COISAS

AUTOR: D. H. LAWRENCE

PARTE 2

(Adaptação para o português do Brasil e revisão por Euro Oscar)

E na Itália, muito mais do que em Paris, sentiram que podiam vibrar com os ensinamentos de Buda. Penetraram na corrente avassaladora da moderna emoção budista, leram livros, entregaram-se à meditação e lançaram-se decididamente à tarefa de eliminar das suas próprias almas a cobiça, a dor e o sofrimento moral. Não compreenderam, contudo, que a própria preocupação de Buda de se libertar da dor e do sofrimento moral é em si uma espécie de cobiça. Não, eles sonhavam com um mundo perfeito, de que fossem eliminadas toda a cobiça, quase toda a dor e uma grande parte do sofrimento moral.


Mas a América entrou na guerra, de forma que os dois idealistas tinham de a ajudar. Trabalharam num hospital. E muito embora a sua experiência os fizesse compreender mais do que nunca que a cobiça, a dor, e o sofrimento moral deviam ser eliminados do mundo, não obstante, o budismo ou a teosofia não emergiu muito triunfante da longa crise. De qualquer forma, em qualquer parte, em qualquer parte de si próprios sentiam que a cobiça, a dor e o sofrimento moral nunca seriam eliminados, porque a maior parte das pessoas não se preocupa com eliminá-los nem se preocupará nunca. Os nossos idealistas eram demasiado ocidentais para pensarem em abandonar todo o mundo à condenação, enquanto os dois se salvavam a si próprios. Eram excessivamente abnegados para se sentarem debaixo duma árvore, numa atitude rígida, e atingirem o Nirvana apenas os dois.


Contudo, havia mais do que isso. Era que não tinham nádegas suficientemente carnudas para se instalarem debaixo duma árvore bho e atingirem o Nirvana contemplando qualquer coisa, e menos que tudo o seu próprio umbigo. Se todo o vasto mundo fosse salvo, eles, pessoalmente, não se preocupariam em salvar-se apenas a si próprios. Não; sentir-se-iam tão solitários! Eram naturais da Nova Inglaterra, de forma que tinha de ser tudo ou nada. A cobiça, a dor e o sofrimento moral, ou seriam eliminados de todo o mundo, ou então, de que servia eliminarem-nos de si? Não servia de nada absolutamente! Transformar-se-iam apenas em vítimas.


De forma que, muito embora ainda amassem o «pensamento hindu» e se enternecessem com ele, bem (para voltarmos à nossa metáfora) a estaca a que as verdes e ansiosas vides tinham trepado, revelava-se agora inteiramente podre. Quebrou, e as vides vieram vagarosamente caindo até ao chão. Não houve queda brusca. As vides mantiveram-se no ar, graças à sua folhagem, durante um certo tempo. Mas abateram. O esteio do «pensamento hindu» cedera, antes que os dois tivessem saltado do seu topo para um mundo novo.


Caíram no chão com um rumor lento. Mas não fizeram ruído. Ficaram de novo «desapontados». Mas nunca o confessaram. O «pensamento hindu» tinha-os deixado cair por terra. Mas nunca o lamentaram. Nem mesmo disseram nunca uma palavra um ao outro. Estavam desapontados, vagamente, mas profundamente desiludidos, e ambos o sabiam. Mas esse saber era tácito.


Tinham ainda tanto com que contar na sua vida! Tinham ainda a Itália, a cara Itália. Tinham ainda a liberdade, esse tesouro inestimável. E tinham ainda tanta «beleza»! Quanto à plenitude da vida é que não tinham tanta certeza. Tinham um filhinho a quem amavam como os pais devem amar os filhos, mas evitavam sabiamente prender-se apenas a ele, edificar as suas vidas sobre a dele. Não, não. Tinham de viver a sua própria vida! Possuíam ainda suficiente vigor mental para o saberem.


Mas já não eram muito novos. Os vinte e cinco e os vinte e sete anos tinham dado lugar a trinta e cinco e trinta e sete. E, muito embora tivessem vivido uma temporada maravilhosa na Europa, muito embora amassem ainda a Itália - a cara Itália! - contudo, estavam desapontados. Tinham extraído dela uma forte dose de prazer; oh, muitíssimo prazer, na verdade! Porém, ela não lhes tinha dado tudo, tudo o que tinham esperado. A Europa era bela, mas estava morta. Viver na Europa era o mesmo que viver no passado. E os Europeus, com toda a sua atração superficial, não eram realmente atraentes. Eram materialistas, não tinham verdadeira alma. Não compreendiam os anseios mais íntimos do espírito, porque os anseios mais íntimos tinham morrido neles, que eram agora meras sobrevivências. Esta era a verdade relativamente aos Europeus: eram sobrevivências, incapazes de caminhar para a frente.


Era outra estaca de feijoeiro, outro suporte de vinha que abatia sob a vida verde da videira. E bastante amargo isso foi, desta vez. Porquanto, pelo velho tronco da Europa a verde videira tinha ido trepando silenciosamente durante mais de dez anos, dez anos imensamente importantes, os anos da verdadeira vida. Os dois idealistas tinham vivido na Europa, vivido da Europa, da vida européia e das coisas européias, como as vides de um parreiral perpétuo.

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