VALORES HUMANOS E SUA PRÁTICA NA
NA VIDA COTIDIANA - 3
MANHÃ DE 6 DE ABRIL DE 1999: A NATUREZA E O
TREINAMENTO DA MENTE
Embora uma explicação detalhada sobre esse
tema fosse exigir muito tempo, acredito que
qualquer um decidido a conhecer a mente e a
treiná-la terá sucesso.
A filosofia oriental tem ensinamentos sobre a
natureza da mente que podem ser úteis a
pessoas de todo mundo.
É muito importante conhecer o funcionamento
da mente, porque quando falamos em nos
aperfeiçoar, estamos falando em treinar a
mente. Portanto, do que falamos é de
transformar a mente. E na verdade é a própria
mente que transforma a si mesma.
Quando vamos examinar quais as
características que queremos eliminar, físicas ou
verbais, quando avaliamos quais as
características de comportamento que
queremos implantar, usamos a própria mente.
Portanto, é a mente que estuda a si mesma.
A NATUREZA DA MENTE
Para esse estudo, temos que analisar alguns pontos da natureza
da mente. É através dos cinco sentidos que
temos contato com o mundo. É através deles
que conhecemos os objetos. Vemos um
objeto, ouvimos um som, sentimos um cheiro e
assim por diante. Esse processo de
conhecimento dos objetos é que é chamado de
consciência — temos consciência de algo, de
alguma coisa, através da informação dos
sentidos.
Em relação ao conhecimento dos objetos
através da consciência, há um sujeito, um
conhecedor. Portanto, precisamos saber quem
é esse sujeito. Há, desde as mais antigas
tradições filosóficas, diferentes conceitos sobre
esse sujeito. Alguns dizem que ele é
permanente, que é independente do corpo.
Alguns dizem que ele está no corpo e portanto
esse sujeito, esse self, é o cérebro. Outros
dizem que é algo diferente, que é uma
continuidade de estados mentais. Portanto, há
conceitos diferentes sobre o que seja o self. A
maioria das tradições religiosas chamam esse
sujeito de alma.
Normalmente, quando falamos de consciência,
estamos nos referindo a um estado mental que
é basicamente luminoso e que tem a natureza
de uma experiência. E embora a natureza última
da mente possa ser descrita como luminosa,
nós precisamos entender essa natureza em
relação à nossa própria experiência. Por
exemplo: precisamos entender os vários
estados de consciência que surgem em função
de diferentes estímulos externos.
De modo geral, nossa consciência está
relacionada com objetos. A visão de um objeto
faz surgir uma experiência visual. Um som dá
origem a uma experiência auditiva. Nossa
percepção é contaminada, portanto, por essas
experiências, por essas impressões vindas dos
objetos externos.
Para se conhecer a natureza última da mente,
precisamos eliminar essas contaminações. A
mente, nesse caso, pode ser comparada à
água: é preciso eliminar os sedimentos para se
conhecer o que é a água pura. Da mesma
forma, precisamos bloquear os pensamentos
conceituais para conhecer a mente pura.
Uma pessoa pode seguir essa prática de
conhecer a natureza da mente quando está
com o corpo e a mente sossegados. Por
exemplo: de manhã, a mente e corpo estão
repousados. Então é mais fácil interromper o
fluxo dos pensamentos, eliminar da mente as
experiências passadas, evitar pensar sobre
projetos futuros e dessa forma se conseguirá,
aos poucos, levar a mente ao seu estado puro
e calmo.
Quando encontramos esse estado, inicialmente
temos uma sensação de vazio. Posteriormente,
conheceremos o estado puro da mente. E a
natureza última da mente é de clareza absoluta,
livre de poluição e contaminação, dotada da
capacidade de conhecer claramente. É como
um tecido puro e branco.
AS EMOÇÕES
Agora, vamos analisar as
emoções. As emoções significam a
manifestação da consciência acompanhada de
sentimentos fortes. Emoções podem ser
destrutivas ou construtivas. Se nossa mente
permanecer neutra, sem sentimentos, isso não
seria bom. É preciso ter sentimentos,
sentimentos de responsabilidade, de
compromisso, mas mantendo-se calmo e
intocado.
As emoções podem também ser classificadas
em dois tipos: o primeiro é o das emoções que
surgem como uma manifestação de
sentimentos fortes e não são fruto de uma
análise lógica. Nessa categoria estão o apego e
a raiva.
Mas há também emoções que nascem de uma
investigação, de uma reflexão. Quando se
analisa a natureza de uma determinada
qualidade se pode chegar à convicção que se
deve adotar certa atitude. Isso pode se
manifestar de forma emocional, mas tem uma
base racional.
Vejamos o exemplo do apego. Ele aparece
espontaneamente. Embora possamos ter uma
explicação para o surgimento do apego, essa
explicação não será uma razão sólida, profunda.
Posso dizer "gosto dele porque me tratou
bem". Já no caso da compaixão verdadeira,
embora tenhamos todos a semente dela, pode
não surgir naturalmente, mas através do cultivo
e da determinação, do esforço para se chegar a
ela.
De maneira geral, as emoções positivas nos
vêm através da meditação analítica, não
espontaneamente, mas as negativas vêm de
forma espontânea. Digo "alguém quer me
prejudicar, é meu inimigo", e o odeio. Mas não
penso que é meu inimigo hoje. E daqui a um
ano? Não há uma razão sólida para sustentar
as emoções negativas.
CULTIVO DAS QUALIDADES POSITIVAS
A questão seguinte sobre o processo de transformação e
mudança da mente é identificar os dois níveis de
mente. Temos dois níveis de mente: o
construtivo e o destrutivo. O primeiro deve ser
incentivado, apoiado. O segundo precisa ser
eliminado. E o segundo é eliminado quando se
desenvolve o primeiro. Porque são de naturezas
opostas, e o cultivo das qualidades positivas
naturalmente ajuda a eliminar as características
negativas.
Assim é que o cultivo da virtude elimina o mal.
Da mesma forma, quando queremos eliminar
um vírus, usamos contra-forças, remédios que
o eliminam. Portanto, o processo de mudança
da mente nada mais é que aumentar os seus
aspectos positivos e reduzir os negativos.
Mais uma vez, vamos usar um exemplo. A
compaixão genuína e o ódio são opostos. Se o
ódio cresce, a compaixão diminui. E vice-versa.
Como já dissemos, emoções como a
compaixão são baseadas na razão lógica, e a
raiva é baseada em razões tolas. Assim, no
longo termo, é muito mais provável que a
compaixão prevaleça, por se basear em razões
lógicas. O fator mais importante aqui é o
tempo.
Mesmo a meditação esporádica não irá afetar
muito a mente. O mesmo vale para recitar
mantras. É preciso esforço ano após anos,
então se conseguem grandes transformações.
Há um dito de um monge sábio tibetano que diz
"se você somente recitar o mala (rosário
budista), talvez não consiga por fim às
emoções aflitivas. Mas certamente você
acabará por gastar suas unhas".
O mesmo gesto repetitivo pode ser usado tanto
para recitar as contas de um mala ou para
contar dinheiro. E o mala pode ser usado até
como punição, como faziam alguns professores
muito rígidos no Tibete, que usavam o mala
para golpear os alunos. Por isso, lembrem-se: o
tempo é um fator muito importante.
OS DOIS TIPOS DE MEDITAÇÃO
A meditação tem duas formas: a analítica e a unidirecional
(voltada para só um ponto).
A analítica se volta para a análise, que é algo
que fazemos constantemente.
A unidirecional,
por sua vez, tem dois tipos: um em que, após
uma longa meditação analítica e quando se
chega a uma conclusão se deixa a mente
repousar sobre essa conclusão. A outra forma é
a aquela em que a pessoa que medita dedica-se
a colocar a mente centrada em um objeto, sem
fazer nenhuma análise.
A efetividade da meditação analítica é muito
maior. Porque ela traz a convicção, a
determinação de fazer esforços de mudança.
Portanto, é muito mais poderosa.
Em qualquer tipo de meditação, é importante
mencionar alguns pontos relevantes. O primeiro
deles é a lembrança. Durante a meditação,
devemos constantemente nos lembrar do
objeto da meditação. O segundo ponto é a
consciência. Você tem que se manter vigilante e
ciente do que está acontecendo com a mente,
se está entorpecida, se está nublada, se está
excitada. E constantemente você aplica
medidas de correção apropriadas.
Para se adotar uma prática séria de meditação,
é preciso estar consciente das deficiências e
problemas que podem aparecer. Esses
problemas são basicamente a excitação
excessiva e o entorpecimento da mente.
AS ARMADILHAS
Porém, mesmo que tenha
consciência da necessidade de lidar com esses
fatores, como o entorpecimento da mente, e
mesmo que tenha sucesso ao lidar com eles,
pode acontecer um outro problema. Você pode
saber lidar com o entorpecimento, saber como
controlá-lo, mas pode se tornar apenas um
meditador que "sabe como lidar com o
entorpecimento", e seu objeto de meditação
passa a ser "como lidar com o
entorpecimento". Pode ocorrer de uma pessoa
que está fazendo uma meditação sobre
compaixão se tornar apenas um especialista em
controle do entorpecimento.
A meditação unidirecional tem a função de
tornar nossa mente mais aguda, o que é bom,
independente da atividade que exercemos. Uma
meditação unidirecional pela manhã é muito
proveitosa.
Há dois tipos de meditação: quando vamos
fazer uma meditação sobre a fé, ou compaixão,
esse não é o objeto da meditação, mas sim o
resultado que se pretende obter. Portanto,
vamos fazer uma meditação cujo resultado é
gerar a fé ou compaixão.
Por outro lado, se vamos fazer uma meditação
sobre impermanência, não pretendemos
transformar a mente em impermanência, e sim
ter uma maior familiaridade com esse objeto de
meditação.
O PROCESSO DE MUDANÇA É LENTO
Quando
vivemos o processo de transformação da
mente, sabemos que ele levará tempo, e que
não é possível uma transformação súbita. Se
estiver meditando, por exemplo, na
impermanência e qual o seu sentido, a
compreensão virá aos poucos.
Assim, por exemplo, inicialmente você verá um
objeto como permanente e imutável, mas
considerará que talvez essa seja uma
consciência errada. Posteriormente, será capaz
de ficar em dúvida, e se perguntará se é
impermanente ou permanente? Ao ponderar
entre ambas as possibilidades, concluirá que é
permanente.
Depois, e com a prática, chegará a um segundo
tipo de dúvida, a dúvida que pode ser chamada
de "equalitária", quando a mente pensará que é
tanto permanente como impermanente.
Mais à frente, chegará à noção de que pode ser
realmente impermanente. Depois,
gradualmente, chegará à conclusão de que é
impermanente. Essa certeza, entretanto, será
conceitual, baseada na lógica. Só
posteriormente é que irá chegar a noção pura,
sem conceitos, da impermanência do objeto.
(Continua: As mudanças são possíveis)
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FONTE DOS TEXTOS
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