O DALAI LAMA: DISCURSO EM OSLO
A DIFÍCIL SITUAÇÃO
DO POVO DO TIBETE
É uma honra e um prazer estar com vocês
hoje. Estou realmente feliz por ver tantos
amigos que vieram de diferentes cantos do
mundo e de fazer novos amigos, a quem
espero encontrar novamente no futuro. Quando
encontro pessoas em locais diferentes do
mundo, me lembro sempre de que somos
basicamente parecidos: somos todos seres
humanos. Talvez usemos roupas diferentes, a
nossa pele tenha uma coloração diferente, ou
falemos línguas diferentes. Isso é só na
superfície. Basicamente, somos os mesmos
seres humanos. É isso que nos liga uns aos
outros. É isso que torna possível para nós nos
compreendermos e desenvolvermos amizade e
intimidade.
Pensando no que deveria falar hoje, decidi
partilhar com vocês algumas das minhas idéias
sobre problemas comuns que todos nós
enfrentamos como membros da família
humana. Como todos partilhamos este
pequeno planeta Terra, temos que aprender a
viver em harmonia e em paz uns com os outros
e com a natureza. Isso não é um sonho, mas
uma necessidade. Dependemos uns dos outros
de tantas maneiras que não mais conseguimos
viver em comunidades isoladas e ignorar o que
está acontecendo fora delas. Temos que nos
ajudar quando enfrentamos dificuldades e
precisamos partilhar a boa sorte que temos.
Falo a vocês apenas como outro ser humano,
um simples monge. Se acharem útil o que eu
digo, então espero que tentem praticar.
Gostaria também de partilhar hoje com vocês
os meus sentimentos quanto à difícil situação e
às aspirações do povo do Tibete. O Prêmio Nobel
é um prêmio que eles bem merecem pela sua
coragem e determinação inabalável durante os
últimos quarenta anos de ocupação estrangeira.
Como um representante livre dos meus
compatriotas cativos, sinto que é meu dever
falar em nome deles. Não falo com um
sentimento de raiva ou ódio contra aqueles que
são os responsáveis pelos imensos sofrimentos
do nosso povo e pela destruição de nossa terra,
das nossas casas e da nossa cultura. Eles
também são seres humanos que lutam para
encontrar a felicidade e merecem a nossa
compaixão. Falo para informá-los da triste
situação atual do meu país e das aspirações do
meu povo porque, em nossa luta pela liberdade,
a verdade é a única arma que possuímos.
A compreensão de que somos todos
basicamente os mesmos seres humanos, que
buscam a felicidade e tentam evitar o
sofrimento, ajuda bastante no desenvolvimento
de um sentido de irmandade — uma sensação
cálida de amor e compaixão pelos outros. Isto,
por sua vez, é essencial se temos que
sobreviver neste mundo cada vez menor em
que nos encontramos. Pois, se de forma
egoísta, buscamos somente aquilo que
acreditamos ser do nosso interesse individual,
sem nos preocuparmos com as necessidades
dos outros, poderemos terminar não só por
prejudicá-los como também a nós mesmos.
Esse fato ficou claro durante o desenrolar deste
século. Sabemos atualmente que deflagrar uma
guerra nuclear, por exemplo, seria uma forma
de suicídio, ou que poluir o ar ou os oceanos
para conseguir algum benefício em curto prazo
seria destruir a base do nosso próprio sustento.
Quando indivíduos e nações estão se tornando
cada vez mais interdependentes, não temos
outra escolha senão desenvolver o que chamo
de um sentido de responsabilidade universal.
Hoje, somos verdadeiramente uma família
global. Aquilo que acontece numa parte do
mundo pode afetar todos nós. Isto,
naturalmente, não é verdade somente quanto
às coisas negativas que acontecem, mas é
igualmente válido para os desenvolvimentos
positivos. Não apenas sabemos o que acontece
em outros lugares, graças à extraordinária
tecnologia das comunicações modernas, como
somos diretamente afetados por eventos que
ocorrem em locais distantes.
Sentimos uma sensação de tristeza quando crianças definham
na África oriental. Da mesma maneira, sentimos
alegria quando uma família, após décadas de
separação pelo Muro de Berlim, volta a se
reunir. Nossos grãos e rebanhos são
contaminados e a nossa saúde e a nossa vida
ficam ameaçadas quando ocorre um acidente
nuclear a milhas de distância em outro país.
Nossa própria segurança aumenta quando a paz
prevalece entre partidos em guerra em outro
continente.
Mas a guerra ou a paz, a destruição ou a
proteção da natureza, a violação ou a
promoção dos direitos humanos e da liberdade
democrática, a pobreza ou o bem estar
material, a falta de moral e de valores espirituais
ou a sua existência e aprimoramento e o
colapso ou o desenvolvimento da compreensão
humana não são fenômenos isolados que
podem ser analisados e tratados
independentemente um do outro. Na verdade,
eles estão muito interligados em todos os níveis
e precisam ser abordados por meio dessa
compreensão.
A paz, no sentido de ausência de guerra, tem
pouco valor para alguém que está morrendo de
fome ou frio. Ela não removerá a dor da tortura
infligida a um prisioneiro da consciência. Não
confortará aqueles que perderam os seus entes
queridos em inundações causadas pelo
desflorestamento despropositado num país
vizinho. A paz pode perdurar apenas onde os
direitos humanos são respeitados, onde as
pessoas estão alimentadas e onde os indivíduos
e as nações são livres. A verdadeira paz dentro
de nós e no mundo à nossa volta somente
poderá ser atingida por meio do
desenvolvimento da paz mental. Os outros
fenômenos estão interligados de modo similar.
Assim, por exemplo, vemos que um ambiente
bem cuidado e a riqueza ou a democracia
pouco significam em face da guerra,
especialmente a nuclear, e no desenvolvimento
material não é suficiente para assegurar a
felicidade humana.
O progresso material é naturalmente
importante para o progresso humano. No Tibete,
demos muito pouca atenção ao avanço
tecnológico e econômico, e atualmente
compreendemos que isso foi um erro. Ao
mesmo tempo, o desenvolvimento material
sem o desenvolvimento espiritual pode também
causar problemas sérios. Em alguns países,
presta-se atenção demais às coisas externas e
dá-se muito pouca importância ao crescimento
interior. Acredito que ambos são importantes e
devem ser desenvolvidos lado a lado para que
se consiga um bom equilíbrio entre eles.
Os
tibetanos são sempre descritos pelos visitantes
estrangeiros como um povo feliz e jovial. Isso é
parte do nosso caráter nacional, formado pelos
valores culturais e religiosos que enfatizam a
importância da paz mental obtida com a
geração de amor e de benevolência para todos
os outros seres vivos sencientes, tanto
humanos quanto animais. A paz interior é a
chave: se vocês tiverem paz interior, os
problemas externos não afetarão o seu sentido
profundo de paz e de tranqüilidade. Nesse
estado mental vocês poderão lidar com as
situações com calma e racionalidade enquanto
mantêm a sua felicidade interior. Isso é muito
importante. Sem a paz interior, mesmo que a
sua vida seja materialmente confortável, vocês
permanecerão aborrecidos, preocupados ou
infelizes devido às circunstâncias.
Portanto, fica clara a grande importância de se
compreender o inter-relacionamento entre
esses e outros fenômenos e de se abordar os
problemas e tentar resolvê-los de modo
equilibrado, levando em consideração esses
diferentes aspectos. Naturalmente não é fácil.
Mas há pouco benefício na tentativa de
solucionar um problemas criando outro
igualmente sério. De fato, não temos
alternativa: precisamos desenvolver um sentido
de responsabilidade universal não somente do
ponto de vista geográfico, mas também em
relação a várias questões com que se confronta
o nosso planeta.
A responsabilidade não está unicamente com os
líderes dos nossos países ou com aqueles que
foram apontados ou eleitos para um
determinado trabalho. Está individualmente em
cada um de nós. A paz, por exemplo, começa
dentro de cada um de nós. Quando temos a
paz interior, podemos estar em paz com os que
estão à nossa volta. Quando a nossa
comunidade está num estado de paz, ela pode
partilhar essa paz com as comunidades
vizinhas, e assim por diante. Quando sentimos
amor e benevolência para com os outros, isso
não faz apenas com que eles se sintam amados
e respeitados, mas nos ajuda a desenvolver
felicidade e paz interiores.
E existem maneiras
com as quais podemos conscientemente
trabalhar para desenvolver os sentimentos de
amor e de benevolência. Para alguns de nós, o
modo mais eficaz de fazer isso é por meio da
prática religiosa. Para outros, podem ser as
práticas não religiosas. O que importa é cada
um de nós fazer um esforço sincero para
assumir seriamente a sua responsabilidade pelo
outro e pelo ambiente natural.
Sinto-me encorajado pelos avanços que estão
ocorrendo à nossa volta. Depois que os jovens
de vários países, particularmente do norte da
Europa, pediram repetidamente o fim da
perigosa destruição ambiental que estava sendo
feita em nome do desenvolvimento econômico,
os líderes políticos do mundo começam agora a
tomar medidas significativas para resolver este
problema. O parecer da Comissão Mundial para
o Ambiente e Desenvolvimento enviado para a
Secretaria Geral das Nações Unidas (o relatório
Brundtland) foi um passo importante para
instruir os governos a respeito da urgência
desse assunto.
Esforços sérios para trazer paz
para zonas de guerra e para implementar o
direito da autodeterminação de alguns povos
resultaram na retirada das tropas soviéticas do
Afeganistão e no estabelecimento da
independência da Namíbia. Esforços populares
pacíficos e persistentes promoveram mudanças
dramáticas em diferentes lugares, aproximando
vários países da verdadeira democracia, de
Manila, das Filipinas, a Berlim, na Alemanha
Oriental. Com a era da Guerra Fria a
aparentemente chegando ao fim, pessoas em
todas as partes vivem com uma esperança
renovada. Infelizmente, os esforços corajosos
do povo chinês para estabelecer uma mudança
similar no seu país foram brutalmente
esmagados no último mês de junho. Mas os
seus esforços também são uma fonte de
esperança. Os militares não extinguiram o
desejo de liberdade e a determinação do povo
chinês de atingi-la. Admiro particularmente o
fato de esses jovens, que foram ensinados que
"o poder cresce no cano do revólver", terem
escolhido, de modo inverso, usar a
não-violência como arma.
O que essas mudanças positivas indicam é que
a razão, a coragem, a determinação e um
desejo inextinguível de liberdade podem
finalmente vencer. Na luta entre as forças da
guerra, a violência e a opressão de um lado, e a
paz, a razão e a liberdade do outro, este último
está levando vantagem. Tal compreensão
enche a nós, tibetanos, com a esperança de
que algum dia nós também seremos
novamente livres.
O fato de ter recebido o Premio Nobel, eu, um
simples monge do distante Tibete, aqui na
Noruega, também nos enche a nós, tibetanos,
de esperança. Significa que, apesar do fato de
não termos chamado a atenção para a nossa
situação difícil por meio da violência, não fomos
esquecidos. Significa também que os valores
que nutrimos, em particular o nosso respeito
por todas as formas de vida e de crença no
poder da verdade, são hoje reconhecidos e
encorajados. É também um tributo ao meu
mentor, Mahatma Gandhi, cujo exemplo é uma
inspiração para muitos de nós.
O prêmio deste
ano é uma indicação de que esse sentido de
responsabilidade universal está se
desenvolvendo. Estou profundamente tocado
pela preocupação sincera mostrada por várias
pessoas no Tibete. Isso é uma fonte de
esperança não somente para nós, tibetanos,
mas para todos os povos oprimidos.
Como vocês sabem, o Tibete está, há quarenta
anos, sob ocupação estrangeira. Atualmente,
mais de quatro de milhão de tropas chinesas
mantêm bases no Tibete. Algumas fontes
estimam que o exército de ocupação tenha
duas vezes essa força. Durante esse tempo, os
tibetanos têm sido privados de seus direitos
humanos mais básicos, incluindo o direito à
vida, o direito de ir e vir, o direito de expressão
e o direito religioso, para mencionar apenas
alguns. Mais de um sexto dos seis milhões de
habitantes do Tibete morreu como resultado
direto da invasão e ocupação chinesas. Mesmo
antes do início da Revolução Cultural, vários
monastérios, templos e construções históricas
tibetanas foram destruídos. Quase tudo que
restou foi devastado durante a Revolução
Cultural. Não desejo alongar-me nesse ponto,
pois tudo está bem documentado. Contudo, é
importante compreender que, apesar da
liberdade limitada garantida após 1979 para a
reconstrução de partes de alguns monastérios e
de outros símbolos da liberalização, os direitos
humanos fundamentais do povo tibetano são
sistematicamente violados até hoje. Nos
últimos meses, essa difícil situação tornou-se
ainda pior.
Se não fosse pela nossa comunidade no exílio,
tão generosamente abrigada e sustentada pelo
governo e pelo povo da Índia e ajudada por
organizações e indivíduos de várias partes do
mundo, a nossa nação hoje seria um pouco
mais do que a reminiscência destroçada de um
povo. A nossa cultura, religião e identidade
nacionais teriam sido definitivamente eliminadas.
Na posição atual, construímos escolas e
monastérios no exílio e criamos instituições
democráticas para servir o nosso povo e
preservar as sementes da nossa civilização.
Com essa experiência, pretendemos
implementar uma democracia total num futuro
Tibete livre. Assim, enquanto desenvolvemos a
nossa comunidade no exílio sob uma orientação
moderna, também nutrimos e preservamos a
nossa própria identidade e cultura e trazemos
esperança para milhões de compatriotas no
Tibete.
O assunto da maior preocupação e urgência
neste momento é a afluência maciça de colonos
chineses ao Tibete. Embora nas primeiras
décadas de ocupação um número considerável
de chineses tenha sido transferido para as
partes orientais do Tibete — nas províncias de
Amdo (Xingai) e Kham (cuja maior parte foi
anexada pela província chinesa vizinha), desde
1983 um número sem precedentes de chineses
foi encorajado pelo governo a migrar para
todas as partes do Tibete, incluindo o Tibete
central e ocidental (ao qual a República Popular
da China se refere como Região Autônoma do
Tibete). Os tibetanos foram rapidamente
reduzidos a uma minoria insignificante em seu
próprio país. Esse avanço, que ameaça a
própria sobrevivência da nação tibetana, sua
cultura e herança espiritual, ainda pode ser
interrompido e revertido. Mas isso precisa ser
feito agora, antes que seja tarde demais.
O novo ciclo de protesto e repressão violenta,
que começou no Tibete em setembro de 1987 e
culminou na imposição da lei marcial na capital,
Lhassa, em março deste ano, foi em grande
parte uma reação a essa tremenda afluência de
chineses. As informações que chegam até nós
no exílio indicam que marchas e outras formas
pacíficas de protesto continuam em Lhassa e
em vários outros locais no Tibete, apesar da
punição severa e do tratamento desumano
dado aos tibetanos por expressarem as suas
queixas. O número de tibetanos mortos pelas
forças de segurança durante o protesto de
março e o dos que morreram posteriormente
na prisão não são conhecidos, mas se acredita
que sejam superiores a duzentos. Milhares
foram detidos ou capturados e aprisionados, e a
tortura é comum.
Foi para contrapor os fatos que constituem a
base do agravamento dessa situação e para
evitar outro derramamento de sangue que
propus o que é geralmente chamado de O Plano
dos Cinco Objetivos para a Paz, para a
restauração da paz e dos direitos humanos no
Tibete. Elaborei o plano numa conferência em
Estrasburgo no ano passado. Acredito que ele
forneça uma estrutura sensata e realista para
as negociações com a República Popular da
China.
Contudo, até agora os líderes chineses
não têm se mostrado desejosos de responder
de maneira construtiva. A brutal supressão do
movimento democrático chinês em junho deste
ano, entretanto, reforçou o meu ponto de vista
de que qualquer decisão sobre a questão
tibetana somente será significativa se for
apoiada por garantias internacionais adequadas.
O Plano dos Cinco Objetivos para a Paz
relaciona os assuntos principais e
inter-relacionados aos quais me referi na
primeira parte desta conferência. Ele cita: (1) a
transformação de todo o Tibete, inclusive das
províncias orientais de Kham e Amdo numa
zona de ahimsa (não-violência); (2) abandono
da política de migração da população chinesa
para o Tibete; (3) respeito pelos direitos
humanos fundamentais e liberdade democrática
do povo tibetano; (4) restauração e
negociações intensivas sobre a posição futura
do Tibete e das relações entre os povos tibetano
e chinês.
Na conferência de Estrasburgo, propus
que o Tibete se transformasse numa entidade
política, democrática e com governo próprio.
Gostaria de aproveitar esta oportunidade para
explicar o que é a zona de ahimsa ou o conceito
de um santuário de paz, que é o elemento
central do Plano dos Cinco Objetivos para a
Paz. Estou convencido de que é de grande
importância não apenas para o Tibete, mas para
a paz e a estabilidade na Ásia.
Tenho um sonho de que todo o platô tibetano se
torne um refúgio livre onde a humanidade e a
natureza possam viver em paz e num equilíbrio
harmonioso. Seria um local aonde as pessoas
de todas as partes do mundo poderiam ir para
buscar o verdadeiro significado da paz dentro de
si mesmas, longe das tensões e das pressões
do restante do mundo. O Tibete poderia
tornar-se verdadeiramente um centro criativo
para a promoção e o desenvolvimento da paz.
Seguem-se os elementos-chave da zona de
ahimsa como foi proposta:
todo o platô tibetano seria desmilitarizado;
a fabricação, os testes e o armazenamento de
armas nucleares e outros armamentos no platô
tibetano seriam proibidos;
o platô tibetano seria transformado no maior
parque natural ou de biosfera do mundo. Leis
severas seriam redigidas para proteger a vida
selvagem e a vida vegetal; a exploração de
recursos naturais seria cuidadosamente
regulamentada para não haver danos relevantes
aos ecossistemas, e seria adotada uma política
de desenvolvimento sustentável nas áreas
habitadas.
Seriam proibidas a fabricação e a utilização de
armas nucleares e de outras tecnologias que
produzam resíduos perigosos;
os recursos nacionais e a política seriam
dirigidos para a promoção dinâmica da paz e da
proteção ambiental. As organizações dedicadas
a promover a paz de todas as formas de vida
seriam bem acolhidas no Tibete;
seria encorajado o estabelecimento no Tibete de
organizações internacionais e regionais para a
promoção e proteção dos direitos humanos.
A altitude e a extensão do Tibete (do tamanho
da Comunidade Européia) e também a sua
história única e a profunda herança espiritual o
tornam um local ideal para desempenhar o
papel de santuário da paz no coração
estratégico da Ásia. Isso também se ajustaria à
posição histórica do Tibete como uma nação
budista pacífica e como uma região
intermediária que separa grandes poderes do
continente asiático, muitas vezes rivais.
Para reduzir as tensões existentes na Ásia, o
presidente da União Soviética, Sr. Gorbatchev,
propôs a desmilitarização das fronteiras
soviético-chinesas e a sua transformação numa
"fronteira de paz e de boa vizinhança". O
governo do Nepal tinha proposto anteriormente
que a parte correspondente ao Himalaia do
Nepal, fronteiriça do Tibete, se tornasse uma
zona de paz, embora esta proposta não
incluísse a desmilitarização do país.
Para haver estabilidade e paz na Ásia, é
essencial criar zonas de paz para separar os
maiores poderes do continente e os adversários
em potencial. A proposta do Presidente
Gorbatchev, que inclui também uma retirada
completa das tropas soviéticas da Mongólia,
ajudaria a reduzir a tensão e o potencial
confronto entre a União Soviética e a China.
Uma verdadeira zona de paz deve também ser
claramente criada para separar os dois países
mais populosos do mundo: a China e a Índia.
O estabelecimento de uma zona de ahimsa
requereria a retirada das tropas e das bases
militares do Tibete, o que possibilitaria que a Índia
e o Nepal também retirassem suas tropas e
bases militares da região do Himalaia fronteiriça
do Tibete. Isto teria que ser conseguido por meio
de acordos internacionais. Seria do maior
interesse para todas as nações da Ásia,
particularmente da China e da Índia, pois
aumentaria a sua segurança ao mesmo tempo
em que reduziria a preocupação econômica de
manter uma grande concentração de tropas em
áreas remotas.
O Tibete não seria a primeira área estratégica a
ser desmilitarizada. Partes da Península do Sinai
— o território egípcio que separa Israel do Egito
— ficaram desmilitarizadas por algum tempo.
Naturalmente, a Costa Rica é o melhor exemplo
de um país totalmente desmilitarizado.
O Tibete também não seria a primeira área a ser
transformada numa reserva natural da biosfera.
Foram criados muitos parques desse tipo no
mundo. Algumas áreas especialmente
estratégicas foram transformadas em "parques
de paz" naturais. Dois exemplos são o Parque
La Amistad na fronteira entre a Costa Rica e a
Nicarágua.
Quando visitei a Costa Rica este ano constatei
como um país pode se desenvolver com
sucesso sem um exército, como se tornar uma
democracia estável comprometida com a paz e
com a proteção do ambiente natural. Isso
confirmou a minha crença de que a minha visão
do Tibete no futuro é um plano realista e não
meramente um sonho.
Permitam-me terminar com uma nota de
agradecimento a todos vocês e a seus amigos
que não se encontram aqui hoje. A
preocupação e o apoio que expressaram pela
situação dos tibetanos nos tocou imensamente
e continuará a nos dar coragem para lutar pela
liberdade e pela justiça, e não pelo uso de
armas, mas com as máquinas poderosas da
verdade e da determinação. Sei que falo em
benefício de todo o povo do Tibete quando
agradeço a vocês a peço que não esqueçam o
Tibete neste momento crítico da história do
nosso país. Esperamos também contribuir para
o desenvolvimento de um mundo mais pacífico,
mais humano e mais belo. Um futuro Tibete livre
buscará ajudar àqueles que passam por
necessidades em todo o mundo, a proteger a
natureza e a promover a paz. Acredito que a
nossa capacidade tibetana de combinar
qualidades espirituais com atitudes realistas e
práticas nos capacita a fazer uma contribuição
especial, embora de maneira modesta. Essa é a
minha esperança e a minha oração.
Para concluir, permita-me partilhar com vocês
uma pequena oração que me transmite grande
inspiração e determinação:
Enquanto o espaço existir
E enquanto houver seres humanos,
Que eu também permaneça,
Para dispersar a miséria do mundo.
Obrigado.
A UTILIZAÇÃO DO DINHEIRO
DO PRÊMIO NOBEL DA PAZ
Decidi doar uma parte do dinheiro do prêmio
para pessoas que estão enfrentando a fome em
várias partes do mundo; outra parte para
alguns programas dos leprosários na Índia; a
terceira para algumas instituições e programas
já existentes que trabalham pela paz; e,
finalmente, gostaria de utilizar uma parte dele
como uma semente para restabelecer
futuramente uma Fundação Tibetana para a
Responsabilidade Universal.
Essa nova fundação executará projetos
segundo os princípios budistas tibetanos para
beneficiar pessoas em todos os lugares,
focalizando especialmente o apoio aos métodos
não-violentos, o aperfeiçoamento da
comunicação entre religião e ciência, a proteção
dos direitos humanos e das liberdades
democráticas e a conservação e restauração da
nossa Mãe Terra.
Adicionei deliberadamente a palavra "Tibetana"
ao nome da fundação para que esta seja uma
das primeiras fundações verdadeiramente
tibetanas estabelecidas para agir a partir do
coração do povo tibetano com a finalidade de
realizar coisas boas e úteis não somente para o
seu próprio país, mas para pessoas em todo o
mundo.
O antigo Tibete era um pouco isolado. O futuro
Tibete será ativo na tarefa de ajudar os
necessitados em todo o mundo, utilizando
especialmente a nossa experiência nos assuntos
psicológicos, espirituais e filosóficos.
Naturalmente existem vários indivíduos,
fundações e governos que já trabalham nessas
áreas, e muitos mais certamente o farão à
medida que a crise planetária se tornar mais
óbvia e mais intensa. Mas acredito que a nossa
combinação tibetana de espiritualidade e sentido
de praticidade dê uma contribuição especial,
embora de maneira modesta. Quando essa
fundação começar a funcionar, esperamos ser
capazes de mostrar aquilo que um Tibete livre
pode dar ao mundo quando o seu momento
chegar.
(Oslo, Noruega, 10 de dezembro de 1989)
Pensamentos do 14o Dalai Lama
O Discurso do Prêmio Nobel da Paz
Os Direitos do Homem no Limiar do Século XXI
Ensinamentos: Bondade e Compaixão
Ensinamentos: Dimensões da Espiritualidade
Ensinamentos: Magia e Mistério no Tibete
Ensinamentos: Uma Abordagem Ética à
Proteção Ambiental
Um Conceito Budista de Natureza
Ensinamentos: A Encruzilhada da Ciência
Ensinamentos: Uma Colaboração entre a Ciência e a Religião
Mensagens do Dalai Lama
Uma biografia do Dalai Lama
Breve Diálogo com Leonardo Boff
Entrevista: o expansionismo da espiritualidade
Cooperação entre as Religiões do Mundo
Adam Yauch Entrevista S.S. o Dalai Lama
A Prática da Bondade supera a Razão (Por Pico Iyer)
Responsabilidade Universal, Direitos Humanos e Paz
Artigo da Revista The Tablet
Valores Humanos e sua Prática na Vida Cotidiana - 1
Valores Humanos e sua Prática na Vida Cotidiana - 2
Valores Humanos e sua Prática na Vida Cotidiana - 3
Valores Humanos e sua Prática na Vida Cotidiana - 4
Dalai Lama em São Paulo: 27 a 30 de abril de 2006
Do nascimento ao exílio - 1
Do nascimento ao exílio - 2
Os três principais comprometimentos de vida
Ensinamentos: a importância de plantar e proteger árvores
Ensinamentos: Ecologia e o coração humano
Harmonia religiosa
Ensinamentos: Religião no mundo de hoje
Ensinamentos: Pensando globalmente - uma tarefa universal
Ensinamentos: sumário do budismo
Ensinamentos: um Meio-Ambiente limpo é um Direito Humano
Ensinamentos: uma mente tendenciosa não percebe a realidade
Os Dalai Lamas
FONTE DOS TEXTOS
http://www.dalailama.org.br
www.NewWordGames.com - Author: Euro Oscar - © 2008
All Rights Reserved - Contact: eurooscar@gmail.com
|
|