ARTIGO DA REVISTA THE TABLET
SOBRE O DALAI LAMA

"SÃO BELOS SOBRE AS MONTANHAS OS PÉS DO MENSAGEIRO DE PAZ."

Sentado com o Dalai Lama, em uma sala ligeiramente quente demais, semana passada em Belfast, para uma série de encontros com líderes políticos, observava como ele se adaptava às diferentes personalidades, procurando compreender seus pontos de vista (e seus sotaques) e, notava o quanto eles calorosamente acreditavam nele e, se sentiam atraídos por ele, fazendo-me lembrar das palavras de Isaías: "Quão belos sobre as montanhas são os pés daquele que traz a mensagem de paz".


Alguns anos atrás, ouvi o Cardeal Piovanelli — então Arcebispo de Florença — utilizar estas palavras em seus agradecimentos ao líder budista tibetano e Nobel da Paz, logo após um culto inter-religioso. Senti-me orgulhoso de minha Igreja naquele momento. Ouvira um de seus líderes retirar de seu repositório interior das escrituras, palavras que mostravam que ele pudera reconhecer a eterna Palavra, viva e ativa, fora de suas próprias fronteiras. Naquele momento o cristianismo me pareceu verdadeiramente católico, abrangente e verdadeiramente religioso, livre do egoísmo e do narcisismo das pequenas diferenças que atormentam instituições e seitas.


O Dalai Lama estava na Irlanda do Norte para, por três dias, participar do The Way of Peace, um programa anual da Comunidade Mundial para a Meditação Cristã, que procura trazer consciência contemplativa e amizade inter-religiosa ao trabalho global de construção da Paz.


Ele visitou a Irlanda do Norte pela primeira vez no ano 2000, com a Comunidade Mundial e, foi entusiasticamente cumprimentado pela maioria dos setores da sociedade, desde Peter Mandelson, então Secretário de Estado, até as crianças de rua de West Belfast. Desta vez, a recepção oficial foi de menor repercussão, em razão da intimidação que a China pôde exercer sobre o governo britânico e outros governos ocidentais sedentos de acordos comerciais. Porém, os líderes de cada partido político responderam calorosamente a um convite para encontrá-lo, compartilharem seus pontos de vista sobre o processo de paz e, ouvirem sua abrangente e sábia visão global.


Um após o outro, eles o agradeceram por ter vindo e por ter alargado suas visões. Ninguém melhor do que os líderes da Irlanda do Norte, onde recentemente crianças inventaram o passatempo dos violentos distúrbios recreativos (recreational rioting), para entender as conseqüências da falta de visão.


O Dalai Lama lhes disse que não tinha nada a ganhar da Irlanda do Norte, mas, como ser humano, ele se sentia mal em ver conflito e violência ligados à religião. Causava-lhe perplexidade que diferenças pequenas (para ele), entre católicos e protestantes, pudessem produzir tamanho ódio e, contrapondo-se, ele apontava para seu diálogo com cristãos. Se ele, um não teísta, podia ser amigo de crentes, isso não estaria dizendo algo quanto a podermos encarar as diferenças como pontes em vez de divisões?


Eu imaginava o porque desses líderes políticos, juntamente com a Comunidade Corrymeela que ele visitou, bem como os líderes cívicos com quem ele falou no Waterfront Hall, gostarem tanto dele e acreditarem nele tão profundamente. Quando ele conversou com Gerry Adams e Sinn Fein, eu os vi desarmados, em outro sentido da palavra, por sua simplicidade e autenticidade.


Sua autoridade, como toda autoridade autêntica, lhe é concedida por aqueles que ele lidera ou ensina. Não há astúcia ou coerção. Seu compromisso com a não-violência está profundamente arraigado em sua personalidade. Também não há a ostentação da celebridade, pois ele é genuinamente humilde, pé no chão e acessível.


Ele comunicou, como sempre com objetividade pessoal extraordinária, às cerca de mil pessoas na Catedral da Igreja da Irlanda onde realizamos o culto meditativo que concluiu o programa e, às centenas de pessoas que ficaram do lado de fora; porém, ele não manipula a audiência. Ele parece mesmo amar as pessoas que vê e, genuinamente gostaria de encontrar e cumprimentar a cada um. Sua alegria, que na concepção budista é um sinal da compreensão da vacuidade, é contagiante.


No Dalai Lama, não há aquela ansiedade da busca e da defesa do poder de muitos líderes religiosos e políticos. E, mesmo assim, ele se faz ouvir com mais confiança e afeição do que qualquer político e, do que muitos clérigos conseguem.


Talvez sua autoridade esteja na própria falta de poder. Afinal, ele é um refugiado. Ele viaja com permissão de viagem e não com passaporte, mas se encontrou com o presidente dos Estados Unidos alguns dias antes, com a mesma familiaridade que ele demonstrou ao jogar uma bola de basquete para as crianças de ambas as divisões de Belfast.


Quando estou com ele, penso na descrição do peregrino do I Ching, o livro chinês da sabedoria: "Um peregrino é aquele que busca. Terras estranhas e separação são sua sina: sucesso através da pequenez." Sua pequenez é imensa. Seu sucesso não é nem político, nem econômico. Após 50 anos de ocupação e genocídio, seu país arrisca a extinção cultural. Políticos se encontram com ele, se isso lhes for cômodo, porém, poucos ousam discutir a questão do Tibete com os chineses.


Talvez seja essa grandeza sem poder que, como um cristão, me faz ver o Cristo manifestado nele e, me faça vê-lo como um dos poucos professores que conheci cuja simples observação ou permanência a seu lado é um aprendizado.


Por ocasião do Natal celebramos a Palavra que encarnou. Será, porém, uma celebração vazia, uma festa da qual outros estarão excluídos, a menos que seja tocada pela consciência de que há outras e muitas manifestações e alianças através das quais Deus se faz conhecer. E, caso existam, os cristãos abençoados com o conhecimento da Palavra encarnada deveriam estar sintonizados com a Palavra onde quer que Deus a pronuncie.



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FONTE DOS TEXTOS

Artigo de Dom Laurence Freeman
para a revista católica inglesa The Tablet
sobre o encontro dele com o Dalai Lama
na Irlanda do Norte.


Publicado em 29 de novembro de 2005.


Traduzido por Rute Cardoso
e revisado por Arnaldo Bassolli.
http://www.dalailama.org.br/ensinamentos/tablet.htm




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