ENSINAMENTOS
DO DALAI LAMA
A ENCRUZILHADA
DA CIÊNCIA
As últimas décadas presenciaram significativos
avanços na compreensão científica do cérebro e
corpo humanos como um todo. E ainda mais,
com o advento da moderna pesquisa genética,
o conhecimento da Neurociência a respeito do
funcionamento dos organismos biológicos foi
levado ao nível mais sutil dos genes individuais.
Isto resultou em possibilidades tecnológicas
imprevistas, chegando até mesmo à
manipulação dos próprios códigos da vida,
dando surgimento, a partir daí, a se vislumbrar a
criação de realidades completamente novas
para a humanidade. Hoje em dia, a questão do
intercâmbio da ciência com o conjunto da
humanidade não é mais um tópico de interesse
acadêmico apenas; ela precisa assumir um
senso de urgência para todos os que se
preocupam com o destino do ser humano.
Penso, portanto, que um diálogo entre a
neurociência e a sociedade poderia trazer
importantes benefícios no que se refere ao
aprofundamento da nossa compreensão básica
daquilo que significa pertencer à espécie humana
e quanto às nossas responsabilidades com o
mundo natural, o qual compartilhamos com os
demais seres sencientes.
Eu estou feliz em ver que, como parte deste
amplo intercâmbio, há um crescente interesse
entre alguns neurocientistas em se empenhar
em estreitar o diálogo com as disciplinas
contemplativas budistas.
Embora o meu próprio interesse pela ciência
tenha começado na curiosidade de um menino
irrequieto crescendo no Tibete, gradualmente,
emergiu em mim a importância colossal da
ciência e da tecnologia para a compreensão do
mundo moderno. Não apenas busquei captar
idéias científicas específicas, também tentei
explorar as implicações mais abrangentes da
ciência. As áreas específicas que explorei com
mais intensidade ao longo dos anos são a física
subatômica, cosmologia, biologia e psicologia.
Debito a minha limitada compreensão nestes
campos, com gratidão, às generosas horas
passadas junto com Carl Von Weizsacker e com
o falecido David Böhm. Eu os considero como
meus professores em Mecânica Quântica,
enquanto que, na biologia, especialmente, em
neurociência, interagi mais com o falecido
Robert Livingstone e com Francisco Varela.
Também agradeço aos numerosos eminentes
cientistas com os quais tive o privilégio de
manter conversações sob os auspícios do
Instituto Mind and Life, que patrocinou
conferências desde 1987, em minha residência
em Dharamsala, na Índia. Estes diálogos
continuaram ao longo dos anos, sendo que o
último foi concluído aqui em Washington, nesta
mesma semana.
Alguns podem se perguntar "Por que um monge
budista demonstraria um interesse tão profundo
na ciência? Qual relação pode haver entre
budismo, uma antiga tradição espiritual e
filosófica da Índia, com a ciência moderna? Que
possível benefício haveria para uma disciplina
como a neurociência em se engajar em um
diálogo com a tradição contemplativa budista?"
Embora a tradição contemplativa budista e a
ciência moderna tenham evoluído a partir de
raízes históricas, intelectuais e culturais
diferentes, acredito que, no seu cerne,
compartilham aspectos significativos,
especialmente na perspectiva filosófica e na
metodologia. Ao nível filosófico, tanto o
budismo quanto a ciência moderna questionam
qualquer noção de absoluto, quer
conceitualizado como um ser transcendental,
ou como um princípio imutável e eterno (alma),
ou como um substrato fundamental da
realidade. Tanto o budismo como a ciência
preferem explicar a evolução e a emergência do
cosmos e da vida em termos de uma complexa
inter-relação das leis naturais de causa e efeito.
A partir da perspectiva metodológica, as duas
tradições enfatizam o papel do empirismo. Por
exemplo, na tradição investigativa budista, entre
as três fontes reconhecidas de conhecimento —
experiência, razão e testemunho — a evidência
proveniente da experimentação está em
primeiro lugar, vindo, a seguir, a razão e, por
último, o testemunho. Isso significa que, na
investigação budista da realidade, ao menos em
princípio, o que é empírico triunfa sobre a
autoridade escritural, não importando quão
venerada esta possa ser. Mesmo no caso do
conhecimento derivado da razão ou inferência,
sua validade deriva, em última instância, de
fatos empíricos, de observações.
Por causa
desta perspectiva metodológica,
freqüentemente comento com meus colegas
budistas que as teorias da moderna cosmologia
e astronomia, comprovadas a partir da
observação empírica, devem nos impelir agora
a modificar e, em alguns casos, rejeitar muitos
aspectos da cosmologia tradicional budista.
Considerando que o motivo primordial,
subjacente à investigação budista da realidade,
é a busca da superação do sofrimento e do
aperfeiçoamento da condição humana, a
orientação básica do budismo tem se voltado à
compreensão da mente humana e de suas
várias funções. Parte-se da suposição de que
uma maior compreensão da psyche humana
nos proporcionará encontrar maneiras de
transformar nossos pensamentos, emoções e
propensões subjacentes, possibilitando modos
de ser mais integrados e satisfatórios. É neste
contexto que a tradição budista estabeleceu
uma rica classificação de estados mentais, bem
como de técnicas contemplativas para o refino
de certas qualidades.
Assim, uma genuína troca
entre o conhecimento e a experiência
acumulada do budismo e a ciência moderna, no
que se refere aos quesitos mais abrangentes
concernentes à mente humana, desde a
cognição e emoção até a compreensão da
capacidade de transformação inerente ao
cérebro humano, pode ser muito interessante e
potencialmente benéfica.
Baseado em minha
própria experiência neste campo, posso afirmar
que me enriqueceu profundamente manter
conversações com neurocientistas e psicólogos
sobre questões tais como: a natureza e o papel
das emoções negativas e positivas; a atenção;
as imagens mentais; bem como a plasticidade
do cérebro. A evidência clara, vinda da
neurociência e das ciências médicas, a respeito
do papel crucial de um simples toque físico para
o crescimento do cérebro de uma criança
durante as primeiras semanas de sua existência,
demonstra com vigor a conexão íntima entre
compaixão e felicidade humana.
Há muito tempo o budismo proclama o
potencial fantástico para a transformação
existente, de forma natural, na mente humana.
Com esse objetivo, a tradição desenvolveu uma
ampla gama de técnicas contemplativas ou
práticas meditativas, visando especificamente a
dois objetivos principais: o cultivo de um
coração compassivo e de profundos vislumbres
dentro da natureza da realidade, que são
referidos como a união da compaixão com a
sabedoria.
No coração destas práticas
meditativas, estão duas técnicas-chaves, o refino
da atenção e sua aplicação sustentada, por um
lado, e o controle e transformação das
emoções, do outro lado. Em ambos os casos,
penso que pode haver um grande potencial para
uma pesquisa conjunta entre budismo e
neurociência.
Por exemplo, a moderna
neurociência desenvolveu uma rica
compreensão dos mecanismos cerebrais
associados com a atenção e com a emoção. A
tradição contemplativa budista oferece, por
outro lado, técnicas práticas para o refino da
atenção e para o controle e transformação das
emoções. O encontro destas duas correntes,
portanto, poderia levar à possibilidade de
estudar o impacto da atividade mental
intencional sobre os circuitos cerebrais que
foram identificados como críticos para
processos mentais específicos. No mínimo, um
tal intercâmbio interdisciplinar poderia auxiliar na
formulação de questões essenciais em muitas
áreas-chaves.
Por exemplo, os indivíduos
possuem, de fato, uma capacidade fixa para
controlar suas emoções e atenção, ou, como a
tradição budista afirma, sua capacidade de
controlar esses processos está sujeita à
mudança, implicando um grau similar de
dependência em relação aos sistemas mentais e
comportamentais associados a essas funções?
Uma área na qual a tradição budista pode dar
uma contribuição importante é quanto a
técnicas efetivas desenvolvidas para o
treinamento em compaixão.
No que se refere
ao treino mental, tanto em atenção quanto em
controle emocional, é também crucial perguntar
se qualquer técnica específica possui uma
sensitividade temporal em termos de sua
efetividade, de modo que novos métodos
possam ser criados para se adequar a
necessidades decorrentes de idade, condição de
saúde e outros fatores.
Cabe aqui, contudo, uma advertência. É
inevitável que, quando duas tradições
investigativas radicalmente diferentes, como o
budismo e a neurociência, juntam-se para um
diálogo interdisciplinar, isto implicará problemas
"fronteiriços" que normalmente costumam
ocorrer nas trocas interculturais deste tipo. Por
exemplo, quando falamos de "ciência da
meditação", precisamos estar atentos ao que
exatamente se quer dizer com isso.
Por parte
dos cientistas, penso ser crucial estar atento às
diferentes conotações do importante termo
"meditação" em seu contexto tradicional. Neste
último, a palavra para meditação é bhavana
(sânscrito) ou gom (tibetano). Bhavana tem
uma conotação de "cultivo", como de um
"hábito" ou "modo de ser" em particular,
enquanto que gom, a de cultivar "familiaridade".
Assim, em resumo, meditação, no contexto
tradicional budista, refere-se a uma atividade
mental deliberada que envolve o cultivo da
familiaridade seja com um objeto escolhido, um
fato, um tema, um hábito, uma perspectiva, ou
um modo de ser. Em sentido amplo, há duas
categorias de prática meditativa: uma focada
em acalmar a mente, e outra, focada sobre os
processos cognitivos da compreensão, referidas
como "estabilização meditativa" e "meditação
analítica".
Em qualquer caso, a meditação pode
assumir muitas formas diferentes, por exemplo,
tomar a impermanência como um objeto para
análise, ou cultivar um estado mental específico,
tal como a compaixão. Também pode-se lançar
mão da imaginação, utilizando o potencial
humano para gerar imagens mentais e aplicá-las
para o cultivo do bem-estar interior. Assim, é
fundamental estar ciente sobre quais formas de
meditação estamos investigando ao efetuarmos
pesquisas conjuntas, de modo que a
complexidade das práticas meditativas tenha
um paralelo na sofisticação do método
científico.
Uma outra área em que uma perspectiva crítica
é requerida por parte dos cientistas está na
capacidade de distinguir entre os aspectos
empíricos do pensamento e prática
contemplativa budista e os pressupostos
filosóficos e metafísicos associados com tais
práticas.
Em outras palavras, da mesma
maneira como precisamos distinguir, dentro da
abordagem científica, entre suposições teóricas,
observações experimentais e interpretações
subseqüentes, no budismo, precisamos
distinguir entre vaticínios, estados mentais
comprováveis experiencialmente e
interpretações filosóficas subseqüentes.
Desta
maneira, os dois lados podem encontrar um
terreno comum de fatos observáveis
empiricamente a respeito da mente humana,
sem cair na tentação de tentar limitar o escopo
de uma disciplina ao contexto da outra.
Embora os pressupostos filosóficos e as
subseqüentes interpretações conceituais
possam diferir no que tange a fatos empíricos,
fatos precisam continuar fatos, não importando
como são descritos. Qualquer que seja a
verdade a respeito da natureza final da
consciência, seja ela redutível ou não a
processos meramente físicos, penso poder
existir um campo comum de compreensão dos
fatos derivados da experiência a respeito dos
vários aspectos da nossas percepções,
pensamentos e emoções.
Após tais considerações cautelares, penso que
uma cooperação íntima entre estas duas
tradições investigativas pode verdadeiramente
contribuir para a expansão da compreensão do
complexo mundo interno da experiência
subjetiva que chamamos de "mente".
Os
benefícios deste esforço já estão começando a
aparecer. De acordo com relatos preliminares,
os efeitos do treino mental, como por exemplo,
a prática regular da Mente Atenta, ou o cultivo
deliberado da compaixão, produzem mudanças
observáveis no cérebro humano correlatas aos
estados mentais positivos.
Descobertas
recentes na neurociência demonstraram a
plasticidade inata do cérebro, tanto em termos
das conexões sinápticas quanto ao nascimento
de novos neurônios, como resultado da
exposição a estímulos externos, tais como
exercícios físicos voluntários, ou um ambiente
mais rico.
A tradição contemplativa budista
pode ajudar a expandir este campo de pesquisa
científica ao propor tipos de treinos mentais que
possam ter, também, correlação com a
plasticidade neural. Se disso resultar, como a
tradição budista afirma, um efeito observável ao
nível físico, podemos imaginar implicações de
longo alcance. As repercussões de uma tal
pesquisa não ficarão confinadas simplesmente à
expansão do nosso conhecimento do cérebro
humano, mas, mais importante ainda,
impactarão mais significativamente na nossa
compreensão da educação e saúde mental.
De
modo similar, se o cultivo deliberado da
compaixão, como a tradição budista apregoa,
pode levar a uma mudança radical na
perspectiva individual, isto poderá ter
implicações de longo alcance para a sociedade
como um todo.
Finalmente, creio que a colaboração entre a
neurociência e a tradição budista pode lançar
uma nova luz sobre a questão de vital
importância relacionada à ética. Seja qual for o
conceito que possamos ter a respeito da
relação entre ética e ciência, na prática efetiva,
a ciência evoluiu primordialmente como uma
disciplina empírica com uma posição
moralmente neutra e isenta de valores. Ela é
vista essencialmente como um modo de
investigação que produz um conhecimento
detalhado do mundo empírico e das leis naturais
subjacentes.
Do mero ponto de vista científico,
a criação de armas nucleares é uma realização
verdadeiramente espantosa. Contudo, já que
esta criação tem o potencial de gerar enorme
sofrimento em termos de destruição e morte,
nós a consideramos como sendo destrutiva. É a
avaliação ética que deve determinar o que pode
ser considerado positivo ou negativo. Até
recentemente, esta abordagem de segregar a
ética da ciência, achando que a capacidade
humana para o pensamento moral evolui junto
com o conhecimento, parece ter prevalecido.
Hoje em dia, penso que a humanidade está
numa encruzilhada crítica. Os avanços radicais
que ocorreram na neurociência e
particularmente na genética, próximo do final do
século vinte, levaram-nos para uma nova era
na história humana. Nosso conhecimento do
cérebro e corpo humanos, ao nível celular e
genético, com as conseqüentes possibilidades
tecnológicas de manipulação genética,
alcançaram um tal estágio que os desafios
éticos destes avanços científicos são de grande
porte.
É mais do que evidente que nosso
pensamento moral simplesmente não foi capaz
de se manter passo a passo com um progresso
tão rápido na nossa aquisição de conhecimento
e poder. Contudo, as ramificações destas novas
descobertas e suas aplicações são de tão longo
alcance, que se relacionam à própria concepção
da natureza humana e à preservação da
espécie.
De modo que, não é mais adequado
adotar a visão de que nossa responsabilidade
como sociedade é simplesmente apoiar o
avanço do conhecimento científico e ampliar o
poder tecnológico, deixando a escolha do que
fazer com tal conhecimento e poder nas mãos
de indivíduos. Precisamos encontrar maneiras
de introduzir considerações humanitárias e
éticas fundamentais na definição da direção do
desenvolvimento científico, em especial nas
ciências ligadas à vida. Ao invocar princípios
éticos básicos, não estou defendendo a fusão
da ética religiosa com a pesquisa científica.
Estou, isto sim, falando do que chamo de "ética
secular" que abarca os princípios éticos
essenciais, tais como compaixão, tolerância,
cuidado com os demais seres, consideração
pelas necessidades dos outros e uso
responsável do conhecimento e do poder,
princípios estes que transcendem as fronteiras
entre correntes religiosas e, também, de
não-crentes.
Eu, pessoalmente, gosto de
imaginar todas as atividades humanas, incluindo
a ciência, como dedos individuais de uma
mesma mão. Enquanto cada um destes dedos
estiver conectado com a mão da empatia e do
altruísmo básicos do ser humano, continuarão a
servir ao bem-estar de todos. Nós
verdadeiramente vivemos em um único mundo.
A moderna economia, os meios de
comunicação eletrônicos, o turismo
internacional, bem como os problemas
ambientais, todos eles nos lembram, cada dia,
da profunda interconexão existente no mundo
inteiro atualmente.
As comunidades científicas
desempenham um importante e vital papel
neste mundo interdependente. Por razões
históricas, sejam quais forem, os cientistas
desfrutam de um grande respeito e confiança da
sociedade, mais até do que disciplinas
tradicionais como filosofia ou religião, terreno
onde eu atuo. Apelo aos cientistas que
introduzam no seu trabalho profissional os
ditames dos princípios éticos básicos que todos
nós compartilhamos como seres humanos.
Pensamentos do 14o Dalai Lama
O Discurso do Prêmio Nobel da Paz
Os Direitos do Homem no Limiar do Século XXI
Ensinamentos: Bondade e Compaixão
Ensinamentos: Dimensões da Espiritualidade
Ensinamentos: Magia e Mistério no Tibete
Ensinamentos: Uma Abordagem Ética à
Proteção Ambiental
Um Conceito Budista de Natureza
Ensinamentos: A Encruzilhada da Ciência
Ensinamentos: Uma Colaboração entre a Ciência e a Religião
Mensagens do Dalai Lama
Uma biografia do Dalai Lama
Breve Diálogo com Leonardo Boff
Entrevista: o expansionismo da espiritualidade
Cooperação entre as Religiões do Mundo
Adam Yauch Entrevista S.S. o Dalai Lama
A Prática da Bondade supera a Razão (Por Pico Iyer)
Responsabilidade Universal, Direitos Humanos e Paz
Artigo da Revista The Tablet
Valores Humanos e sua Prática na Vida Cotidiana - 1
Valores Humanos e sua Prática na Vida Cotidiana - 2
Valores Humanos e sua Prática na Vida Cotidiana - 3
Valores Humanos e sua Prática na Vida Cotidiana - 4
Dalai Lama em São Paulo: 27 a 30 de abril de 2006
Do nascimento ao exílio - 1
Do nascimento ao exílio - 2
Os três principais comprometimentos de vida
Ensinamentos: a importância de plantar e proteger árvores
Ensinamentos: Ecologia e o coração humano
Harmonia religiosa
Ensinamentos: Religião no mundo de hoje
Ensinamentos: Pensando globalmente - uma tarefa universal
Ensinamentos: sumário do budismo
Ensinamentos: um Meio-Ambiente limpo é um Direito Humano
Ensinamentos: uma mente tendenciosa não percebe a realidade
Os Dalai Lamas
FONTE DOS TEXTOS
Este artigo é baseado em uma palestra
proferida pelo Dalai Lama durante o encontro
anual da Sociedade para a Neurociência em 12
de novembro de 2005, Washington, DC, EUA.
Traduzido por Tamas Virag e Enio Burgos.
http://www.dalailama.org.br/ensinamentos/encruzilhada.htm
www.NewWordGames.com - Author: Euro Oscar - © 2008
All Rights Reserved - Contact: eurooscar@gmail.com
|
|