Machado de Assis - 18



A PIANISTA - parte 2



Literatura brasileira


(A divulgação neste site tem objetivo educacional)





A esperança nunca abandonou os homens. Tomás concebeu a esperança de convencer o pai com o andar dos tempos.
Entretanto, passaram-se os dias e concluiu-se o casamento da filha de Tibério Valença. No dia do casamento, como nos outros, Tibério Valença tratou o filho com uma sequidão nada paternal. Tomás sentia-se por isso, mas a vista de Malvina, a cuja casa ia regularmente três vezes por semana, dissipava as aflições para dar-lhe novas esperanças, e novos desejos de completar a ventura que procurava.


O casamento de Elisa coincidiu com a retirada do deputado para a província natal. A mulher acompanhou o marido, e, a instâncias do pai, ficou convencionado que no ano seguinte viriam estabelecer-se definitivamente no Rio de Janeiro.
O tratamento de Tibério Valença em relação a Tomás continuou a ser o mesmo: frio e reservado. Em vão procurava o moço um ensejo para tocar de frente a questão e trazer o pai a sentimentos mais compassivos; o pai esquivava-se sempre.


Mas se era assim por um lado, por outro os desejos legítimos do amor de Tomás por Malvina cresciam mais e mais, dia por dia. A luta que se dava no coração de Tomás, entre o amor de Malvina e o respeito aos desejos de seu pai, foi fraqueando, cabendo o triunfo ao amor. Os esforços do moço eram inúteis, e finalmente um dia chegou em que foi-lhe necessário decidir entre as determinações do pai e o amor pela pianista.


E a pianista? Essa era mulher e amava perdidamente o filho de Tibério Valença. Também uma luta interna se dava no espírito dela, mas à força do amor que alimentava ligavam-se as instâncias continuadas de Tomás. Este objetava-lhe que, uma vez casados, a clemência do pai reapareceria, e tudo se terminaria em bem. Tal estado de coisas prolongou-se até um dia em que não foi mais possível a ambos recuar. Sentiram que a existência dependia do casamento.


Tomás encarregou-se de falar a Tibério. Era o ultimatum.
Uma noite em que Tibério Valença pareceu mais alegre que de ordinário, Tomás deu um passo afoitamente para a questão, dizendo-lhe que, depois de vãos esforços, reconhecera que a paz da sua existência dependia do casamento com Malvina.


— Então casas-te? perguntou Tibério Valença.


— Venho pedir-lhe...


— Já disse o que devias esperar de mim se desses semelhante passo. Não passarás por ignorante. Casa-te; mas quando te arrependeres ou a necessidade te bater à porta, escusas de voltar o rosto para teu pai. Supõe que ele está pobre e nada te pode dar.


Esta resposta de Tibério Valença agradou em parte a Tomás. Não entrava nas palavras do pai a consideração do afeto que lhe negaria, mas o auxílio que lhe não havia de prestar em caso de necessidade. Ora, este auxilio era o que Tomás dispensava, uma vez que se pudesse unir a Malvina. Contava com algum dinheiro que possuía e tinha esperanças de arranjar dentro de pouco tempo um emprego público.
Não deu outra resposta a Tibério Valença senão a de que estava determinado a realizar o casamento.


Diga-se em honra de Tomás, não foi sem algum remorso que ele tomou uma determinação que parecia contrariar os desejos e os sentimentos do pai. É certo que a linguagem deste excluía toda a consideração de ordem moral para valer-se de uns preconceitos miseráveis, mas ao filho não competia, de certo, apreciá-los e julgá-los. Tomás hesitou mesmo depois da entrevista com Tibério Valença, mas a presença de Malvina, a cuja casa foi logo, dissipou todos os receios e pôs termo a todas as hesitações. O casamento efetuou-se pouco tempo depois, sem comparecimento do pai, nem de parente algum de Tomás.

* * *

O fim do ano de 1850 não trouxe incidente algum à situação da família Valença.
Tomás e Malvina viviam no gozo da mais deliciosa felicidade. Unidos depois de tanto tropeço e hesitação, entraram na estância da bem-aventurança conjugal coroados de mirto e de rosas. Eram moços e ardentes; amavam-se no mesmo grau; tinham chorado saudades e ausências. Que melhores condições para que aquelas duas almas, no momento do consórcio legal, achassem uma ternura elevada e celeste, e se confundissem no ósculo santo do casamento?


Todas as luas-de-mel se parecem. A diferença está na duração. Dizem que a lua-de-mel não pode ser perpétua, e para desmentir este ponto não tenho o direito da experiência. Todavia, creio que a asserção é arriscada demais. Que a intensidade do amor do primeiro tempo diminua com a ação do mesmo tempo, isso creio: é da própria condição humana. Mas essa diminuição não é de certo tamanha como se afigura a muitos, se o amor subsiste à lua-de-mel, menos intenso é verdade, mas ainda bastante claro para dar luz ao lar doméstico.
A lua-de-mel de Tomás e Malvina tinha certo caráter de perpetuidade.

* * *

No princípio do ano de 1851 adoeceu Tibério Valença.
Foi ao princípio moléstia passageira, em aparência ao menos; mas surgiram complicações novas, e ao cabo de quinze dias declarou-se Tibério Valença gravemente enfermo.


Um excelente médico, que era de muito tempo o médico da casa, começou a tratá-lo no meio dos maiores cuidados. Não hesitou, no fim de alguns dias, em declarar que nutria receios pela vida do doente.
Apenas soube da moléstia do pai, Tomás foi visitá-lo. Era a terceira vez, depois do casamento. Nas duas primeiras Tibério Valença tratou-o com tal frieza e reserva que Tomás julgou dever deixar que o tempo, remédio a tudo, modificasse um tanto os sentimentos do pai.


Mas agora o caso era diferente. Tratava-se de uma moléstia grave e do perigo de vida de Tibério Valença. Tudo desaparecera diante deste dever.
Quando Tibério Valença viu Tomás ao pé do leito de dor em que jazia manifestou certa expressão que era sinceramente de pai. Tomás chegou-se a ele e beijou-lhe a mão. Tibério mostrou-se satisfeito com esta visita do filho.


Os dias correram e a moléstia de Tibério Valença, em vez de diminuir, lavrava e começava a destruir-lhe a vida. Houve consultas de facultativos. Tomás indagou deles sobre o estado real de seu pai, e a resposta que teve foi que se não era desesperado, era ao menos gravíssimo.


Tomás pôs em atividade tudo quanto podia tornar à vida o autor dos seus dias. Dias e dias passava junto do leito do velho, muitas vezes sem comer e sem dormir. Um dia, em que voltava para casa, após longas horas de insônia, veio Malvina saindo-lhe ao encontro e abraçá-lo, como de costume, mas com ar de ter alguma coisa a pedir-lhe. Com efeito, depois de abraçá-lo, e indagar do estado de Tibério Valença, pediu-lhe que desejava ir, poucas horas que fossem, cuidar como enfermeira do sogro.
Tomás acedeu a esse pedido.


No dia seguinte Tomás disse ao pai quais eram os desejos de Malvina. Tibério Valença ouviu com sinais de satisfação as palavras do filho, e, depois de este concluir, respondeulhe que aceitava contente a oferta dos serviços da nora.
Malvina foi no mesmo dia começar os seus serviços de enfermeira.


Tudo em casa mudou como por encanto.
A doce e discreta influência da mulher deu nova direção aos arranjos necessários à casa e à aplicação dos medicamentos.
Tinha crescido a gravidade da moléstia de Tibério Valença. Era uma febre que o trazia constantemente, ou delirante, ou sonolento.
Por isso durante os primeiros dias da estada de Malvina em casa do doente, este de nada pôde saber.


Foi só depois que a força da ciência conseguiu restituir a Tibério Valença as esperanças de vida e alguma tranqüilidade, que o pai de Tomás descobriu a presença da nova enfermeira.


Em tais circunstâncias os preconceitos só dominam os espíritos inteiramente pervertidos. Tibério Valença, apesar da exageração dos seus sentimentos, não estava ainda no caso. Acolheu a nora com um sorriso de benevolência e de gratidão.


— Muito obrigado, disse ele.


— Está melhor?


— Estou.


— Ainda bem.


— Há muitos dias que está aqui?


— Há alguns.


— Nada sei do que se tem passado. Parece que acordo de um longo sono. Que tive eu?


— Delírios e constantes sonolências.


— Sim?


— É verdade.


— Mas estou melhor, estou salvo?


— Está.


— Dizem os médicos?


— Dizem e vê-se logo.


— Ah! graças a Deus.


Tibério Valença respirou como um homem que aprecia a vida no grau máximo. Depois, acrescentou:


— Ora, quanto trabalho teve comigo!...


— Nenhum...


— Como nenhum?


— Era preciso haver alguém que dirigisse a casa. Bem sabe que as mulheres são essencialmente donas de casa. Não quero encarecer o que fiz; eu pouco fiz, fi-lo por dever. Mas quero ser leal declarando qual foi o pensamento que me trouxe aqui.


— A senhora tem bom coração.


Tomás entrou neste momento.


— Oh! meu pai! disse ele.


— Adeus, Tomás.


— Está melhor?


Estou. Sinto e dizem os médicos que estou melhor.


— Está, sim.


— Estava a agradecer à tua mulher...


Malvina acudiu logo:


— Deixemos isso para depois.


Desde o dia em que Tibério Valença teve este diálogo com a nora e o filho a cura foi-se operando gradualmente. No fim de um mês entrou Tibério Valença em convalescença. Estava excessivamente magro e fraco. Só podia andar apoiado a uma bengala e ao ombro de um criado. Tomás substituiu muitas vezes o criado a chamado do próprio pai. Neste ínterim foi Tomás contemplado na pretensão que tinha a um emprego público. Progrediu a convalescença do velho, e os facultativos aconselharam uma mudança para o campo.


Faziam-se os preparativos da mudança quando Tomás e Malvina anunciaram a Tibério Valença que, dispensando-se agora os seus cuidados, e devendo Tomás entrar no exercício do emprego que obtivera, tornava-se necessária a separação.


— Então não me acompanham? perguntou o velho.


Ambos repetiram as razões que tinham, procurando do melhor modo não ofender a suscetibilidade do pai e do enfermo.
Pai e enfermo cederam às razões e efetuou-se a separação no meio dos protestos reiterados de Tibério Valença que agradecia d’alma os serviços que os dois lhe haviam prestado.
Tomás e Malvina seguiram para casa, e o convalescente partiu para o campo.

* * *

A convalescença de Tibério Valença não teve incidente algum.
No fim de quarenta dias estava pronto para outra, como se diz popularmente, e o velho com toda a criadagem voltou para a cidade.


Não fiz menção de visita alguma da parte dos parentes de Tibério Valença durante a moléstia deste, não porque eles não tivessem visitado o parente enfermo, mas porque essas visitas não trazem circunstância alguma nova no caso.


Todavia pede a fidelidade histórica que eu as mencione agora. Os parentes, últimos que restavam à família Valença, reduziam-se a dois velhos primos, uma prima e um sobrinho, filho desta. Estas criaturas foram algum tanto assíduas durante o perigo da moléstia, mas escassearam as visitas desde que tiveram ciência de que a vida de Tibério não corria risco.


Convalescente, Tibério Valença não recebeu uma só visita desses parentes. O único que o visitou algumas vezes foi Tomás, mas sem a mulher.
Estando completamente restabelecido e tendo voltado à cidade, a vida da família continuou a mesma que anteriormente à moléstia.


Esta circunstância foi observada por Tibério Valença. Apesar da sincera gratidão com que ele acolheu a nora apenas tornara a si, Tibério Valença não pôde afugentar do espírito um pensamento desonroso para a mulher do seu filho. Dava o desconto necessário às qualidades morais de Malvina, mas interiormente acreditava que o procedimento dela não fosse isento de cálculo.


Este pensamento era lógico no espírito de Tibério Valença. No fundo do enfermo agradecido havia o homem calculista, o pai interesseiro, que olhava tudo pelo prisma estreito e falso do interesse e do cálculo, e a quem parecia que não se podia fazer uma boa ação sem laivos de intenções menos confessáveis.
Menos confessáveis é paráfrase do narrador; no fundo, Tibério Valença admitia como legítimo o cálculo dos dois filhos.


Tibério Valença imaginava que Tomás e Malvina, procedendo como procederam, tinham tido mais de um motivo que os determinasse. Não eram só, no espírito de Tibério Valença, o amor e a dedicação filial; era ainda um meio de ver se lhe abrandavam os rancores, se lhe armavam à fortuna.


Nesta convicção estava, e com ela esperava a continuação dos cuidados oficiosos de Malvina. Imagine-se qual não foi a surpresa do velho, vendo que cessada a causa das visitas dos dois, causa real que ele tinha por aparente, nenhum deles apresentou o mesmo procedimento anterior. A confirmação seria se, pilhada a aberta, Malvina aproveitasse para fazer da sua presença em casa de Tibério Valença uma necessidade. Isto pensava o pai de Tomás, e pensava, neste caso, com acerto.

* * *

Correram dias e dias, e a situação não mudou.
Tomás lembrara uma vez a necessidade de visitar com Malvina a casa paterna. Malvina, porém, recusou, e quando as instâncias de Tomás a obrigaram a uma declaração mais peremptória, declarou ela positivamente que a continuação das suas visitas poderia parecer a Tibério Valença uma pretensão ao esquecimento do passado e aos conchegos do futuro.


— Melhor é, disse ela, não irmos; antes passemos por descuidados que por ávidos ao dinheiro de teu pai.


— Meu pai não pensará isso, disse Tomás.


— Pode pensar...


— Creio que não... Meu pai está mudado: é outro. Ele já te reconhece; não te fará injustiça.


— Está bom, veremos depois.


E depois desta conversa nunca mais se falou nisso, sendo que Tomás não encontrou na resistência de Malvina senão um motivo mais para amá-la e respeitá-la.

* * *

Tibério Valença, desenganado a respeito da expectativa em que estava, resolveu ir um dia em pessoa visitar a nora.
Era isto nem mais nem menos o reconhecimento solene de um casamento que desaprovara. Esta consideração, tão intuitiva em si, não se apresentou ao espírito de Tibério Valença.


Malvina estava só quando à porta parou o carro de Tibério Valença.
Esta visita inesperada causou-lhe verdadeira surpresa.
Tibério Valença entrou com um sorriso nos lábios, sintoma de bonança do espírito, que não escapou à ex-professora de piano.


— Não me querem ir ver, venho eu vê-los. Onde está meu filho?


— Na repartição.


— Quando volta?


— Às três e meia.


— Já não posso vê-lo. Há muitos dias que ele não vai. Quanto à senhora, creio que decididamente nunca mais lá volta...


— Não tenho podido...


— Por quê?


— Ora, isso não se pergunta a uma dona-de-casa.


— Então tem muito que fazer?...


— Muito.


— Oh! mas nem meia hora pode dispensar? E que tanto trabalho é esse?


Malvina sorriu-se.


— Como lhe hei de explicar? Há tanta coisa miúda, tanto trabalho que não aparece, enfim coisas de casa. E se nem sempre estou ocupada, estou muitas vezes preocupada, e outras simplesmente cansada...


— Creio que um bocadinho mais de vontade...


— Falta de vontade? Não creia nisso...


— É ao menos o que parece.


Houve um momento de silêncio. Malvina, para mudar o rumo da conversação, perguntou a Tibério como se achava e se não tinha receios da recaída.


Tibério Valença respondeu, com ar de preocupação, que se achava bom e que não tinha receios de nada, antes se achava esperançado de gozar ainda longa vida e boa saúde.


— Tanto melhor, disse Malvina.


Tibério Valença, sempre que Malvina se distraía, corria os olhos em redor da sala para examinar o valor dos móveis e avaliar por eles a posição do filho.


Os móveis eram singelos e sem essa profusão e multiplicidade dos móveis das salas abastadas. O chão tinha um palmo de palhinha ou uma fibra de tapete. O que se destacava era um rico piano, presente de alguns discípulos, feito a Malvina no dia em que esta se casou.


Tibério Valença, contemplando a modéstia dos móveis da casa de seu filho, era levado a uma comparação forçada entre eles e os de sua casa, onde o luxo e o gosto davam as mãos.


Depois deste exame minucioso, interrompido pela conversação que continuava sempre, Tibério Valença deixou cair um olhar sobre uma pequena mesa ao pé da qual se achava Malvina.
Sobre essa mesa estavam umas roupas de criança.


— Cose para fora? perguntou Tibério Valença.


— Não, por que pergunta?


— Vejo ali aquela roupa...


Malvina olhou para o lugar indicado pelo sogro.


— Ah! disse ela.


— Que roupa é aquela?


— É de meu filho.


— De seu filho?


— Ou filha; não sei.


— Ah!


Tibério Valença olhou fixamente para Malvina, e quis falar. Mas causou-lhe tal impressão a serenidade daquela mulher cuja família se ia aumentar e que olhava tão impavidamente para o futuro, que a voz se lhe embargou e não pôde pronunciar palavra.


— Efetivamente, pensava ele, aqui há alguma coisa especial, alguma força sobre-humana que sustenta estas almas. Será isto o amor?


Tibério Valença dirigiu algumas palavras à nora e saiu deixando lembranças para o filho e instando para que ambos fossem visitá-lo.
Poucos dias depois da cena que acabamos de contar chegaram ao Rio de Janeiro Elisa e seu marido.
Vinham estabelecer-se definitivamente na corte.
A primeira visita foi para o pai, de cuja moléstia tinham sabido na província.
Tibério Valença recebeu-os com grande alvoroço. Beijou a filha, abraçou o genro, com uma alegria infantil.

* * *

Nesse dia houve em casa grande jantar, para o qual não se convidou ninguém além dos que habitualmente freqüentavam a casa.
O marido de Elisa, antes de pôr casa, devia ficar em casa do sogro, e quando comunicou este projeto a Tibério Valença, este acrescentou que não se iriam mesmo sem aceitar um baile.
O aditamento foi aceito.
O baile foi marcado para o sábado próximo, isto é, exatamente oito dias depois. Tibério Valença estava contentíssimo.


Tudo andou logo na maior azáfama. Tibério Valença queria provar com o esplendor da festa o grau de estima em que tinha a filha e o genro.
Desde então filha e genro, genro e filha, tais foram os dois pólos em que volteava a imaginação de Tibério Valença.


Enfim o dia de sábado chegou.
À tarde houve um jantar dado a alguns poucos amigos, os mais íntimos, mas jantar esplêndido, porque Tibério Valença não quis que um só ponto da festa desdissesse do resto.
Entre os convidados para o jantar veio um que informou o dono da casa de que outro convidado não vinha, por ter grande soma de trabalho a dirigir.
Era exatamente um dos mais íntimos e melhores convivas.


Tibério Valença não se deu por convencido com o recado, e resolveu escrever-lhe uma carta exigindo a presença dele no jantar e no baile.
Em virtude disto foi ao gabinete, abriu a gaveta, tirou papel e escreveu uma carta que mandou incontinenti.
Mas, no momento de guardar de novo o papel que tirara da gaveta, reparou que entre duas folhas se resvalara uma cartinha por letra de Tomás.
Estava aberta. Era uma carta, já antiga, que Tibério Valença recebera e atirara para dentro da gaveta. Foi a carta em que Tomás participava ao pai o dia do seu casamento com Malvina.


Essa carta, que em mil outras ocasiões lhe estivera debaixo dos olhos sem maior comoção, desta vez não deixou de impressioná-lo.
Abriu a carta e leu-a. Era de redação humilde e afetuosa.
Veio à mente de Tibério Valença a visita que fizera à mulher de Tomás.
O quadro da vida modesta e pobre daquele jovem casal apresentou-se-lhe de novo aos olhos. Comparou esse quadro mesquinho com o quadro esplêndido que apresentava a casa dele, onde um jantar e um baile iam reunir amigos e parentes.
Depois viu a doce resignação da moça que vivia contente no meio da parcimônia, só porque tinha o amor e a felicidade do marido. Esta resignação afigurou-se-lhe um exemplo raro, tanto lhe parecia impossível sacrificar o gozo e o supérfluo às santas afeições do coração.


Enfim o neto que lhe aparecia no horizonte, e para o qual Malvina já confeccionava o enxoval, tomou mais viva e decisiva ainda a impressão de Tibério Valença.
Uma espécie de remorso fez-lhe doer a consciência. A nobre moça, a quem ele tratara tão desabridamente, o filho, para quem ele fora um pai tão cruel, tinham cuidado com verdadeiro carinho o mesmo homem de quem receberam a ofensa e o desagrado. Tibério Valença refletia tudo isto passeando no gabinete. Dali ouvia o rumor dos fâmulos que preparavam o lauto jantar. Enquanto ele e os seus amigos e parentes iam apreciar os mais delicados manjares, que comeriam naquele dia Malvina e Tomás? Tibério Valença estremeceu diante desta pergunta que lhe fazia a consciência. Aqueles dois filhos que ele expelira tão desamorosamente e que com tanta generosidade lhe haviam pago não tinham naquele dia nem a milésima parte do supérfluo da casa paterna. Mas esse pouco que tivessem era, com certeza, comido em paz, na branda e doce alegria do lar doméstico.


As idéias dolorosas que assaltaram o espírito de Tibério Valença fizeram com que ele esquecesse inteiramente os convivas que se achavam nas salas.
Isto que se operava em Tibério Valença era uma nesga da natureza, ainda não tocada pelos preconceitos, e bem assim o remorso de uma ação má que havia cometido.
Isto e mais a influência da felicidade de que atualmente era objeto Tibério Valença produziram o melhor resultado. O pai de Tomás tomou uma resolução definitiva; mandou aprontar o carro e saiu.
Foi direito à casa de Tomás.
Este sabia da grande festa que se preparava em casa do pai para celebrar a chegada de Elisa e seu marido.


Assim que a entrada de Tibério Valença em casa de Tomás causou a este grande expectação.


— Por aqui, meu pai?


— É verdade. Passei, entrei.


— Como está a mana?


— Está boa. Ainda não foste vê-la?


— Contava ir amanhã, que é dia livre.


— Ora, se eu lhes propusesse uma coisa...


— Ordene, meu pai.


Tibério Valença dirigiu-se a Malvina e tomou-lhe as mãos.


— Escute, disse ele. Vejo que há na sua alma grande nobreza, e se nem a riqueza, nem os antepassados ilustram o seu nome, vejo que resgata estas faltas por outras virtudes. Abrace-me como pai.


Tibério, Malvina e Tomás abraçaram-se em um só grupo.


— É preciso, acrescentou o pai, que vão hoje lá a casa. E já.


— Já? perguntou Malvina.


— Já.


Daí a meia hora apeavam os três à porta da casa de Tibério Valença.
O pai arrependido apresentava aos amigos e aos parentes, aqueles dois filhos que tão cruelmente quisera excluir da comunhão da família.
Este ato de Tibério Valença veio a tempo de reparar o mal, e assegurar a paz futura dos seus velhos anos. A conduta generosa e honrada de Tomás e de Malvina valeram esta reparação.
Isto prova que a natureza pode comover a natureza, e que uma boa ação tem a faculdade muitas vezes de destruir o preconceito e restabelecer a verdade do dever.
Não pareça improvável ou violenta esta mudança no espírito de Tibério. As circunstâncias favoreceram essa mudança, para a qual o principal motivo foi a resignação de Malvina e de Tomás.


Fibra paternal, mais desvencilhada, naquele dia, dos liames de uma consideração social mal entendida, pôde palpitar livremente e mostrar em Tibério Valença um fundo melhor do que as suas aparências cruéis. Tanto é verdade que, se a educação modifica a natureza, a natureza pode em suas exigências mais absolutas readquirir os seus direitos e manifestar a sua força.


Com a declaração de que foram sempre felizes os heróis deste conto deita-se-lhe um ponto final.


Próxima (19)        Índice de Machado de Assis        Anterior (18)





Índice de contos e crônicas


Índice de frases famosas e frases de amor


Índice de poesias



Fonte

Edição referência: http://www2.uol.com.br/machadodeassis
Publicado originalmente em Jornal das Famílias 1866


Texto proveniente de:
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro http://www.bibvirt.futuro.usp.br
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo.
Permitido o uso apenas para fins educacionais.


Este material pode ser redistribuído livremente, desde que não seja alterado, e que as informações acima sejam mantidas. Para maiores informações, escreva para bibvirt@futuro.usp.br.
Eles estão em busca de patrocinadores e voluntários para os ajudar a manter este projeto. Se você quer ajudar de alguma forma, mande um e-mail para bibvirt@futuro.usp.br e saiba como isso é possível.





Google
 
Web www.eurooscar.com

www.eurooscar.com - Autor: Euro Oscar - © 2008
Direitos Reservados - Contato: eurooscar@gmail.com


Se veio até aqui por um link externo e não vê o menu fixo à esquerda, clique aqui, para melhor usar e controlar o site.


Página inicial do site