

Adão e as estrelas souberam
No Jardim. Nas ferrugens do pecado
(Dizem os cabalistas) foi borrado
E as gerações já o perderam.

Os artifícios e o candor do homem
Não têm fim. Bem sabemos que houve um dia
Em que o povo de Deus buscava o Nome
Pelas vigílias dos Judeus sem guia.

Não à maneira de outras que uma vaga
Sombra insinuam numa vaga história,
Ainda está verde e vivo na memória
Judá Leão, que era rabino em Praga.

Sedento de saber o que Deus sabe,
Judá Leão tentou permutações
De letras e complexas variações
E pronunciou o Nome que é a Chave,

A Porta, o Eco, o Hóspede e o Paço,
Num boneco em que os seus dons inumanos
Lançou para ensinar a ele os arcanos
Das Palavras, do Tempo e do Espaço.

O simulacro alçou os sonolentos
Olhos e entreviu formas e cores
Sem entender, perdidos em rumores,
E ensaiou temerosos movimentos.

Gradualmente se viu (tal como nós)
Aprisionado na rede sonora
De Antes, Depois, Ontem, Enquanto, Agora,
Direita, Esquerda, Eu, Tu, Eles, Vós.

(O cabalista que oficiou o nume
À vasta criatura chamou Gólem;
Estas verdades as refere Scholem
En um douto lugar do seu volume.)

O rabi lhe explicava o universo
“Este é meu pé; o teu; esta é a soga”
E ao cabo de anos logrou que o perverso
Varresse bem ou mal a sinagoga.

Houve talvez um erro na grafia
Ou na articulação do Sacro Nome;
A despeito de tal feitiçaria,
Falar não soube o aprendiz de homem.

Seus olhos menos de homem que de cão,
E ainda menos de cão do que de coisa,
Seguiam o rabi na duvidosa
Penumbra dos pertences da prisão.

Algo anormal e tosco houve no Gólem,
Já que ao seu passo o gato do rabino
Se escondia. (Esse gato olvida Scholem
Mas, através do tempo, o descortino).

Elevando a seu Deus mãos filiais,
As devoções do seu Deus copiava,
Ou tolo e sorridente, se curvava
Em côncavos meneios orientais.

O rabi o mirava com ternura
E com algum horror. Como (dizia)
Pude engendrar esta penosa cria
E deixei a inação, que é a cordura?

Por que fui agregar à infinita
Série um símbolo a mais? Por que a vã
Trama eterna fui dar uma outra escrita,
Outra causa, outro efeito e outro afã?

Nos momentos de angústia e de luz vaga
A seu Gólem os olhos estendia.
Quem nos dirá as coisas que sentia
Deus, ao olhar o seu rabino em Praga?

(em “Quase Borges: 20 transpoemas e uma entrevista”. [traduções de Augusto de Campos]. São Paulo: Terracota, 2013.)


Os Justos

Um homem que cultiva o seu jardim, como queria Voltaire.
O que agradece que na terra haja música.
O que descobre com prazer uma etimologia.
Dois empregados que num café do Sul jogam um silencioso xadrez.
O ceramista que premedita uma cor e uma forma.
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade.
Uma mulher e um homem que leem os tercetos finais de certo canto.
O que acarinha um animal adormecido.
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram.
O que agradece que na terra haja Stevenson.
O que prefere que os outros tenham razão.
Essas pessoas, que se ignoram, estão a salvar o mundo.

(Em "A Cifra")
Tradução de Fernando Pinto do Amaral.
www.citador.pt/poemas/
os-justos-jorge-luis-borges)


Os meus Livros

Os meus livros (que não sabem que existo)
São uma parte de mim, como este rosto
De têmporas e olhos já cinzentos
Que em vão vou procurando nos espelhos
E que percorro com a minha mão côncava.
Não sem alguma lógica amargura
Entendo que as palavras essenciais,
As que me exprimem, estarão nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevo.
Mais vale assim. As vozes desses mortos
Dir-me-ão para sempre.

(Em "A Rosa Profunda")


Poema dos Dons

Ninguém rebaixe a lágrima ou censura
Esta declaração da maestria
De Deus, que com magnífica ironia
Me deu mil livros e uma noite escura.

Desta terra de livros fez senhores
A olhos sem luz, que apenas se concedem
Sonhar com bibliotecas e com cores
De insensatos parágrafos que cedem

As manhãs ao seu fim. Em vão o dia
Lhes oferta seus livros infinitos,
Árduos como esses árduos manuscritos
Que pereceram em Alexandria.

De fome e sede (narra a história grega)
Morre um rei entre fontes e jardins;
Eu erro sem cessar pelos confins
Dessa alta e funda biblioteca cega.

Enciclopédias, atlas, o Oriente
E o Ocidente, eras, dinastias,
Símbolos, cosmos e cosmogonias
Brindam os muros, mas inutilmente.

Lento nas sombras, a penumbra e o nada
Exploro com o báculo indeciso,
Eu, que me figurava o Paraíso
Como uma biblioteca refinada.

Algo, que nomear ninguém se atreva
Com a palavra acaso, arma os eventos;
Outro já recebeu noutros cinzentos
Ocasos os mil livros e esta treva.

Ao errar pelas lentas galerias
Chego a sentir com vago horror sagrado
Que sou o outro, o morto, tendo dado
Os mesmos passos pelos mesmos dias.

Qual de nós dois escreve este poema
De um eu plural e de uma mesma mente?
Que importa o verbo que me faz presente
Se é uno e indivisível o dilema?

Groussac ou Borges, olho este querido
Mundo que se deforma e que se apaga
Em uma pálida poeira vaga
Que se parece ao sonho e ao olvido.

(em “Quase Borges: 20 transpoemas e uma entrevista”. [traduções de Augusto de Campos]. São Paulo: Terracota, 2013.)

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Fonte Principal

Templo Cultural Delfos

(E o precitado site www.citador.pt)


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aos herdeiros do autor.

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