PARÁBOLAS BUDISTAS 17
A MULHER BELA E RICA E SUA IRMÃ FEIA E POBRE
Certa vez, uma mulher bela e bem trajada visitou uma casa. O dono da casa lhe perguntou quem era e ela respondeu que era a deusa da fortuna.
Mais que depressa o dono da casa acolheu respeitosamente essa mulher bela e rica e a tratou muito bem.
Logo depois, uma mulher feia e pobremente vestida bateu à mesma porta. O dono da casa perguntou-lhe quem era e a mulher lhe respondeu que ela era a deusa da pobreza.
O dono da casa, assustado, tentou por a mulher feia e pobre para fora de casa, mas ela recusou-se a sair, dizendo:
"A deusa da riqueza é minha irmã. Há um acordo tácito entre nós, segundo o qual nunca devemos viver separadamente; se você me enxotar, ela irá comigo."
Era a pura verdade. Assim que a horrenda mulher saiu, a outra, bela e rica, desapareceu.
O nascimento acompanha a morte. A fortuna acompanha o infortúnio. As más coisas seguem as boas coisas. Os seres humanos deveriam compreender isso.
Os tolos temem o infortúnio e lutam para conseguir a felicidade, mas aqueles que buscam a iluminação devem transcender a ambos e estar livres de todos os apegos mundanos.
Preciosa colaboração de Márcio Barros - RJ
A SEMENTE DA MOSTARDA
Um opulento comerciante ficara profundamente aflito ao verificar, um dia que todas suas moedas e barras de ouro haviam se transformado em carvão da noite para o dia, e recolhera-se ao leito sem mais querer alimentar-se, pois preferia a morte à indigência.
Um amigo seu, informado do acontecido, foi visitá-lo e ao ouvir-lhe a causa de seu sofrimento, ponderou-lhe:
-Teu ouro transformou-se em carvão porque não aplicaste bem tua riqueza. O ouro avaramente acumulado não vale mais do que o carvão. Mas ouve um conselho: estende teus tapetes no bazar, põe-lhes em cima o carvão e vende-o.
O mercador seguiu o conselho de seu amigo, e quando os vizinhos lhe perguntaram por que vendia carvão, respondia:
-É a única coisa que possuo.
Algum tempo depois, uma jovem órfã e pobre, chamada Krisha Gotami, passou pelo bazar do mercador e lhe perguntou:
-Meu senhor; vendes também estes montões de ouro?
O mercador respondeu-lhe:
-De que ouro falas? Onde está?
Krisha Gotami pegou uns pedaços de carvão, que na vista do mercador se transformaram em ouro.
O mercador supôs que Krisha Gotami possuísse clarividência mental, e a casou com seu filho, pensando consigo mesmo: "Para muitas pessoas o ouro não vale mais que o carvão: mas Krisha Gotami transmuda o carvão em ouro."
Krisha Gotami teve um filho e este morreu. Transida de dor, ia com o filho morto de casa em casa, pedindo um remédio, e as pessoas diziam:
-Está doida: a criança está morta."
Finalmente, Krisha Gotami encontrou um camponês que respondeu sua súplica dizendo:
-Não posso dar um remédio para a criança, porém sei de um médico capaz de o dar.
E Krisha Gotami respondeu:
-Suplico-te que me digas quem é.
-Vai ver o Buda.
Krisha Gotami foi ver o Iluminado e exclamou, chorando:
-Senhor meu e mestre. Meu filho estava brincando entre as flores e tropeçou numa serpente que se enroscou no seu braço. Ficou logo pálido e silencioso.
Não posso aceitar que ele deixe de brincar ou que deixe o meu colo. Senhor meu mestre, dá-me um remédio que cure o meu filho.
O Iluminado respondeu:
-Sim irmãzinha, há uma coisa que pode curar teu filho e a ti, se puderes consegui-la, porque os que consultam os médicos tomam o que lhes é receitado.
Procura uma simples semente de mostarda preta, porém só deves receber de uma casa onde nunca tenha entrado a morte, onde não tenha ainda morrido pai, mãe, filho nem filha, nem irmão, nem irmã, nem escravo nem parente.
Aflita, Krisha Gotami foi de casa em casa pedindo o grão de mostarda. As pessoas se compadeciam dela e lhe davam, porém, quando ela pergunta se já tinha morrido alguém naquela casa, lhe respondiam:
-Ah! Poucos são os vivos e muitos os mortos. Não despertes nossa dor.
Agradecida, ela lhes devolvia a mostarda e dirigia-se a outros que lhes diziam:
-Aqui está a semente, porém já morreu nosso escravo.
-Aqui está a semente, porém o semeador morreu entre a estação chuvosa e a colheita.
E não encontrou nenhuma casa onde não tivesse morrido alguém.
Krisha Gotami voltou chorosa para o Iluminado dizendo-lhe:
-Ah! Senhor, não pude encontrar mostarda em casa onde não tivesse havido morte. Então, entre as flores silvestres, na margem do rio, deixei meu filho que não queria mamar nem sorrir, e volto para ver teu rosto e beijastes pés suplicando-te que me digas onde encontrar essa semente, sem deparar ao mesmo tempo com a morte, pois, apesar de tudo não posso crer na morte de meu filho, como todos me disseram e temo tenha acontecido.
O mestre respondeu-lhe:
-Minha irmã, procurando o que não podes encontrar, achaste o amargo bálsamo que eu queria dar-te. Sobre teu seio, o ser que amas dormiu hoje o sono da morte. Agora já sabes que todo mundo chora uma dor semelhante à tua. O sofrimento que aflige todos os corações pesa menos do que se concentrado num só.
Escuta! Derramaria eu meu sangue se, derramá-lo pudesse deter tuas lágrimas e descobrir o segredo de o amor causar angústia e através de prados floridos conduzir-vos ao sacrifício, qual mudos animais conduzidos por seus donos.
Nenhum nascido pode evitar a morte. Assim como os frutos maduros caem da árvore, assim os mortais estão expostos à morte desde que nascem. A vida corporal do homem acaba partindo-se como a vasilha de barro do oleiro.
Jovens e adultos, néscios e sábios, todos estão sujeitos à morte. Porém, o sábio que conhece a Lei não se pertuba, porque nem pelo pranto nem pelo desânimo obtém a paz, mas pelo contrário, avivam as dores e os sofrimentos do corpo.
A morte não faz caso de lamentações. Morre o homem, e seu destino está determinado por suas ações. Embora viva dez ou cem anos, acaba o homem por separar-se de seus parentes ao sair deste mundo.
Quem deseja a paz da alma, deve arrancar de sua ferida a flecha do desgosto, da queixa, da lamentação. Feliz será aquele que consegue vencer a dor. Sepulta tu mesma o teu filho.
Extenuada pela dor, Krisha Gotami sentou-se à beira do caminho, pôs-se a meditar no silêncio do entardecer e disse consigo: "Quão egoísta sou eu em minha dor! A morte é o destino comum de tudo quando vive. Porém, neste vale desolado há um caminho que conduz à imortalidade - aquele que elimina de si todo egoísmo.
E sufocando o amor egoísta que sofria por seu filho, enterrou-o no bosque. E foi logo refugiar-se no Iluminado, e encontrou consolo que alivia o coração dilacerado pela dor.
"Dedico a S. Castilhos, e a todas as pessoas
que um dia perderam um ente muito querido."
Preciosa colaboração de Charles Chigusa
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FONTE DOS TEXTOS
http://www.vertex.com.br/users/san
Sorria ao acordar
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