COISAS

AUTOR: D. H. LAWRENCE

PARTE 3

(Adaptação para o português do Brasil e revisão por Euro Oscar)

Tinham construído ali o seu lar, um lar como nunca se poderia ter construído na América. A sua palavra de ordem tinha sido «a beleza». Tinham alugado, durante os últimos quatro anos, o segundo andar dum velho palazzo sobre o Arno, e ali tinham todas as suas «coisas». E o seu appartement proporcionava-lhes uma profunda satisfação; as elevadas e silenciosas salas antigas, com janelas sobre o rio, com brilhantes soalhos duma madeira vermelho escura, e as magníficas mobílias que os idealistas tinham colecionado.


Sim, sem que eles próprios dessem por isso, as vidas dos idealistas haviam corrido horizontalmente, com uma rapidez vertiginosa, durante todo este período. Haviam-se tornado dois ferozes caçadores de «coisas» para o seu lar. Enquanto as suas almas trepavam para o sol da velha cultura européia ou do velho pensamento hindu, as suas paixões corriam horizontalmente, agarrando-se às «coisas». Claro que não compravam as coisas pelas coisas, mas sim pela «beleza». Consideravam a sua casa como um lugar inteiramente guarnecido pela beleza, e de forma alguma por «coisas». Valéria tinha umas cortinas encantadoras nas janelas da extensa salotta que dava sobre o rio: cortinas dum esquisito tecido antigo que parecia uma seda finamente bordada, cujos tons magníficos iam do vermelho, do alaranjado, do dourado e do negro, a um puro e suave fulgor. Era raro Valéria entrar na salotta sem cair de joelhos mentalmente perante as cortinas.


- Chartres! - dizia. - Para mim são Chartres.
E MelvilIe nunca se voltava para a sua estante veneziana do século XVI, com as suas duas ou três dúzias de livros escolhidos, sem estremecer até à medula dos ossos. Era o santuário dos santuários!
O filho evitava silenciosamente, quase supersticiosamente, ter qualquer contato rude com estes vetustos monumentos de mobiliário, como se fossem ninhos de cobras adormecidas, ou essa «coisa» perigosíssima de se tocar que é a Arca da Aliança. O seu terror infantil era silencioso e frio, mas definitivo.


Contudo, um casal de idealistas da Nova Inglaterra não pode viver meramente da glória passada do seu mobiliário. Pelo menos, aquele casal não podia. Acostumaram-se ao maravilhoso guarda-louça de Bolonha, acostumaram-se à esplêndida estante veneziana, aos livros, às cortinas e bronzes de Sena, e aos belos sofás, aparadores e cadeiras que tinham colecionado em Paris. Oh, andavam a colecionar coisas desde o primeiro dia em que desembarcaram na Europa. E continuavam ainda. É o último interesse que a Europa pode oferecer a um estranho, ou mesmo a um europeu.


Quando os Melville recebiam visitas, e estas vibravam em face dos seus interiores, então Valéria e Erasmo sentiam que não tinham vivido em vão, que ainda viviam. Mas nas longas manhãs em que Erasmo trabalhava enfastiadamente na literatura da Renascença florentina e Valéria cuidava do arranjo da casa, nas longas horas depois do almoço e nos longos e, em regra, frigidíssimos e penosos serões do velho palazzo, então dissipava-se o halo que envolvia o mobiliário, e as coisas transformavam-se em coisas, em pedaços de matéria, colocados aqui, suspensos além, ad infinitum, e que nada diziam. Então Valéria e Erasmo chegavam ao ponto de quase os odiarem. O fulgor da beleza, como todo o outro fulgor, esmorece se não é alimentado. Os idealistas amavam ainda entranhadamente as suas coisas. Mas tinham-nas adquirido. E a verdade é que as coisas que brilham vividamente en quanto as adquirimos, tornam-se completamente frias passado um ano ou dois. Claro que exceto se essas coisas são muito invejadas e os museus anseiam por adquiri-las. Mas as «coisas» dos Melville, embora muito boas, não eram tão boas como isso.


Dest'arte, foi esmorecendo gradualmente o fulgor de todas as coisas, da Europa, da Itália - «os Italianos são caros» - até mesmo do maravilhoso appartement moderno. É certo que valia a pena ouvir: - Ora, se eu tivesse uma casa destas, nunca, nunca me apetecia sair à rua! É tão agradável e bela!
E contudo Valéria e Erasmo saíam à rua; saíam mesmo à rua para se libertarem do seu silêncio antigo, feito de soalhos frios e pesadas pedras, da sua morta dignidade.


- Estamos vivendo do passado, sabes, Dick? - disse Valéria para o marido. (Chamava-lhe Dick). Arrastavam-se penosamente. Não queriam dar-se por vencidos. Não gostavam de admitir que estavam fartos. Fazia agora doze anos que eram pessoas «livres», vivendo uma «vida cheia e bela». E a América tinha sido durante doze anos o seu anátema, a Sodoma e Gomorra do materialismo industrial.
Não é fácil confessar que se está «farto». E eles detestavam admitir que queriam regressar. Mas por fim, relutantemente, decidiram ir, «por causa do filho».

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