ENSINAMENTOS DO DALAI LAMA
DIMENSÕES DA ESPIRITUALIDADE
Irmãos e irmãs, gostaria de falar sobre valores
espirituais definindo dois níveis de
espiritualidade. Como seres humanos, nosso
objetivo básico é ter uma vida feliz; todos
queremos ser felizes. É natural, para nós,
buscar a felicidade. Esse é nosso objetivo de
vida. A razão é completamente clara: quando
perdemos a esperança, o resultado é que nos
tornamos deprimidos e talvez até suicidas.
Portanto, nossa existência é fortemente
enraizada na esperança. Embora não haja
garantia de que o futuro chegará, é porque
temos esperança que somos capazes de
continuar vivendo. Podemos dizer que o
propósito de nossa vida, nosso objetivo de
vida, é a felicidade.
Seres humanos não são produzidos por
máquinas. Somos mais do que apenas matéria;
temos sentimento e experiência. Por essa
razão, somente conforto material não é
suficiente. Necessitamos algo mais profundo, o
que usualmente chamo de afeição humana, ou
compaixão. Com afeição humana, ou
compaixão, todas as vantagens materiais que
temos à nossa disposição podem ser muito
construtivas e produzir bons resultados.
Contudo, sem afeição humana, somente
vantagens materiais não nos proporcionarão
satisfação, nem produzirão qualquer medida de
paz mental ou felicidade. De fato, vantagens
materiais sem afeição humana podem até
mesmo criar problemas adicionais. Portanto,
afeição humana, ou compaixão, é a chave para
a felicidade humana.
O primeiro nível da espiritualidade, para os seres
humanos de todos os lugares, é a fé em uma
das muitas religiões do mundo. Penso que há
um importante papel para cada uma das
principais religiões mundiais, mas para que elas
façam uma contribuição efetiva em benefício da
humanidade do lado religioso, há dois fatores
importantes a serem considerados. O primeiro é
que praticantes individuais das várias religiões —
isto é, nós mesmos — devem praticar
sinceramente. Ensinamentos religiosos devem
ser uma parte integral de nossas vidas; eles não
deveriam estar separados de nossas vidas.
Algumas vezes, vamos a uma igreja ou um
templo e rezamos uma prece, ou geramos
algum tipo de sentimento espiritual e, quando
saímos, nada daquele sentimento religioso
permanece. Essa não é a forma adequada de
praticar. A mensagem religiosa deve estar
conosco onde quer que estejamos. Os
ensinamentos da nossa religião devem estar
presentes em nossas vidas de forma que,
quando realmente precisamos ou pedimos
bençãos ou força interior, mesmo nessas horas
esses ensinamentos estarão lá; eles estarão lá
quando passarmos por dificuldades porque
estão constantemente presentes. Somente
quando a religião torna-se uma parte integral de
nossas vidas é que ela pode ser realmente
efetiva.
Também precisamos experienciar mais
profundamente os significados e valores
espirituais de nossa própria tradição religiosa —
precisamos conhecer esses ensinamentos não
só a nível intelectual, mas também, de forma
cada vez mais profunda, através de nossa
própria experiência. Algumas vezes entendemos
diferentes idéias religiosas num nível muito
superficial ou intelectual. Sem um sentimento
profundo, a eficácia da religião torna-se limitada.
Portanto, devemos praticar sinceramente, e a
religião deve tornar-se parte de nossas vidas.
O segundo fator refere-se mais à interação
entre as várias religiões mundiais. Hoje, por
causa da crescente mudança tecnológica e a
natureza da economia mundial, estamos muito
mais dependentes uns dos outros do que antes.
Diferentes países e continentes tornaram-se
mais intimamente associados uns com os
outros. Na realidade, a sobrevivência de uma
região do mundo depende da de outras.
Portanto, o mundo tornou-se mais próximo,
muito mais interdependente. Como
conseqüência, há mais interação humana. Sob
tais circunstâncias, a idéia de pluralismo entre as
religiões mundiais é muito importante. Em
tempos passados, quando as comunidades
viviam separadas uma das outras e as religiões
surgiam num relativo isolamento, a idéia que
havia só uma religião era muito útil. Mas agora
a situação mudou, e as circunstâncias são
inteiramente diferentes. Agora é crucial aceitar o
fato de que existem diferentes religiões, e a fim
de desenvolver verdadeiro respeito mútuo entre
elas é essencial aproximar o contato entre as
várias religiões. Esse é o segundo fator que
possibilitará as religiões mundiais serem mais
eficazes em beneficiar a humanidade.
Quando estava no Tibete, eu não tinha contato
com pessoas de diferentes crenças religiosas.
Assim, minha atitude em relação às outras
religiões não era muito positiva. Mas, quando
tive a oportunidade de encontrar pessoas de
diferentes crenças e aprender com essa
experiência e o contato pessoal, minha atitude
para com as outras religiões mudou.
Compreendi como são úteis para a humanidade
e o potencial contributivo de cada uma para um
mundo melhor. Há séculos, as religiões vêm
dando contribuições maravilhosas para o
aprimoramento dos seres humanos, e ainda
hoje há um grande número de seguidores do
cristianismo, islamismo, judaísmo, budismo,
hinduísmo e assim por diante. Milhões de
pessoas estão se beneficiando de todas essas
religiões.
Para dar um exemplo do valor do encontro de
diferentes crenças, meus encontros com o
falecido Thomas Merton fizeram-me perceber
que bonita, maravilhosa pessoa ele era. Noutra
ocasião, encontrei-me com um monge católico
que viveu vários anos como eremita numa
montanha bem atrás do mosteiro de
Montserrat, na Espanha. Quando visitei o
mosteiro, ele desceu de sua ermida
especialmente para falar comigo. O fato de o
inglês dele estar pior do que o meu me deu
mais coragem de falar com ele! Ficamos cara a
cara e perguntei, "Nesses poucos anos, o que
você estava fazendo naquela montanha?" Ele
olhou-me e respondeu, "Meditação na
compaixão, no amor". Quando ele disse estas
poucas palavras, entendi a mensagem através
dos seus olhos. Realmente desenvolvi
verdadeira admiração por ele e por outros
como ele. Tais experiências ajudaram a
confirmar na minha mente que todas as
religiões do mundo têm o potencial para
produzir boas pessoas, a despeito das suas
diferenças de filosofia e doutrina. Cada tradição
religiosa tem sua própria maravilhosa
mensagem a transmitir.
Do ponto de vista do budismo, por exemplo, o
conceito de um criador é ilógico. É difícil para os
budistas entenderem esse conceito por causa
do modo que eles analisam a causalidade.
Contudo, este não é o lugar para discutir
questões filosóficas. O ponto importante aqui é
que para as pessoas que seguem esses
ensinamentos nos quais a crença básica está
num criador, esta abordagem é eficaz. De
acordo com essas tradições, o ser humano
individual é criado por Deus. Além disso, como
recentemente aprendi de um dos meus amigos
cristãos, eles não aceitam a teoria do
renascimento, e assim, não aceitam vidas
passadas ou futuras. Acreditam somente nesta
vida. Contudo, eles mantêm que esta vida é
criada por Deus, pelo criador, e esta idéia
desenvolve neles um sentimento de intimidade
com Deus. Seu ensinamento mais importante é
que, como estamos aqui por desejo de Deus,
nosso futuro depende do criador, e porque o
criador é considerado supremo e sagrado,
devemos amar a Deus, o criador.
O que se segue a isso é o ensinamento de que
deveríamos amar nossos semelhantes — esta é
a mensagem principal aqui. O raciocínio é que se
amamos a Deus, devemos amar nossos
semelhantes porque eles, como nós, foram
criados por Deus. O futuro deles, como o
nosso, depende do criador, portanto, sua
situação é igual a nossa. Logo, a crença das
pessoas que dizem "Ame a Deus" mas não
mostram amor verdadeiro para seus
semelhantes é questionável. A pessoa que
acredita em Deus e no amor a Deus, deve
demonstrar a sinceridade de seu amor a Deus
através do amor dirigido aos semelhantes. Essa
abordagem é muito poderosa, não é?
Assim, se examinarmos cada religião por vários
ângulos e da mesma maneira — não apenas da
nossa posição filosófica mas de vários pontos
de vista — não pode haver dúvida de que todas
as grandes religiões têm o potencial para
melhorar os seres humanos. Isto é óbvio.
Através de um contato próximo com pessoas
de outras fés, é possível desenvolver uma
atitude aberta e de respeito mútuo em relação
a outras religiões. Proximidade com diferentes
religiões ajuda-me a aprender novas idéias,
novas práticas, e novos métodos ou técnicas
que posso incorporar à minha própria prática.
Da mesma forma, alguns de meus irmãos e
irmãs cristãos adotaram certos métodos
budistas, como a prática da mente unifocada e
as técnicas de desenvolvimento da tolerância,
da compaixão e do amor. O benefício é enorme
quando praticantes de diferentes religiões se
unem para esse tipo de intercâmbio. Além de
desenvolverem a harmonia entre si, ganham
outras benesses.
Políticos e líderes de nações falam com
freqüência em "coexistência" e "ação conjunta".
Por que não nós, religiosos, também? Acho que
é chegada a hora. Em Assis, em 1987, por
exemplo, líderes e representantes de várias
religiões mundiais se encontraram para orar
juntos, embora eu não saiba ao certo se orar é
a palavra exata para descrever com acuidade a
prática de todas aquelas religiões. Em todo
caso, o que importa é que os representantes de
várias religiões se reuniram e, conforme suas
próprias crenças, rezaram. Isso já está
acontecendo e é, creio eu, muito positivo. No
entanto, ainda precisamos fazer mais esforços
para aumentar a harmonia e a proximidade
entre as religiões mundiais, pois sem um tal
esforço continuaremos a vivenciar todos esses
problemas que dividem a humanidade. Se a
religião fosse o único remédio para reduzir o
conflito humano, mas se este mesmo remédio
se tornasse outra forma de conflito, seria um
desastre. Hoje, como no passado, ocorrem
conflitos em nome da religião por causa de
diferenças religiosas, e acho isso muito triste.
Mas, como disse antes, se pensarmos aberta e
profundamente compreenderemos que a
situação atual é inteiramente diferente do
passado. Não estamos mais isolados, mas
somos interdependentes. Hoje, portanto, é
muito importante entender que um
relacionamento íntimo entre as várias religiões é
essencial, para que diferentes grupos religiosos
possam trabalhar juntos e realizar um esforço
comum para o benefício da humanidade. Assim,
sinceridade e fé na prática religiosa por um lado,
e tolerância e cooperação religiosa por outro,
formam este primeiro nível do valor da prática
espiritual para a humanidade.
O segundo nível da espiritualidade — a
compaixão como religião universal — é mais
importante que o primeiro porque, não importa
quão maravilhosa uma religião possa ser, ainda
assim ela é aceita somente por um número
limitado de pessoas. A maioria dos cinco ou seis
bilhões de seres humanos em nosso planeta
provavelmente não pratica religião alguma. De
acordo com o seu ambiente familiar, eles
poderiam se identificar como pertencentes a um
ou outro grupo religioso — "eu sou hindu", "eu
sou budista", "eu sou cristão" —, mas
realmente a maioria desses indivíduos não é
necessariamente praticante de nenhuma crença
religiosa. Isto está correto: seguir uma religião
ou não é um direito da pessoa como indivíduo.
Todos os grandes mestres, como Buda,
Mahavira, Jesus Cristo e Maomé falharam em
tornar toda a população humana voltada para a
espiritualidade. O fato é que ninguém pode fazer
isso. Se esses não-crentes são chamados de
ateus não importa. De fato, para alguns
estudiosos ocidentais os budistas também são
ateístas, pois não aceitam um criador. Por isso,
às vezes, ao descrever estes não-crentes,
adiciono a palavra "extremo" e os chamo de
não-crentes extremos. Eles não apenas são
não-crentes mas também são extremos,
presos ao ponto-de-vista de que a
espiritualidade não tem valor. Contudo,
devemos lembrar que essas pessoas também
são uma parte da humanidade e também têm,
como todos os seres humanos, o desejo de
viver uma vida pacífica e feliz. Este é o ponto
importante.
Acredito que não há problemas em permanecer
não-crente, mas enquanto você fizer parte da
humanidade, enquanto você for um ser
humano, você precisa de afeição humana,
compaixão humana. Este é realmente o
ensinamento essencial de todas as tradições
religiosas: o ponto crucial é a compaixão ou
afeição humana. Sem afeição humana, mesmo
crenças religiosas podem tornar-se destrutivas.
Assim, a essência, mesmo na religião, é um
bom coração. Considero que a afeição humana,
ou compaixão, é a religião universal. Crente ou
não-crente, todos necessitam de afeição
humana e compaixão, porque compaixão nos
dá força interior, esperança e paz mental.
Assim, ela é indispensável para todos.
Examinemos, por exemplo, a utilidade de um
bom coração na vida cotidiana. Se estamos de
bom humor quando nos levantamos de manhã,
com um sentimento caloroso no coração,
automaticamente está aberta a nossa porta
interior para aquele dia. Mesmo se uma pessoa
pouco amistosa aparece, não nos perturbamos,
e podemos até dizer a ela alguma coisa
simpática. Mas num dia de humor menos
positivo, quando nos sentimos irritados, nossa
porta interior se fecha automaticamente. O
resultado é que, mesmo se encontramos nosso
melhor amigo, ficamos pouco à vontade e
tensos. Tais situações mostram a diferença que
nossa atitude interior faz nas experiências do
dia-a-dia. Precisamos, pois, a fim de criar uma
atmosfera agradável em nós mesmos, nas
nossas famílias e nossas comunidades,
compreender que a fonte desse bem-estar está
dentro do indivíduo, dentro de cada um de nós
— um bom coração, compaixão humana, amor.
Uma vez criada uma atmosfera positiva e
amistosa, o medo e a insegurança
automaticamente diminuem. Assim, podemos
facilmente fazer mais amigos e criar mais
sorrisos. Afinal de contas, somos animais
sociais. Sem amizade humana, sem o sorriso
humano, nossa vida torna-se miserável. O
sentimento de solidão fica insuportável. É a lei
natural, isto é, pela lei natural dependemos dos
outros para viver. Se, sob certas circunstâncias,
por algo estar errado dentro de nós, nossa
atitude para com nossos semelhantes, de quem
dependemos, se tornar hostil, como poderemos
esperar paz de espírito e uma vida feliz? De
acordo com a natureza humana básica, ou lei
natural, a afeição — compaixão — é a chave da
felicidade. Segundo a medicina contemporânea,
um estado mental positivo, ou paz mental,
também é benéfico para a saúde física. Logo,
mesmo do ponto de vista de nossa saúde, paz
e calma mental são cada vez mais importantes.
Isso mostra que o próprio corpo físico aprecia e
responde à afeição humana, à humana paz de
espírito.
Se olharmos para a natureza humana básica,
veremos que nossa natureza é mais dócil do
que agressiva. Se examinarmos vários animais,
notaremos que aqueles de natureza mais
pacífica têm uma estrutura corporal
correspondente, enquanto os predadores têm
uma estrutura corporal desenvolvida de acordo
com a natureza deles. Compare um tigre com
um veado. Há uma grande diferença de
estrutura física entre eles. Quando comparamos
o nosso próprio corpo com os deles, vemos
que somos mais parecidos com os veados e
coelhos do que com os tigres. Até os nossos
dentes são mais parecidos com os deles, não
são? Bem diferentes dos do tigre. Nossas unhas
são outro bom exemplo — eu não sou capaz de
pegar nem um rato, só com as minhas unhas
humanas. Claro, a inteligência humana nos
habilita a criar ferramentas e métodos sem os
quais seria difícil fazer muito do que fazemos.
Como vêem, devido ao nosso estado físico,
pertencemos à categoria dos animais dóceis.
Acho que é nossa natureza humana
fundamental que se mostra em nossa estrutura
física básica.
Diante da situação global atual, a cooperação é
essencial, especialmente em campos como
economia e educação. O conceito de que
diferenças são importantes está agora mais ou
menos ultrapassado, como demonstra o
movimento por uma Europa Ocidental unificada.
Acho que esse movimento é verdadeiramente
maravilhoso e chega em boa hora. Ainda assim,
esse trabalho entre as nações não aconteceu
por causa de compaixão ou fé religiosa, mas
por necessidade. Há uma tendência crescente
em direção da conscientização global. Nas
atuais circunstâncias, um relacionamento mais
íntimo com os outros tornou-se um elemento
da nossa própria sobrevivência. Portanto, o
conceito de responsabilidade universal baseado
na compaixão e num senso de irmandade é
essencial. O mundo está cheio de conflitos —
por causa de ideologia, de religião ou até entre
famílias — baseados em alguém querendo uma
coisa e outra pessoa querendo outra coisa.
Assim, se examinarmos as fontes de todos
esses conflitos, descobriremos muitas fontes,
muitas causas, até dentro de nós mesmos.
Nesse meio tempo, todavia, temos o potencial
e a capacidade de unirmo-nos
harmoniosamente. Tudo mais é relativo.
Embora haja várias causas de conflito, existem
ao mesmo tempo muitas causas para união e
harmonia. Chegou a hora de pôr mais ênfase na
união. Também aqui, há que haver afeição
humana. Por exemplo, você pode ter uma
opinião ideológica ou religiosa diferente da de
outra pessoa. Se você respeitar o direito da
outra pessoa e mostrar sinceramente uma
atitude compassiva para com ela, então não
importa se a idéia dela lhe serve, isso é
secundário. Enquanto a outra pessoa acreditar,
enquanto puder se beneficiar de tal ponto de
vista, ela estará em seu absoluto direito. Então,
precisamos respeitar e aceitar o fato de que
existem diferentes pontos de vista. No campo
da economia dá-se o mesmo: nossos
competidores devem obter algum lucro, pois
eles também precisam sobreviver. Quando
temos uma visão mais ampla baseada na
compaixão, creio que tudo se torna mais fácil.
Compaixão, mais uma vez, é o fator-chave.
Os conflitos mundiais estão hoje
consideravelmente menos tensos. Felizmente,
agora podemos pensar e falar seriamente sobre
desmilitarização. Cinco anos atrás isso seria
difícil, mas hoje a Guerra Fria entre os Estados
Unidos e a ex-União Soviética acabou. Aos
meus amigos americanos eu sempre digo: A
força de vocês não vem das armas nucleares,
mas dos nobres ideais de democracia e
liberdade dos seus antepassados. Quando
estive nos Estados Unidos em 1991, pude
encontrar o ex-presidente George Bush. Na
ocasião, falávamos sobre a nova ordem
mundial e eu lhe disse: Uma nova ordem
mundial com compaixão é ótimo. Sem
compaixão, não tenho certeza.
Creio que é um bom momento para pensarmos
e falarmos sobre desmilitarização. Já há sinais
de redução armamentícia e, pela primeira vez,
de desnuclearização. Passo a passo, vamos
vendo uma diminuição de armas. Penso que
nossa meta deveria ser a de livrar o mundo —
nosso pequeno planeta s das armas. Isso não
quer dizer, porém, que devamos abolir todo
tipo de armas. Talvez seja preciso guardar
algumas, pois há sempre algumas pessoas e
grupos criando confusão entre nós. Por
precaução, e para nos resguardarmos desses
focos, poderíamos criar um sistema
internacional de forças policiais monitoradas
regionalmente, que não pertençam a nenhum
país mas sejam controladas coletivamente, e
supervisionadas por uma organização
internacional, como as Nações Unidas. Sem
armas disponíveis, não haveria perigo de
conflito militar entre as nações, nem haveria
guerras civis.
A guerra continua sendo, para nossa tristeza,
parte da história humana, mas acho que chegou
a hora de mudar os conceitos que levam à
guerra. Certas pessoas acham gloriosa a
guerra, e que através dela podem se tornar
heróis. Essa atitude comum em relação à
guerra é muito errada. Um entrevistador me
disse, um desses dias, que os ocidentais têm
muito medo da morte, mas que os orientais a
temem pouco. Eu lhe respondi, em tom de
brincadeira, que para a mentalidade ocidental, a
guerra e a instituição militar parecem
extremamente importantes. Guerra significa
morte — provocada, e não por causas naturais.
Assim, são vocês, ocidentais, que não temem a
morte, porque gostam tanto da guerra. Nós,
orientais, principalmente nós, tibetanos, não
podemos nem pensar em guerra; lutar, para
nós, está fora de cogitação porque o resultado
inevitável da guerra é o desastre: morte,
ferimentos e miséria. Portanto, o conceito de
guerra para nós é extremamente negativo. Isso
quer dizer que, na realidade, temos mais medo
da morte do que vocês, você não acha?
Infelizmente, alguns fatores fazem que nossas
idéias sobre a guerra sejam muito incorretas. É
hora, portanto, de pensar seriamente sobre
desmilitarização. Eu senti isso profundamente,
durante e depois da crise do Golfo Pérsico.
Claro, todos culparam Sadam Hussein, e não há
dúvida de que Sadam Hussein é negativo — ele
errou de muitas maneiras. Afinal, ele é um
ditador, e ditadores são obviamente negativos.
No entanto, sem sua organização militar, sem
suas armas, Hussein não seria aquele tipo de
ditador. Quem lhe forneceu as armas? Os
fornecedores também têm responsabilidade.
Alguns países ocidentais lhe forneceram armas
sem medir as conseqüências.
Pensar apenas em dinheiro, em lucrar vendendo
armas, é realmente horrível. Certa vez,
encontrei uma francesa que passara muitos
anos em Beirute, no Líbano. Ela me disse, com
grande tristeza, que durante a crise em Beirute
havia gente de um lado da cidade ganhando
dinheiro com a venda de armas, enquanto do
outro lado, no mesmo dia, havia gente inocente
sendo morta pelas mesmas armas. Da mesma
forma, de um lado do planeta há pessoas
vivendo suntuosamente com o lucro auferido da
venda de armas, enquanto pessoas inocentes
morrem do outro lado do planeta, vítimas
daquelas balas sofisticadas. O primeiro passo,
portanto, é parar a venda de armas. às vezes
eu brinco com meus amigos suecos: Vocês são
mesmo maravilhosos. Mantiveram a
neutralidade durante o último conflito e sempre
consideram a importância dos direitos humanos
e da paz mundial. ótimo. Mas, nesse meio
tempo, estão vendendo muitas armas. Há uma
pequena contradição aí, não há?
Assim, desde a crise do Golfo Pérsico, prometi a
mim mesmo que pelo resto da minha vida
contribuirei para avançar a idéia da
desmilitarização. No que diz respeito ao meu
país, já resolvi que, futuramente, o Tibete
deverá ser uma zona totalmente
desmilitarizada. Mais uma vez, para tornar a
desmilitarização uma realidade, o fator chave é
a compaixão.
Gostaria de concluir explicando melhor o
significado de compaixão, que freqüentemente é
mal entendido. Compaixão verdadeira não está
baseada em nossas próprias projeções e
expectativas, mas sim nos direitos do outro:
independentemente da outra pessoa ser um
amigo íntimo ou um inimigo, contanto que ela
deseje paz e felicidade e deseje superar o
sofrimento, então, baseado nisso,
desenvolvemos respeito verdadeiro para com
seus problemas. Isso é compaixão verdadeira.
Em geral, chamamos qualquer preocupação
com um amigo próximo de compaixão. Isso
não é compaixão, é apego. Nem casamentos
duram por apego, embora o apego geralmente
esteja presente. Eles duram porque também há
compaixão. Se os casamentos duram pouco, é
por perda de compaixão; só há apego
emocional baseado em projeção e expectativa.
Quando o único vínculo entre amigos íntimos é
o apego, mesmo uma questão menor pode
causar uma mudança nas projeções. Assim que
nossa projeção muda, o apego desaparece —
porque o apego estava baseado unicamente na
projeção e expectativa.
É possível ter compaixão sem apego — e
similarmente, ter cólera sem ódio. Portanto,
precisamos esclarecer as diferenças entre
compaixão e apego, e entre cólera e ódio. Tal
clareza é útil em nossa vida diária e em nossos
esforços para a paz mundial. Considero esses
valores espirituais como básicos para a
felicidade de todos os seres humanos, tanto do
crente quanto do não crente.
Pensamentos do 14o Dalai Lama
O Discurso do Prêmio Nobel da Paz
Os Direitos do Homem no Limiar do Século XXI
Ensinamentos: Bondade e Compaixão
Ensinamentos: Dimensões da Espiritualidade
Ensinamentos: Magia e Mistério no Tibete
Ensinamentos: Uma Abordagem Ética à
Proteção Ambiental
Um Conceito Budista de Natureza
Ensinamentos: A Encruzilhada da Ciência
Ensinamentos: Uma Colaboração entre a Ciência e a Religião
Mensagens do Dalai Lama
Uma biografia do Dalai Lama
Breve Diálogo com Leonardo Boff
Entrevista: o expansionismo da espiritualidade
Cooperação entre as Religiões do Mundo
Adam Yauch Entrevista S.S. o Dalai Lama
A Prática da Bondade supera a Razão (Por Pico Iyer)
Responsabilidade Universal, Direitos Humanos e Paz
Artigo da Revista The Tablet
Valores Humanos e sua Prática na Vida Cotidiana - 1
Valores Humanos e sua Prática na Vida Cotidiana - 2
Valores Humanos e sua Prática na Vida Cotidiana - 3
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Do nascimento ao exílio - 1
Do nascimento ao exílio - 2
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Ensinamentos: a importância de plantar e proteger árvores
Ensinamentos: Ecologia e o coração humano
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Ensinamentos: sumário do budismo
Ensinamentos: um Meio-Ambiente limpo é um Direito Humano
Ensinamentos: uma mente tendenciosa não percebe a realidade
Os Dalai Lamas
FONTE DOS TEXTOS
Ensinamento dado em Melbourne, Austrália, no
National Tennis Centre, em 4 de maio de 1992
e publicado em Dimensions of Spirituality,
Wisdom Publicaions, 1995.
Tradução de Bruno
D'Avanzo do Centro de Estudos Budistas
Paramitta (Curitiba - PR), em sua visita ao CEBB
em julho 1996, e de José Fonseca do
CEB-Bodhisattva (Porto Alegre - RS).
http://www.dalailama.org.br/ensinamentos/dimensoes.htm
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