ENSINAMENTOS
DO DALAI LAMA
UMA COLABORAÇÃO ENTRE
A CIÊNCIA E A RELIGIÃO
Estes são tempos onde emoções destrutivas
como a raiva, o medo e o ódio causam
problemas devastadores no mundo todo.
Enquanto o noticiário oferece lembranças cruéis
do poder destrutivo de tais emoções devemos
nos perguntar: o que podemos fazer para
superá-las?
Naturalmente tais emoções destrutivas sempre
fizeram parte da condição humana — a
humanidade vem lutando com elas há milhares
de anos. Mas eu acredito que temos uma
oportunidade valiosa para progredir em como
lidar com elas através da colaboração entre a
religião e a ciência.
Com isso em mente, desde 1987, eu estou
participando de uma série de diálogos
progressivos com grupos de cientistas. Estes
são organizados pelo Instituto Mente & Vida e
os tópicos abrangem da Física Quântica e
Cosmologia à Compaixão e Emoções
Destrutivas. Eu percebi que enquanto tópicos
científicos oferecem uma compreensão mais
profunda de campos do conhecimento como a
Cosmologia, me parece que as explicações
budistas, às vezes, podem dar aos cientistas
uma nova maneira de olhar para seu próprio
campo.
Nosso diálogo forneceu benefícios não apenas
para a ciência, mas também para a religião.
Embora os tibetanos tenham um valioso
conhecimento sobre o mundo interno, nós
estamos materialmente atrasados, em parte
por causa da falta do conhecimento científico.
Os ensinamentos budistas enfatizam a
importância de compreender a realidade,
portanto nós devemos prestar atenção no que
os cientistas modernos realmente descobriram,
através de experimentos e também através do
dimensionamento das idéias que provaram ser
reais.
No começo destes diálogos havia muito poucos
budistas — no início éramos apenas eu e dois
tradutores. Mas recentemente começamos a
introduzir estudos da ciência moderna em
nossos monastérios, e no nosso diálogo mais
recente sobre a ciência havia na audiência mais
ou menos vinte monges tibetanos.
Há dois
níveis no objetivo destes diálogos. Um é o nível
acadêmico, isto é, a expansão do
conhecimento. Percebo que o discurso científico
simplificado foi uma ferramenta extraordinária
para a compreensão do mundo material,
fazendo um enorme progresso em nossa vida
— apesar de haver ainda muito a explorar. Mas
a ciência moderna não parece ser tão avançada
em relação às experiências internas.
Em contraste, o Budismo, que advém de um
pensamento indiano antigo, vem refletindo e
investigando profundamente o funcionamento
da mente. Durante séculos muitos realizaram o
que nós podemos chamar de experimentos
neste campo e obtiveram experiências
significativas, até mesmo extraordinárias, como
resultado das práticas baseadas no
conhecimento que acumulavam. Assim sendo,
discussões e o estudo acadêmico em conjunto
entre cientistas e estudiosos budistas podem
ser úteis para a expansão do conhecimento
humano.
Em um outro nível, se a humanidade quer
sobreviver, a felicidade e a paz interna são
cruciais. Se não, a vida dos nossos filhos e dos
filhos deles provavelmente será infeliz,
desesperada e curta. A tragédia de 11 de
setembro de 2001 demonstrou que a
tecnologia moderna e a inteligência humana
guiadas pelo ódio podem conduzir a uma
imensa destruição.
O desenvolvimento material
certamente contribui para a felicidade, num
certo nível, e a uma vida confortável. Mas isto
não é suficiente. Para alcançar um nível mais
profundo de felicidade não podemos negligenciar
nosso desenvolvimento interno. Eu sinto, por
exemplo, que nossa consciência dos valores
humanos fundamentais não manteve o mesmo
ritmo dos novos e poderosos desenvolvimentos
do campo material.
Por essa razão tenho incentivado cientistas a
examinarem praticantes espirituais tibetanos
avançados, para ver quais efeitos da sua prática
espiritual podem beneficiar a outros fora do
contexto religioso. Uma abordagem poderia ser
nos apropriarmos do auxílio dado pelos
cientistas na tentativa de tornar o
funcionamento destes métodos internos mais
claros. O ponto importante aqui é aumentar
nossa compreensão do mundo da mente, da
consciência e de nossas emoções.
Os experimentos realizados mostram que
alguns praticantes podem alcançar um estado
da paz interna, mesmo enfrentando
circunstâncias perturbadoras. Os resultados
mostram que tais pessoas são mais felizes,
menos suscetíveis às emoções destrutivas e
mais sintonizados com os sentimentos dos
outros.
Estes métodos não são somente úteis; são
também baratos: você não necessita comprar
nem fabricar nada. E também não necessita de
drogas ou injeções.
A pergunta seguinte é como podemos
compartilhar destes resultados benéficos com
pessoas além daquelas que são budistas. Não é
enfocar o budismo como uma tradição religiosa
— é simplesmente uma maneira de tentar
tornar claro o potencial da mente humana.
Todas as pessoas, ricos ou pobres, educados
ou não, têm o potencial de levar uma vida
pacífica e significativa. Nós devemos explorar o
máximo que pudermos como tornar isto
possível.
No curso dessa exploração tornar-se-á óbvio
que a maioria dos distúrbios são estimulados
não por causas externas, mas por eventos
internos, como o aparecimento de emoções
destrutivas. O melhor antídoto para combater a
origem destes distúrbios é aumentarmos nossa
habilidade em lidar com estas emoções em nós
mesmos. Portanto necessitamos desenvolver
uma consciência que forneça os recursos e
caminhos para superar as emoções destrutivas
e negativas em nós mesmos.
Os métodos espirituais estão disponíveis, mas
nós devemos torná-los acessíveis a pessoas
que podem não ser influenciáveis pela
espiritualidade. Somente se pudermos fazer isso
estes métodos terão um amplo efeito. Isto é
importante porque a ciência, a tecnologia, e o
desenvolvimento material não podem resolver
todos os nossos problemas. Nós necessitamos
combinar nosso desenvolvimento material com
o desenvolvimento interno de valores humanos
como a compaixão, a tolerância, o perdão, o
contentamento e a autodisciplina.
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FONTE DOS TEXTOS
Proferido por Sua Santidade o 14° Dalai Lama,
em 14 de Janeiro de 2003.
Traduzido por Thilie Sproesser
e revisado por Arnaldo Bassolli.
http://www.dalailama.org.br/ensinamentos/colaboracao.htm
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