RESPONSABILIDADE UNIVERSAL,
DIREITOS HUMANOS E PAZ
PALESTRA PROFERIDA POR SHRI RAVINDRA VARMA, PRESIDENTE DA GANDHI PEACE FOUNDATION
1. Eu me uno a todos que rendem homenagem
a Sua Santidade o Dalai Lama como consciência
articulada da humanidade, encarnação da
sabedoria e da compaixão, alguém que
transcendeu o ego e as limitações que este
impõe. Hoje pudemos ver a diversidade e a
riqueza dos ângulos a partir dos quais esse
assunto pode ser visto. Eu escolhi um desses
ângulos, ao qual vou me ater.
2. Ao focalizar a atenção da humanidade na
responsabilidade universal e ao nos convidar
para uma reflexão a respeito das causas da
nossa atual condição, dos desafios que
enfrentamos hoje e o caminho para
sobrevivermos e progredirmos, Sua Santidade o
Dalai Lama nos lembra dos paradigmas
imutáveis da espécie humana. Diferente das
outras espécies, os humanos não estão
condenados a viver prisioneiros de seus
próprios instintos. As características específicas
de suas mentes e de suas vontades lhes dão a
condição de refinar e domar seus instintos,
como também de se aventurar além desses
limites. Suas mentes os habilitam a entender as
leis da natureza, imaginar ou enxergar
alternativas, formular e definir metas, e
mobilizar os meios e tomar os rumos que os
levem às suas metas.
Todas as suas ações,
portanto, se baseiam em escolhas. Elas podem
ser pensadas, impulsivas ou inconscientes.
Podem resultar de inércia, covardia ou audácia.
Mas, em qualquer dos casos, a ação ou reação
envolve escolhas a partir de alternativas e,
portanto, o ser humano tem que assumir a
responsabilidade pelas conseqüências que
decorrem de suas escolhas e ações. Essa
responsabilidade não recai sobre os demais
animais. Assim, com a habilidade de se
aventurar além dos limites dos instintos, os
seres humanos adentraram os domínios da
responsabilidade. O ser humano, portanto, é
responsável pelo que faz de sua vida e com seu
ambiente social e natural, assumindo essa
responsabilidade não só frente a si mesmo
como também frente a todos aqueles cujas
vidas são afetadas por suas ações e em cujo
nome faz escolhas e toma decisões para poder
agir.
3. As escolhas que o ser humano é levado a
fazer são muitas e se apresentam em todos os
campos e aspectos da vida e, na verdade, a
todo momento vivido. Para mencionar somente
algumas, elas afetam nossas motivações,
nossas ações e reações nas áreas de consumo,
produção, nos relacionamentos, nos limites
institucionais da nossa sociedade, nas
organizações que formamos ou usamos, nos
processos decisórios, nas aprovações para nos
adequarmos às decisões consensuais, nas
instituições onde há opiniões divergentes, nos
conflitos que surgem como resultado de
diferenças, nos meios que adotamos para
solucionar esses conflitos e assim por diante.
4. A necessidade de fazer escolhas e a liberdade
de escolher surge a partir da nossa habilidade de
entender a natureza e suas leis. O ser humano
tem a capacidade de entender a lei fundamental
de causa e efeito que rege o universo no qual
atua. Consegue correlacionar eventos e
acontecimentos com suas causas. Percebe que
a relação entre causa e efeito é imutável e
inexorável. Uma vez que tem a capacidade de
identificar causas, também assume a
responsabilidade de prever os efeitos dessas
causas, ou as causas que provoca com suas
ações. Essa habilidade não só o habilita a
acompanhar as causas que surgem no
momento presente, como também a prever os
possíveis efeitos decorrentes das causas que
cria, tanto pela ação individual como pela ação
coletiva ou grupal.
5. A escolha crucial que hoje se apresenta à
humanidade é decidir entre a sobrevivência e o
suicídio, a sobrevivência e a extinção. Armas de
destruição em massa, terrorismo e avançados
métodos tecnológicos de guerra puseram a
humanidade face a face com todo o espectro
de destruição indiscriminada e completa da
espécie e de tudo o que apoia a vida tal como
existe hoje no planeta. Ninguém está a salvo.
Nada é seguro. Ninguém está imune. Ninguém
pode garantir segurança. As fronteiras perderam
o seu significado. Todas as distinções entre
combatentes e não combatentes, vítimas e
vencedores foram apagadas. Todos estão
vulneráveis. Nem mesmo a maior superpotência
pode prever onde e como a destruição vai
acontecer, muito menos criar um escudo de
imunidade para proteger cidadãos ou
instalações, inclusive instalações das quais a
vida depende. Nenhuma arma sofisticada nem
sistema de alarme pode garantir imunidade.
Esse regime de vulnerabilidade universal tem
produzido uma crescente consciência do
significado da guerra e suas variações para o
ser humano comum, inclusive para mulheres e
crianças que têm sido talvez as mais atingidas
por mortes, sofrimento, miséria e violação da
dignidade humana, mais ainda do que os
combatentes. Essa maior consciência tem
levado a uma crescente disposição para intervir
em defesa própria, contra a guerra como
instrumento de política ou reconciliação. As
manifestações de protesto contra guerras no
Iraque e demais países, vistas em centenas de
capitais pelo mundo, evidenciam o anseio
universal das pessoas pela paz e pelos meios
pacíficos de resolução de disputas.
6. Se o potencial bélico de auto destruição da
espécie humana criou nas pessoas um anseio
generalizado pela paz, gerou também uma
consciência crescente do potencial de auto
preservação da humanidade, da
responsabilidade universal para se engajar em
ações que assegurem a auto preservação. Não
é suficiente que a paz surja como aspiração; ela
tem que ser encarada e aceita como um
imperativo para a sobrevivência e, portanto,
como o objetivo soberano do indivíduo e dos
grupos sociais. O atingimento de qualquer
objetivo depende da nossa prontidão em
renunciar a tudo que impeça o nosso progresso
na direção desse objetivo. Isso ocorre quando o
objetivo supremo é o objetivo da sobrevivência.
Passa a ser muito necessário extirpar tudo o
que signifique a antítese ou o repúdio à paz, e
também promover o que quer que seja
essencial e conducente à paz, escolher o
caminho que leva à paz e não aquele que leva à
guerra, à violência e aos viveiros onde
germinam as sementes dos conflitos, dos ódios
e dos espíritos vingativos.
Agora reconhecemos
que as guerras não surgem do nada. Elas
emergem a partir de causas que têm seus
próprios períodos de gestação. Tal como aceito
pelas Nações Unidas, essas causas afloram na
mente dos homens. Se devemos eliminar a
guerra, suas causas têm que ser eliminadas e,
uma vez que as causas que queremos eliminar
surgem na mente humana, são as nossas
mentes que têm que ser submetidas a um
exame minucioso, trazidas sob o microscópio
para detectar e eliminar as atitudes, crenças e
instituições construídas com base nessas
crenças que abrigam as sementes da guerra e
da violência. As instituições podem e precisam
ser submetidas a exame detalhados por aqueles
que as criam e as mantêm, honrando o
consentimento e as sanções que dão origem a
sua existência e autoridade. Mas se essas,
como também as crenças e as atitudes que as
direcionam e sustentam, surgem e reinam nas
mentes dos indivíduos, o principal objeto de
escrutínio torna-se a mente do ser humano.
Nenhum ser humano pode examinar a mente
de outro com a mesma clareza e eficácia como
faria com sua própria mente. As sementes da
guerra não podem ser, portanto, eliminadas
sem o exame implacável de nossas mentes,
conduzido individualmente e em conjunto — e a
responsabilidade por esse escrutínio é
inalienável, inevitável e universal.
7. Nenhum ser humano, em circunstâncias
normais, vive como uma ilha. Vive em
sociedade. Sua vida, pensamentos, emoções e
aspirações são todos influenciados por
pensamentos, emoções e ações dos outros, —
seja através das instituições ou do contato
pessoal. Cada ser humano vive, portanto,
através da interação constante com o ambiente
que habita — seu habitat social como também
seu habitat natural.
A paz em sua mente, tanto
quanto o estado de paz na sociedade em que
vive, depende, portanto: (I) do estado e das
atitudes mentais do indivíduo; (II) do estado do
ambiente social no qual vive — incluindo o
estado das instituições que dirigem sua vida
econômica, política, cívica e social; e (III) do
estado do ambiente natural que é afetado por
suas ações individuais e coletivas, e do impacto
resultante, que por sua vez afeta sua habilidade
de satisfazer suas vontades e aspirações, como
também as calamidades que são provocadas
pela gradual acumulação dos efeitos de suas
ações — como no caso da escassez e poluição,
e calamidades naturais como enchentes, etc.
8. Tal escrutínio ou reflexão com certeza nos
dirá que guerra ou paz não são um monólito,
mas o resultado cumulativo de muitos
ingredientes; que o edifício da paz não pode ser
construído com tijolos cozidos no fogo do ódio
ou da injustiça mútua; que cada tijolo terá,
portanto, que ser examinado e cuidadosamente
selecionado.
9. A escolha do caminho ou dos meios é
igualmente crucial. Paz não é um evento. É um
estado. Um estado da mente,
conseqüentemente refletido no estado das
instituições sociais. Tal estado mental não pode
ser criado ou mantido pela maximização ou
emprego de forças que são antitéticas à
equanimidade e à paz. A paz é, portanto, um
fim que não podemos atingir exceto através de
meios que sejam coerentes com o objetivo, ou
seja, a paz. Não pode ser que nós desejemos a
paz, mas tentemos chegar a ela através do que
a solapa e a destrói.
Como disse o grande
Shantideva, não pode ser que tentemos eliminar
o sofrimento pela busca daquilo que faz sofrer.
Dukhasya hetum ichhanti, dukham nechhanti
manavah: — ou, como disse Buda: Ma
Lohagulam gili pamatto, ma kandi dukham
idamti dahyamano — "Se engolir a bola quente
e vermelha, atraído pela sua cor rosada, quando
ela o queimar não se lamurie de estar sofrendo
uma dor excruciante."
10. Tal escrutínio ou reflexão com certeza nos
revelará a relação inexorável entre paz e
justiça. Não pode haver paz mental para o
indivíduo, ou paz ou harmonia, numa sociedade
onde a mente do indivíduo ou de muitos que
constituem qualquer grupo são atormentadas
pelo senso de injustiça e pela indignação que
provém dela. Tal sentimento abre caminho para
a desavença, a alienação, o desejo ardente de
assegurar a justiça mesmo ao custo de uma
ordem perturbadora e aparentemente pacífica
que, de fato, se apóia na violência sistemática e
na supressão — conduzindo afinal à sublevação
violenta ou ao combate de um tipo ou de outro.
A paz, portanto, depende da justiça e a justiça
depende do sucesso da sociedade em assegurar
oportunidades iguais de crescimento,
auto-expressão e auto-realização. Um regime
de iniqüidade ou oportunidades desiguais,
condições desiguais de sobrevivência somente
pode ser sustentado ou eternizado pela força,
que é uma descrição eufemística de violência e
das variantes de luta.
As Nações Unidas
reconheceram, portanto, que direitos humanos
são pré-requisitos da paz. É a ausência,
privação ou violação dos direitos humanos que
conduz ao incitamento às violações da paz ou
aos levantes que se precipitam em formas de
luta. A renúncia às armas de destruição em
massa é boa. Desarmamento é bom. Não é
somente bom, mas necessário. Mas armas
são sintomas, reflexos, resultados da crença de
que a guerra é um instrumento legítimo e
efetivo de acerto de diferenças e disputas em
torno de interesses. Enquanto tal crença
sobreviver, o espectro da guerra assombrará a
humanidade.
Depois de todos esses séculos de
guerra, e depois da transformação que a guerra
sofreu, tornou-se necessário avaliar a guerra
como um instrumento — como um meio. Qual
é o seu custo-benefício para o cidadão, para a
sociedade, para a humanidade? O preço que ela
exige de nós vai além do que a humanidade
pode pagar se quiser sobreviver? Ela terá se
tornado fútil e suicida?
11. A paz, então, está inextricavelmente
entrelaçada à presença dos direitos humanos; e
sua violação ou privação em qualquer forma,
seja no Tibete ou Dafur, na Índia, no Iraque, no
Oriente Médio, ou onde quer que seja, cria
motivos que colocam em perigo e solapam a
paz.
Todos os seres humanos têm direito à vida
e, portanto, ao acesso a água, comida, abrigo e
serviços médicos, inviolabilidade da dignidade
humana, oportunidades iguais e tudo mais.
Indivíduos, assim como grupos, têm esses
direitos. Quando eles são negados, criam-se as
causas do conflito e não da paz; e o resultado é
guerra, terrorismo e outras formas de combate.
Discriminação, privação, disparidades,
manipulação de disparidades no acesso a
recursos, e muitas outras ameaças à paz
podem ser identificadas e analisadas. Estou
certo de que muitos oradores e participantes
neste seminário o farão.
Meu objetivo específico
foi colocar diante de vocês alguns pensamentos
sobre os imperativos da paz e como estes
dependem do senso universal de
responsabilidade e do compromisso de
engajamento no esforço para prevenir a guerra
e para promover e sustentar a paz.
Obrigado!
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FONTE DOS TEXTOS
Palestra proferida por Shri Ravindra Varma,
presidente da Gandhi Peace Foundation, em Nova Delhi, 06 de novembro de 2005.
Traduzido por Robinson Pitelli.
http://www.dalailama.org.br/ensinamentos/responsabilidade.htm
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