VALORES HUMANOS
E SUA PRÁTICA NA
NA VIDA COTIDIANA - 2
TARDE DE 5 DE ABRIL DE 1999: A RAIVA E SEUS ANTÍDOTOS
Durante a manhã falamos sobre compaixão e
como desenvolvê-la. E, naturalmente, os seres
humanos trazem em si a semente da
compaixão. Quando vemos nossos irmãos e
irmãs sofrendo, sentimos por eles, nos
sentimos mal.
Alguns dizem que a natureza básica do ser
humano é agressiva, outros dizem que é gentil.
Ambos têm certo grau de razão, mas entendo
que a natureza básica do ser humano é gentil,
porque todo mundo quer alegria, não
sofrimento.
A IMPORTÂNCIA DO AMOR
E DA TRANQÜILIDADE
Quando no ventre da mãe, antes de nascer, o
estado tranqüilo da mãe é vital para a saúde da
criança. Depois de algumas semanas de
nascimento, o toque físico na criança é vital
para o desenvolvimento adequado da mente.
Portanto, durante esse período — e aqui não se
está falando de religião e fé — a gentileza e a
bondade são vitais para a criança.
Depois, quando se trata de educar uma criança,
aquelas que têm uma atmosfera gentil, de
apoio, aprendem e se desenvolvem mais; as
que não recebem afeto humano se
desenvolvem menos. Isso mostra claramente a
necessidade do amor, e de uma atmosfera
afetiva.
A compaixão, o cuidado gentil, são qualidades
predominantes em seres humanos. Também
vemos seres humanos se expressando de
modo violento, mas isso se deve ao mau uso
da inteligência e ao desejo — que terminam por
gerar estados mentais nada agradáveis. E esses
não são aspectos mentais de nossa natureza
básica.
Usualmente vemos no jornal, rádio, televisão
atrocidades, atos negativos, e a partir disso
concluímos que a natureza humana é negativa.
E nos perguntamos por que essas coisas
negativas se tornam usuais. Essa nossa reação
mostra que atividades como a compaixão e o
cuidado são naturais. Por isso os tomamos por
habituais. O crime, o assassinato, as ações
violentas são um pouco fora da natureza
humana, e por isso são notícia. Na sociedade
humana, as atividades de ajuda e compaixão
são predominantes — e por o serem, não são
notícia.
Se analisamos de perto as atividades humanas,
veremos que a parte dominante das atividades
humanas são as compassivas e generosas, não
as agressivas. Nesta manhã vimos que a raiva e
ódio são coisas que fazem mal a nossa saúde.
O nosso corpo sente-se bem com emoções
positivas, e sofre com as negativas.
COMO CHEGAR À NÃO-VIOLÊNCIA
Para enfrentar a
raiva, o ódio, o ciúme e as demais emoções
negativas, temos que analisar o que são e de
que forma agir em relação a eles. Hoje em dia é
muito comum se falar sobre paz e não violência
como uma coisa positiva. Mas qual é a linha que
separa a violência da não violência? A
verdadeira linha que as separa é a motivação e
a resolução.
Para que se possa promover a não violência,
temos que cultivar a compaixão, o senso de
cuidado com os outros. Temos que controlar
nossas emoções negativas. E se nós tentarmos
suprimir essas emoções à força, não
conseguiremos.
O controle está ligado a conhecer, analisar
essas emoções e, com base nessa análise,
escolher um caminho diferente. Se você tem o
objetivo de ser uma pessoa com potencial de
ajudar os outros, será necessário ter uma
atitude perante um dos fatores que mais
bloqueiam nossa ação positiva nesse sentido: a
raiva e o ódio. Terá que ter uma atitude capaz
de lidar com esses sentimentos. E o antídoto
mais eficaz contra eles é a paciência.
OS MALEFÍCIOS DA RAIVA
Que benefício a raiva
pode trazer? Às vezes pensamos que ela vem
em nosso socorro: em uma situação trágica, a
raiva parece nos dar mais coragem e energia.
Sob essa perspectiva, seria algo que nos
ajudaria a superar uma situação difícil.
Mas a energia que vem da raiva é cega, não
tem nenhuma sabedoria, e traz o potencial de
fazer com que você se auto-destrua. A raiva
bloqueia nossa capacidade de discernimento, e
cega nossa inteligência.
Por exemplo: às vezes perdemos a cabeça e
dizemos palavras absurdas, depois nos
sentimos envergonhados, temos vergonha do
que dissemos, de nossas palavras impensadas.
No momento em que a raiva tomou conta,
perdemos a capacidade de pensar e de
discernir.
A raiva também não faz bem a nossa saúde.
Algumas vezes, quando queremos atingir um
inimigo, deixamos a raiva nos guiar. Não é certo
que conseguiremos atingir o inimigo, mas uma
coisa é certa: prejudicaremos a nós mesmos.
Se temos um inimigo que resolve nos perturbar,
quando reagimos estamos deixando que a
situação continue a se desenvolver. E, mesmo
depois que terminou, continuamos a sentir raiva
— deixando que a situação nos perturbe
mesmo depois de terminada. Se, no entanto,
temos paciência, a situação irá acabar por si
mesma.
A raiva causa dor de estômago, mal estar, em
nós. E o inimigo pode até se regozijar com isso.
Temos que tomar atitudes de uma maneira
pensada, sem perder a paz de espírito. Aqueles
que tem alguma prática de compaixão e
tolerância conseguem fazê-lo muito bem.
Dos vários monges tibetanos que estiveram em
prisões chinesas, alguns por muito tempo, os
que conseguiram atravessar essa situação de
forma menos traumática foram os que mais
cultivavam uma atitude compassiva.
Todos eles passaram por tortura física, mas os
mais compassivos sofreram muito menos com
a tortura. Um monge que ficou 18 anos em
uma prisão, em uma ocasião em que
conversávamos, me falava sobre a vida na
prisão. Ele me disse que em algumas ocasiões
esteve em grande perigo. E eu perguntei: "que
tipo de perigo"? Ele me respondeu: "perigo de
perder a compaixão pelos chineses". Isso
mostra o quanto a paciência e a tolerância são
importantes. Elas não são fraquezas, e sim um
sinal de fortaleza interior.
Se você pratica a compaixão, eventualmente
você pode até desenvolver algum grau de
gratidão pelo seu inimigo, porque só através da
prática da tolerância e paciência se manifesta a
compaixão.
E para praticar a paciência e a tolerância você
tem que enfrentar situações difíceis. Como
praticar tolerância diante de um Buda? Para
aprender tolerância e paciência temos que
exercê-las. Portanto, o inimigo é o seu mestre,
e o ajuda a desenvolver essas qualidades.
Algumas vezes temos a noção de que a prática
da paciência e tolerância significa nos curvarmos
diante dos outros, mas não é isso. Estou
falando de não deixarmos a raiva nos dominar,
não de submissão.
COMO LIDAR COM A RAIVA
Como lidar com a
raiva? Há diferentes tipos e níveis de raiva.
Algumas são mais razoáveis, como a raiva
motivada pela compaixão — ela pode nos levar
a ficar irados com uma pessoa, e há razão para
isso. Há no entanto outros tipos de raiva que
não têm uma base na realidade. Surgem na
mente como uma projeção de um estado
mental negativo.
Há também diferentes graus de intensidade.
Algumas raivas são mais intensas, outras
menos. Dependendo do grau e do tipo, se
adotam medidas diferentes.
Quando a raiva é mais branda, ao percebermos
que está para vir, devemos lembrar o caráter
perturbador dela, e então seremos capazes de
controlá-la. No caso de uma raiva muito
violenta, é muito difícil pensar em medidas
preventivas como no caso de uma raiva mais
branda. Então o melhor é neutralizá-la
pensando em outros assuntos, para ao menos
não deixá-la tomar conta. E, à medida que nos
tornamos mais habilidosos, podemos adotar
diferentes tipos de contra-ação.
Um outro tipo de prática é destinado à raiva que
nos é causada por desastres naturais, tragédias.
Então temos que olhar o problema de diferentes
ângulos.
No meu caso, em que perdi meu país, vejo que
isso trouxe uma oportunidade de encontrar
muita gente e repartir experiências. Qualquer
evento tem dois aspectos. Algo que parece
muito ruim quando se está com raiva, pode ter
aspectos benéficos.
Outro método é tentar olhar os eventos à
distância. Vistos dessa nova perspectiva, os
problemas ficam menores. Se olhamos muito
de perto, parecem incontroláveis. Devo pensar
"esse não é somente o meu caso, mas há
muitos outros". Isso coloca as coisas em
perspectiva.
Quando se tenta perceber as coisas de uma
perspectiva mais ampla, se vê de forma
diferente. Então, se abre um novo espaço para
um novo sentimento, uma nova atitude. Isso
revela a importância do estado mental.
Para se desenvolver a compaixão inamovível e
sem preconceitos, é fundamental ter uma
atitude correta frente aos inimigos. Assim, os
budistas adotam a seguinte estratégia para
desenvolver a compaixão sem preconceitos:
Recuam.
Recue você também. Recue da proximidade dos
sentimentos, da proximidade dos amigos e da
distância dos inimigos. Adote a equanimidade. O
apego aos amigos e o desagrado dos inimigos
são um entrave.
Quando se olha com equanimidade, vemos que
todos os seres querem a felicidade, querem se
livrar do sofrimento. E quando percebemos isso,
podemos chegar à compaixão.
(Continua: A natureza e o treinamento da
mente)
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FONTE DOS TEXTOS
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