COISAS

AUTOR: D. H. LAWRENCE

PARTE 5

(Adaptação para o português do Brasil e revisão por Euro Oscar)

Passados cerca de nove meses, os idealistas partiram do Oeste californiano. Tinha sido uma grande experiência, e sentiam-se satisfeitos com ela. Mas, afinal de contas, o Oeste não era o lugar que lhes convinha, e eles sabiam-no. Não, as pessoas que precisavam de almas novas, que as obtivessem. Valéria e Erasmo Melville preferiam desenvolver um pouco mais a alma velha. De qualquer forma, não tinham sentido qualquer influxo de alma nova na costa californiana. Pelo contrário.


Assim, com um ligeiro desfalque no seu capital material, os dois voltaram a Massachusetts, onde foram visitar os pais de Valéria, levando consigo o filho. Os avós acolheram com entusiasmo a criança - pobre ser sem pátria - foram um tanto frios para com Valéria, mas bastante frios para com Erasmo. A mãe de Valéria disse-lhe um dia redondamente que Erasmo tinha de arranjar um emprego, para que ela, Valéria, pudesse viver uma vida decente. Valéria falou-lhe com altivez do seu belo appartement sobre o Arno, das «esplêndidas» coisas que tinha num armazém de Nova York e da «vida maravilhosa e satisfeita» que ela e Erasmo tinham vivido. A mãe de Valéria disse-lhe que não considerava tão maravilhosa como isso a vida que a filha levava presentemente: sem lar, com um marido ocioso aos quarenta anos, um filho para educar e um capital em decrescimento. Parecia-lhe mesmo o contrário do maravilhoso. Erasmo devia ocupar um posto qualquer numa universidade.


- Que posto? Que universidade? - interrompeu Valéria.
- Isso podia arranjar-se, atendendo às relações de teu pai e às habilitações de Erasmo - replicou a mãe de Valéria. - E então vocês poderiam tirar do armazém as suas valiosas coisas, e ter uma casa verdadeiramente bela, que toda a gente aqui na América se orgulharia de visitar. Na situação presente, a mobília está-lhes devorando todo o rendimento, e vocês vivem como ratos num buraco, sem ter para onde ir.


Isto era a pura da verdade. Valéria começava a ansiar por ter uma casa, com as suas «coisas». Claro que poderia ter vendido a mobília por uma soma substancial. Mas ninguém poderia convencê-la a isso. Dissipassem-se embora todas as outras coisas - religiões, culturas, continentes e esperanças - Valéria nunca se desfaria das «coisas» que ela e Erasmo tinham colecionado com tanta paixão. Estava amarrada a elas.


Mas ela e Erasmo não queriam também desfazer-se daquela liberdade, daquela vida cheia e bela em que tanto tinham acreditado. Erasmo amaldiçoava a América. Não queria ganhar a vida. Anelava pela Europa.


Deixando o filho a cargo dos pais de Valéria, os dois idealistas partiram de novo para a Europa. Em Nova York gastaram dois dólares para verem as suas «coisas» durante uma hora breve e amarga. Embarcaram na «classe de estudantes», quer dizer, terceira classe. O seu rendimento não chegava agora a dois mil dólares, em vez de três. E partiram direitos a Paris, um Paris barato.


Desta vez, a Europa revelou-se-lhes um perfeito fracasso.
- Voltamos como cães ao nosso vômito - disse Erasmo; - mas o vômito tornou-se entretanto nauseabundo.


Verificou que não podia suportar a Europa, que esta lhe irritava todos os nervos do corpo. Detestava também a América. Mas a América, ao menos, era um espetáculo melhor do que este miserável e decadente continente, que nem sequer era já barato.


Com o coração preso às suas coisas (ansiava, na realidade, por tirá-las daquele armazém, onde permaneciam fazia agora três anos, devorando-lhes dois mil dólares) Valéria escreveu à mãe, dizendo-lhe que supunha que Erasmo regressaria se pudesse conseguir um trabalho adequado na América. Com um sentimento de fracasso que roçava pela cólera e pela loucura, Erasmo deu a volta à Itália duma maneira pobretana, com as mangas do casaco no fio, odiando intensamente todas as coisas. E quando lhe foi obtido um lugar na Universidade de Cleveland, para ensinar literatura francesa, italiana e espanhola, os seus olhos tornaram-se mais esbugalhados, e o seu rosto comprido e estranho tornou-se mais afilado e parecido com o focinho dum rato, tão desvairada foi a sua fúria. Tinha quarenta anos e o emprego estava-lhe à porta.


- Acho que seria melhor aceitares, filho. Já não queres saber da Europa, pois, como dizes, já deu o que tinha a dar. Oferecem-nos uma casa no recinto da universidade, e a mamãe diz que há nela espaço para todas as nossas coisas. Acho que seria melhor telegrafarmos que aceitamos.
Erasmo olhou-a ferozmente, como um rato acossado. Não seria surpresa verem-se-lhe surgir e encrespar-se bigodes de rato aos cantos do nariz aguçado.


- Mando um telegrama? - perguntou ela.
- Manda! - respondeu bruscamente.
Ela saiu e enviou-o.


Erasmo mudou, tornou-se um homem mais calmo, muito menos irritável. Tinham-lhe tirado dos ombros um peso enorme. Estava dentro da ratoeira.


Mas quando viu as fornalhas de Cleveland, vastas e semelhantes à maior das florestas negras, com cascatas de metal em borbotões vermelhos e rubro brancos, com homens pequeninos como diabretes e ruídos terrificantes, gigantescos, disse para Valéria:
- Podes dizer o que quiseres, Valéria; mas esta é a coisa mais colossal que o mundo moderno pode apresentar.


E quando se encontravam na sua casinha moderna do recinto da Universidade de Cleveland, e todos esses malfadados despojos da Europa - o guarda-louças de Bolonha, as estantes de Veneza, a cadeira do bispo de Ravena, os aparadores à Luís XV, as cortinas de «Chartres», as lâmpadas de bronze de Sena - se encontravam armados, parecendo todos novinhos em folha e fazendo uma vista impressionante; quando os idealistas receberam em sua casa uma multidão de pessoas boquiabertas e Erasmo se apresentou com as suas melhores maneiras européias e, contudo, muito cordial e americano; quando Valéria ostentou o seu aspecto mais senhoril, mas, apesar disso «preferimos a América»; então Erasmo disse olhando-a com os seus estranhos e vivos olhinhos de rato:


- É certo que a Europa é a mayonnaise, mas a América fornece a boa da velha lagosta. Não achas?
- Sem dúvida! - disse ela com satisfação.
E Erasmo olhou-a com um ar inquiridor. Estava na ratoeira, mas esta era segura. E Valéria, com toda a evidência, tinha encontrado por fim o seu ser real. Obtivera as suas coisas. Contudo, no nariz dele havia uma prega estranha, maldosa e escolástica, de puro ceticismo. Mas gostava de lagosta.

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