VALORES HUMANOS E SUA PRÁTICA NA
NA VIDA COTIDIANA - 1
MANHÃ DE 5 DE ABRIL DE 1999: INVESTIGAR COMO SER FELIZ
QUAL É O PROPÓSITO DA VIDA
O propósito da vida é a felicidade. Acredito que em nossas
vidas não há garantia de um futuro, mas
sempre esperamos algo de bom. Isso é o que
nos sustenta e nos dá alento. Assim, o foco
básico de nossas vidas é poder viver a felicidade
— e todos os seres sencientes buscam a
felicidade, não é apenas o ser humano. Todos
os seres têm o direito de sobrepujar o
sofrimento e achar a felicidade.
DOIS NÍVEIS DE SOFRIMENTO
Há dois níveis de sofrimento e prazer. Um é ligado aos sentidos,
e o outro ligado ao plano mental. O nível ligado
aos sentidos também está presente nos
animais. Ele representa o medo e a busca do
prazer imediato, pois é uma visão de curto
prazo: vemos algo agradável, ficamos bem.
Temos uma experiência desagradável, ficamos
mal. Nesse nível, há uma resposta imediata,
mas sem pensar, sem análise.
Já no nível mental funciona um processo de
análise, de raciocínio. Então, através do
pensamento, percebemos que algo que parece
bom a curto prazo, pode ser ruim a longo prazo
e vice-versa.
SUPERIORIDADE DO NÍVEL MENTAL
As várias
facilidades materiais que nos são oferecidas pelo
mundo atual são muito benéficas. Mas esses
confortos, basicamente, não nos trazem a
felicidade. Quando há uma circunstância
agradável ligada a objetos materiais, isso traz
uma sensação de prazer, mas simultaneamente
a mente pode não estar tranqüila. E esse prazer
não terá o poder de acalmar a mente.
Por outro lado, se, por exemplo, uma pessoa
está tranqüila no nível mental, pode sobrepujar
as ocorrências do nível material. Porque a
experiência no nível mental é mais forte do que
a do nível material. E o contrário não é
verdadeiro.
Uma pessoa vê um sofrimento físico como algo
com sentido, algo que significa um resgate, uma
experiência, uma aprendizado. Outra pessoa vê
apenas sofrimento na mesma situação. Isso
gera duas experiências totalmente diferentes.
Assim, a questão central é: você quer
sofrimento ou prazer? Quer felicidade? Então,
terá que analisar a realidade, e verá que o
desenvolvimento material é importante, mas
que o desenvolvimento espiritual é o
fundamental para o bem estar.
O desenvolvimento, o conforto material é útil,
mas é uma satisfação menor face ao
desenvolvimento da espiritualidade.
ESPIRITUALIDADE
Quando digo espiritualidade
não me refiro necessariamente a uma religião.
Há dois níveis de espiritualidade: um com fé
religiosa, outro sem fé religiosa. Vou centrar
este seminário na espiritualidade não religiosa.
Nós, seres humanos, temos o dom único do
raciocínio. É dentro desse contexto que é
importante treinar a mente. E, para treiná-la, é
importante saber, primeiro, como ela opera.
Quando falo em mente, não me refiro à mente
física, mas ao conjunto de idéias, emoções etc.
Para que se treine esse conjunto, é preciso
saber que tipo de pensamento é benéfico e
quais são os pensamentos negativos.
A divisão entre negativo e positivo tem que ter
se basear em algum fator. Portanto, vamos
definir pensamentos benéficos, alegres, como
positivos, e pensamentos dolorosos, infelizes,
como negativos. E o que queremos com o
treinamento da mente é incrementar os
pensamentos positivos.
No mundo natural, distinguimos o que é positivo
do que é negativo, e fugimos do negativo,
buscando o positivo. O mesmo acontece no
nível mental, onde temos que procurar o
positivo, e fugir do negativo.
Isso será muito útil para mente, pois temos
uma mente brilhante, que pode ser treinada,
que pode aprender. Temos a incrível capacidade
de treinar a mente para ser usada
adequadamente, e adotar atitudes corretas
para se ter uma vida feliz.
Considerando a minha própria experiência,
posso dizer que se pode modelar a mente,
pode-se mudar de atitude. E, se tivermos uma
atitude mental correta, mesmo em meio a
situações ruins e negativas em nosso ambiente
poderemos ser felizes. Mas se a mente estiver
perturbada, negativa, então pode se estar no
melhor ambiente, em meio a bons amigos, com
dinheiro, com tudo para ser feliz e se continuar
a ser infeliz.
Sabem, quando eu era jovem tinha um péssimo
gênio, que herdei do meu pai. Então, tive que
aprender, tive que analisar qual era a utilidade
desse mau gênio e avaliar, de um lado oposto,
qual era a utilidade e a função da compaixão.
Quando se analisam os dois lados, se vê que as
nossas emoções negativas são prejudiciais e
geram infelicidade, e que as emoções positivas
como compaixão nos trazem felicidade e geral
tranqüilidade.
Então, após essa análise, mudei minha atitude,
meu estado mental. É claro que algumas vezes
o mau humor volta, mas mudei muito, todos
vocês podem fazer isso, podem melhorar
muito, porque todos temos exatamente o
mesmo potencial.
A FUNÇÃO DO AMOR E DA COMPAIXÃO
Gostaria
de explicar qual é a importância do amor e da
compaixão. É importante saber o que é
compaixão, algumas vezes pensamos que é
pena, mas isso não é compaixão. Compaixão é
o senso de preocupação, mas mais do que isso,
é a noção clara de que todos os seres têm
exatamente o mesmo direito à felicidade. Essa
compreensão é que nos traz a compaixão.
Também um outro aspecto que costuma ser
confundido com compaixão é a sensação de
proximidade, de ligação que temos com amigos
e parentes. Mas isso não é compaixão
verdadeira, porque esse sentimento está ligado
ao apego.
Muitas vezes, nosso senso de preocupação
com o outro depende da atitude que ele adota.
Se a pessoa age de forma negativa, nosso
senso de compaixão desaparece. Mas um
senso de compaixão verdadeiro é o que nos
leva a ver o outro como tendo exatamente o
mesmo direito que eu à felicidade. A compaixão
que se assenta no apego não se sustenta. A
que se baseia na compreensão da igualdade de
todos os seres é desprovida de apego, e é
verdadeira.
Qual é o benefício da compaixão? Ela nos traz
força interior. Geralmente, temos um senso de
"eu, eu, eu". E nossa mente centra tudo em nós
mesmos. Então, todas as experiências
negativas, mesmo pequenas, se tornam muito
dolorosas, enormes. Mas quando pensamos
nos outros, nossa mente se amplia, e os
nossos pequenos problemas se tornam
realmente pequenos, e as coisas negativas não
prejudicam nossa mente.
Alguns, quando experimentam tragédias que
são involuntárias, se sentem enterrados em
uma montanha de sofrimento. Mas, por outro
lado, quando se pensa voluntariamente nos
problemas dos outros, se procura aliviá-los de
seus sofrimentos, essa atitude voluntária traz
uma abertura para o ser. Dessa maneira,
mesmo em meio a problemas pessoais, isso
traz uma base de clareza, e a pessoa será
capaz de se sustentar.
COMPAIXÃO E BEM-ESTAR
Quando se pensa
em compaixão por outras pessoas, alguns
perguntam se isso não seria sinônimo de
auto-sacrifício. Não, não é. Porque não se deve
ser negligente em relação a si mesmo. E,
baseado na minha própria experiência, acredito
que se deve ser compassivo em benefício
próprio.
Um exemplo: uma vida feliz precisa de amigos,
apoio. Há amigos do dinheiro, amigos do poder,
mas para esses indivíduos, se o dinheiro acaba
ou o poder se vai, a amizade também acaba.
Mas os amigos verdadeiros ficam.
Então, como criar amigos verdadeiros? Se você
tiver um sentimento de compaixão, terá mais
amigos verdadeiros. Mostre sentimentos gentis
e sorria, e terá bons amigos. Porque essa
atmosfera pacífica será a sua base, que irá criar
as condições para a amizade.
A prática de compaixão também é
imensamente benéfica para a saúde. De acordo
com a medicina, os que tem mais compaixão,
são mais interessados pelos outros, geralmente
são mais saudáveis quando comparados com
pessoas egoístas. Os egoístas sofrem mais
freqüentemente de enfartes e outras doenças.
A mente mais egoísta, mais voltada para si
mesma é muito ruim para a saúde. A mente
mais compassiva, mais voltada para o próximo
traz mais tranqüilidade, resultando por isso em
saúde muito melhor.
Vejamos a sociedade atual, em que a
criminalidade está crescendo, ligada à
problemas econômicos e sociais, como a
diferença entre ricos e pobres (inclusive entre
países ricos e pobres). No nosso sistema
educacional, muita atenção é dada ao
desenvolvimento do intelecto, e menor atenção
é dada ao coração, aos sentimentos. Pois isso é
considerado tarefa da religião. E assim as
crianças não recebem nenhuma orientação
sobre como serem mais compassivas, e
desenvolver um coração mais generoso. Mas a
compaixão é tão importante para a sociedade
que é incentivada por todas as religiões.
AS RELIGIÕES E A COMPAIXÃO
Por causa das
diferenças filosóficas entre as grandes religiões
existem diferentes técnicas para desenvolver a
compaixão e algumas diferenças da definição do
que seja. Mas basicamente todas elas falam da
necessidade de se cultivar a compaixão.
Portanto, sinto que mesmo neste século, as
maiores tradições religiosas têm um papel
importante no desenvolvimento dessas
qualidades. Vejo aqui pessoas de diferentes
tradições religiosas, o que me faz sentir feliz,
porque a tolerância religiosa é muito
importante. E acredito que, independente de
diferentes tradições religiosas, todos temos o
potencial de ajudar a humanidade.
Vim do Oriente e sou um monge budista, assim,
naturalmente, quando falo desses valores e do
treinamento da mente, o faço da minha
perspectiva de monge budista. Mas é claro que
não quero influenciá-los. Vocês devem manter
suas tradições religiosas, mudar de religião não
é bom, pode gerar mais confusão do que
benefício.
Portanto, mantenham e sigam sua fé.
Cada uma das grandes religiões tem coisas
únicas, mas também há muita coisa em comum
entre elas. Assim, é sábio usar técnicas úteis de
outras religiões, mesmo sem mudar de religião.
Até para aplicá-las na própria religião. Com isso,
as tradições religiosas diferentes desenvolvem
respeito mútuo e compreensão. Isso é
fundamental.
A compaixão e a bondade são indispensáveis.
Sem esses valores não há felicidade. Mas
muitos crêem que a prática de valores como a
compaixão, o perdão e o amor são relevantes
apenas para os que praticam uma religião. Isso
não é verdadeiro. Podemos ver que no passado
e presente existiram pessoas que mesmo sem
nenhuma fé religiosa tinham esse sentimento de
cometimento, de responsabilidade, de
compaixão pelo próximo. Essas pessoas se
tornaram mais felizes, mais úteis, mais
benéficas para a sociedade.
A UNIVERSALIDADE DA COMPAIXÃO
Podemos
questionar se o valor da compaixão, de um
coração compassivo é universal. Eu acredito
que todos os seres humanos têm o mesmo
potencial. Basicamente, o ser humano é voltado
para a vida e comunidade. Assim, a semente da
compaixão está lá, a semente do trabalho em
conjunto está lá. É da natureza humana
trabalhar em conjunto. O individualista não pode
sobreviver.
As abelhas também são animais sociais. Não há
polícia, não há um estado, no entanto
trabalham em conjunto. Uma abelha não pode
ser individualista. Mas, diferentemente dos
outros animais sociais, o ser humano tem a
capacidade de se votar ao altruísmo ilimitado.
Temos a semente da compaixão dentro de nós.
Todos nós.
Quando vemos os benefícios de uma mente
compassiva, e o mal de uma mente não
compassiva, é fácil ver a diferença. Então,
voluntariamente iremos analisar cada vez mais,
mudar cada vez mais a nossa atitude. E assim,
dia após dia, mudamos.
O treinamento da mente não pode ser imposto
a ninguém. É preciso que nós mesmos vejamos
os benefícios. Pense sobre o que o ódio traz
para sua vida, para sua saúde, para as pessoas
que estão à sua volta. Pense sobre a
compaixão e o que traz. E assim, teremos o
ímpeto de cultivar certos valores, e rejeitar
outros.
Dessa maneira crescemos a cada dia, mas se
não fazemos nada para reduzir nosso ódio e
cultivar a compaixão tudo ficará como está, a
semente nunca irá germinar.
Normalmente nossos problemas nascem de
percebermos apenas o nível das aparências, e
não a realidade. Ficamos no nível das
aparências, e com base nelas fazemos o nosso
julgamento. Também nos concentramos na
felicidade de curto prazo, e não na de longo
prazo.
(Continua: A raiva e seus antídotos)
Observação do administrador do site: a palavra senciente (não se deve escrever "sensiente"), presente em muitas das páginas sobre o Dalai Lama, é encontrável freqüentemente em textos budistas e significa "que sente ou tem sensações; sensível". Deriva do termo latino sentiente.
Pensamentos do 14o Dalai Lama
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Um Conceito Budista de Natureza
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FONTE DOS TEXTOS
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